De Benedita a FHC
Sebastião Nery, Tribuna
da Imprensa
11 de novembro, 2003
Carlos Castelo Branco, ético
e cético, dizia que falar em "ética na política" seria
como falar em "estética na política" contra feios na vida
pública. Mas não é por isso que os políticos
estariam dispensados da ética. Agora, é oficial. O mais categorizado
porta-voz tucano na imprensa, Merval Pereira, contou domingo no "Globo":
"O ex-presidente Fernando Henrique estará em Washington até
o fim do ano, com uma bolsa (!) da Biblioteca Nacional (!) para escrever
um livro". Está lá desde setembro e só volta em janeiro.
Biblioteca Nacional
Por causa de R$ 4,5 mil
reais de duas passagens oficiais de avião para ir a Buenos Aires
participar de uma "oração" em um congresso evangélico,
quase a ministra Benedita da Silva ("mulher, negra e favelada") foi apedrejada
em praça pública, como se faz na Nigéria. E quem comandou
o coro do apedrejamento "ético" foi o PSDB de FHC. O brilhante e
dançante ministro da Cultura, Gilberto Gil, e o bravo e pugiloso
líder tucano no Senado, Artur Virgilio, estão no dever de
explicar ao País, hoje mesmo (nem um dia a mais), essa história
da bolsa de Washington. Como foi que a Biblioteca Nacional, órgão
público do Ministério da Cultura, concedeu uma bolsa de quatro
meses para o ex-presidente Fernando Henrique ir para Washington escrever
um livro? De quanto é a bolsa?
Comitê de ética
Não se trata de picuinha
política nem de cobrança de fato irrelevante. Saído
da Presidência, Fernando Henrique é um cidadão como
outro qualquer. Para receber um polpudo e privilegiado financiamento do
governo, é preciso que a decisão oficial esteja calcada na
ética e cercada de toda legalidade. Onde está o diligente
Comitê de Ética do Planalto, que, no caso da ministra Benedita,
agiu a galope? É ou não é, esse, um caso de ética
pública? Houve licitação? Por que a bolsa foi dada
a ele e não a outro ou a outros? O PSDB certamente virá dizendo
que é "uma honra" para a Biblioteca Nacional e o Ministério
da Cultura financiarem o livro de um intelectual do estofo e do prestígio
internacional de Fernando Henrique. Certo, ele merece todos os encômios.
Mas, para receber dinheiro público, tem que ser na lei. E qual foi
o trâmite burocrático, legal, dessa opípara prebenda?
Rico e guloso
Não se as razões
da bolsa, não sei o valor da bolsa. Mas se há um brasileiro
que, direta ou indiretamente, já embolsa todos os dinheiros públicos
possíveis, é Fernando Henrique. Pagar-lhe a mais uma bolsa
é um escárnio. Ele já recebe uma aposentadoria plena
por apenas doze anos (de 52 ao golpe de 64) de professor na Universidade
de São Paulo. Recebe mais uma aposentadoria por doze anos (de 82
a 94) de senador. E recebe uma terceira aposentadoria de ex-presidente
da República. Todas corretas e legais.
Somadas, as três devem
ultrapassar o teto máximo constitucional de R$ 17.700 fixado pela
reforma da Previdência e, como tal, receberão corte. Mas isso
não é problema para o ex-presidente, que os amigos dizem
estar "confortavelmente rico", a ponto de haver comprado, há pouco,
o luxuoso apartamento de mais de R$ 1 milhão de um banqueiro de
São Paulo. Como todo ex-presidente, Fernando Henrique tem ainda
os motoristas e assessores permanentes, pagos com verbas públicas.
Eram quatro, e antes de deixar o governo ele aumentou para seis, com salários
de até R$ 8 mil. Não pode dizer que a Pátria não
lhe tem sido generosa.
Santander-Banespa
Além de tudo isso,
que a Pátria lhe dá, FHC tem a fundação que
criou e dirige, com sede portentosa e mais de R$ 10 milhões em doações
e contribuições do grande empresariado paulista. Sem falar
na fiel e gratificada generosidade do grupo espanhol Santander, a quem
ele doou a jóia da coroa paulista, o Banespa, e que agora financia
suas palestras pela Europa.
E há mais. A ONU o
fez conselheiro especial. Deve pagar-lhe, de algum modo, alguma coisa.
E o Grupo Polanco, dono do jornal espanhol "El Pais", monopolista do livro
didático na Europa e Américas e sócio dos bancos Santander
e Banespa, também o nomeou membro de seu Conselho Diretor. Sempre
pinga mais uma grana. Mas, até aí, embora oblíquas,
são as coisas legais. O que é totalmente nebuloso e até
agora inexplicado é a deficitária, quase mendiga, Biblioteca
Nacional, sem dinheiro sequer para modernizar, informatizar o acesso aos
jornais antigos, ainda hoje feito pelo processo medieval de pequenas roldanas
manuais, o financiar em Washington.
Mesmo que ele estivesse escrevendo
uma nova Bíblia ou um novo "Capital", o governo que massacrou Benedita
tem que dizer como é isso.
Tribuna
da Imprensa |
Brasil
Busca
no site | Principal.—.Consciência.Net
Publicidade
.
|