| O improviso e o destempero verbal
Didymo Borges, 31 de outubro, 2003 Em discurso pronunciado hoje em Campina Grande (PB) o presidente Lula da Silva afirmou que "muitos dos presidentes" que o antecederam foram covardes e não enfrentaram o ônus de fazer as reformas que agora ele está promovendo. O discurso foi de improviso e, certamente, o presidente acabou por usar um termo inadequado para suas pretensões na fala bem como inconveniente para suas intenções políticas. Certamente ele não se referiu a José Sarney que tem sido um fiel escudeiro na presidência do Senado Federal. Nem tampouco se referiu a Itamar Franco que foi indicado pelo governo petista para embaixador na Itália. Deve-se também isentar da pecha de covarde os presidentes da regime militar que estão mortos e fora do cenário político. Então a pecha de covarde só pode recair sobre Collor e FHC. Ocorre que Collor é, politicamente, um morto-vivo, um vulto envolto numa bruma que resulta em distanciamento, esquecimento e rejeição. Assim, a pecha terá sido aplicada sobre FHC e, neste caso, o termo que Lula usou é totalmente inadequado para se atribuir a FHC a falta de hombridade, de iniciativa e coragem para o enfrentamento das reformas da previdência e do sistema tributário-fiscal. Havemos de convir que é completamente inadequado que um presidente faça acusações a um outro que o antecedeu. Deve haver um consenso ético no comportamento de um presidente em relação aos outros que o antecedeu. A contundência de um termo no discurso depende do contexto em que é pronunciado. Mas neste caso haveria termos mais brandos que daria uma igual conotação do termo covarde mas que evitaria a contrariedade das reações adversas. Digamos que Lula tivesse empregado o termo omissos para definir aqueles presidentes que o antecederam e não foram capazes de enfrentar os percalços das reformas. Seria um termo mais brando mas que daria todo o significado que o orador quis dar com uma palavra mais contundente, capaz de gerar reações que demandarão retratação. Pelos exemplos anteriores de extrapolação do conveniente ao falar de improviso é possível que o presidente acabe por se subordinar às evidências e acabe adotando o discurso lido como o mais seguro e o que tem menor capacidade de ofensividade.
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