Marcon é preso em ação de despejo em Sapucaia do Sul
Bancadas da Assembléia prestam solidariedade ao parlamentar e exigem punição dos responsáveis. Por Kiko Machado, 19 de novembro, 2003


Brigada Militar age sem pensar no RS
O deputado Dionilso Marcon (PT-RS) foi preso, hoje (19), quando acompanhava uma ação de despejo no município de Sapucaia do Sul. Na tentativa de ajudar uma senhora que estava desmaiada dentro da área, um oficial de justiça deu ordem de prisão ao deputado e determinou que a brigada militar a cumprisse. O parlamentar foi conduzido até a 2ª DP de Sapucaia do Sul pela Policia Militar. "Além da falta de sensibilidade humana, foi também agressão contra o Poder Legislativo. Eu apenas estava negociando a situação para impedir violência e ajudando essa senhora que estava numa crise nervosa ao ver sua casa sendo destruída. O oficial de Justiça entendeu este gesto como obstrução ao cumprimento da lei".

De forma unânime, todas as Bancadas da Assembléia prestaram solidariedade ao parlamentar e exigiram punição exemplar para os responsáveis. Após ter sido liberado, Marcon retornou à área para apoiar as famílias, argumentando que algumas pessoas estão desesperadas e explicou que está em curso uma negociação onde o despejo estava protelado até o dia 8 de dezembro. Ele e o deputado Edson Portilho, inclusive, estiveram em Brasília em busca de recursos junto ao Ministério das Cidades para a realocação das famílias que vivem há mais de três anos no Passo do Garimpo, uma área localizada entre Sapucaia do Sul e São Leopoldo, perto da estação do Trensurb. Ele assinalou que algumas famílias inclusive compraram os terrenos e, apesar disso, todos estão sendo atingidos pela ação de reintegração de posse solicitada pelo proprietário da área.

Protestos na Assembléia
A detenção do deputado Dionilso Marcon (PT) provocou protestos na Assembléia Legislativa. Deputados de oposição e situação criticaram o fato. Marcon foi detido por desobediência à ordem judicial durante a reintegração de posse de uma área no Passo do Garimpo, em Sapucaia do Sul, ontem pela manhã. Deputados encaminharam ofício ao presidente Vilson Covatti (PP), solicitando medidas para que haja um desagravo ao parlamentar detido.

O presidente da AL encaminhou a solicitação ao procurador-geral do Parlamento para tomar as medidas cabíveis. "Não foi o deputado Marcon que foi preso, foi o legislativo gaúcho", afirmou o chefe do Legislativo sobre o caso. O petista pretendia negociar a desocupação da área, onde 300 famílias moram há quatro anos. Marcon explica que já havia sido acertado um prazo para que a desocupação fosse feita dia 29 de dezembro, mas o proprietário do terreno recorreu novamente à Justiça e conseguiu um novo mandado de reintegração.

A primeira informação, de que Marcon teria sido preso (em vez de detido), gerou indignação entre os parlamentares. O presidente da Comissão de Direitos Humanos, Estilac Xavier (PT), repudiou a prisão irregular e comunicou o fato ao presidente do Parlamento, Vilson Covatti (PP), solicitando providências à Secretaria da Justiça e da Segurança para a liberação do parlamentar. Segundo Marcon, ele teria sido conduzido à delegacia por policiais militares, mas o titular da 2ª Delegacia de Sapucaia do Sul, Régis Gomes dos Santos, revelou que a voz de prisão foi dada pelo oficial de Justiça, o que não configura irregularidade.

Confira os depoimentos

Presidente da Assembléia Legislativa, deputado Vilson Covatti (PP): "Tão logo tomei conhecimento do episódio, entrei em contato com o comandante da Brigada Militar e o chefe da Polícia Civil para que fosse assegurado ao deputado todos os seus direitos, porque estava no exercício de seu mandato quando foi detido".

Líder da bancada do PT, deputado Ivar Pavan: "Abriu-se um precedente jamais visto na nossa história: prender um deputado no cumprimento do seu papel de parlamentar. Não vimos isso sequer na época da ditadura militar".

Presidente da Comissão de Constituição e Justiça, deputado João Osório (PMDB): "Perguntei-lhe se houve arbitrariedade por parte da representação do governo na área de Segurança Pública. O deputado Dionilso Marcon foi correto, honesto e respondeu: Não houve arbitrariedade, João Osório. A arbitrariedade partiu do oficial de Justiça".

Deputado Elvino Bohn Gass (PT): "É inaceitável que esse fato tenha acontecido. Espero que isso não seja reflexo dos que defendiam a necessidade de levantar a auto-estima da Brigada Militar. Talvez, a forma como esse tema da auto-estima tenha sido tratado provoque ações dessa ordem".

Líder da bancada do PP, deputado Jair Soares: "A Brigada Militar do Estado, que está completando 166 anos de relevantes serviços prestados ao nosso Estado, em hipótese alguma, em momento algum poderia cumprir uma determinação manifestamente ilegal".

Presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos, deputado Estilac Xavier (PT): "Lamentavelmente, como foi dito, o dano é irreparável. Agora para amenizar, há que se ter exemplar punição dos responsáveis, tanto o oficial de Justiça, que determinou a voz de prisão, como o policial que a executou".

Deputada Jussara Cony (PCdoB): "O que aconteceu hoje, de um oficial de Justiça dar voz de prisão, e a Brigada cumprir, é um retrocesso na luta de todos que buscam uma sociedade justa. Tem que haver uma imediata ação do Governo do Estado para esclarecer de onde saiu essa ordem".

Deputado Luis Fernando Schmidt (PT): "Gostaria de saber se no não-cumprimento da lei por parte daqueles que defendem o latifúndio improdutivo, por exemplo, este Oficial de Justiça teria o mesmo procedimento que manteve com relação ao deputado".

Líder do governo, deputado Alexandre Postal (PMDB): "Não foi a Brigada Militar que prendeu, foi o Oficial de Justiça que prendeu, e a Brigada Militar acompanhou. A Brigada Militar simplesmente acompanhou e deu carona para o deputado Dionilso Marcon".

Deputado Marlon Santos (PFL): "Será que os Poderes estão sendo considerados? Será que o Poder Legislativo está sendo respeitado? Creio que não".


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