Voz dos descontentes ganha tom de ameaça
Chico Alencar diz, no entanto, que apoiará candidato do PT. Daniela Dariano, Jornal do Brasil, 4 de novembro, 2003


''Ou o governo apresenta sua fisionomia definitiva ou os problemas começarão a se avolumar de forma muito séria.'' A previsão, do deputado federal Chico Alencar (PT), ganhou tom de ameaça ontem, dia em que foi lançado no Rio um movimento que pretende reunir petista ''inquietos, descontentes e até desanimados'' com os rumos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva: o Fórum Permanente pela Democracia no Partido dos Trabalhadores.

O grito de resistência foi anunciado por Alencar - cercado pelos deputados federal Antônio Carlos Biscaia e estadual Alessandro Molon, e pelo vereador Eliomar Coelho - com a confirmação de que não concorrerá na prévia do PT para as eleições municipais do Rio. Depois de fazer críticas contundentes ao governo Lula, Alencar garantiu, no entanto, que apoiará o PT no município, com qualquer que seja o candidato.

"Quando afirmamos continuar no PT, é que nosso candidato será o que o PT definir. Queremos interferir no programa do governo, na chapa dos vereadores", disse, descartando apoio à possível candidatura de Jandira Feghali (PCdoB). Alencar não foi convidado para a reunião de ontem à noite, quando Jandira discutiu com intelectuais do PT uma possível coligação entre PCdoB e petistas insatisfeitos. Segundo ele, isso seria ''conflito demais''.

Entre as críticas ao governo Lula, Alencar e Biscaia mencionaram as alianças partidárias. "Entendemos que alianças sejam feitas, mas tem que haver um limite", disse Biscaia. Alencar lembrou que muitos aliados nacionais do PT, como o PTB e o PL, já se articulam para apoiar outras candidaturas no município. Afirmou rejeitar ''o PT desfigurado'' e disse que o partido precisa ser de massas, ''não de massas de manobra''.

"Não significa que estamos desistindo do PT ou abrindo uma dissidência", garantiu Alencar: ''Mas queremos incidir no rumo do governo.'' A intenção do Fórum Permanente, segundo Alencar, é promover o debate ''para que os discursos encontrem correspondências nos recursos orçamentários''. Com críticas às áreas de educação, saúde, direitos humanos e à macroeconomia do governo, Alencar anunciou para o dia 13 a assinatura, ''pelo maior número possível de deputados insatisfeitos'', de um documento nacional de resistência.

"Está faltando ao nosso governo ousadia e até um pouco de coragem", disse Alencar, alegando estar ''bloqueada'' a relação do governo com a bancada petista. Ele garantiu que, em todos os Estados da Federação onde o PT tem sua organização (principalmente São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Bahia, Pernambuco e Ceará), há um setor ''de inquietos propositivos que não engavetaram suas esperanças no governo de mudanças do presidente Lula, mas que estão preocupados''.

O deputado promete para a véspera do Diretório Nacional, em São Paulo, um ato contra as prováveis expulsões da senadora Heloisa Helena (AL) e dos deputados João Batista Babá (PA), Luciana Genro (RS) e João Fontes (SE). Ao fim da entrevista, uma brincadeira de Alencar não aliviou o tom da crítica: "O presidente Lula vai a Moçambique. Espero que ele não se apegue ao slogan moçambicano que diz que a paciência é uma virtude revolucionária".

Jandira abre o diálogo
Intelectuais e militantes do PT reunidos ontem com a virtual candidata do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), deputada Jandira Feghali, na residência da sub-reitora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Silvia Vargas, em Ipanema, buscaram uma alternativa à possivel candidatura do deputado federal Jorge Bittar (PT-RJ) à prefeitura do Rio.

As discussões seguiram no sentido de tornar Jandira a representante das forças que sustentam, no Rio, à esquerda, o governo Lula. "Com a retirada da candidatura de Chico Alencar, da mesma forma que em 86 o campo majoritário do PT propôs o apoio a Miro Teixeira, hoje é legítimo o partido aceitar o mesmo representante das forças que no plano nacional apóiam Lula", afirmou o filósofo Carlos Nelson Coutinho, um dos participantes do encontro.

Milton Temer, Leandro Konder e José Roberto Meyer, além do reitor da UFRJ, Aloísio Teixeira, entre outros cerca de 20 militantes de ambos os partidos, ouviram da deputada a certeza que sua candidatura só será viável ''se representar uma coalizão de forças da esquerda.'' 

"O perfil do Bittar está muito mais para ministro do Lula", disse Jandira. A deputada contou que vem mantendo uma série de diálogos com setores do campo majoritário do PT. "Tenho ótimo relacionamento com o Bittar e não vejo empecilho sobre nossas candidaturas e suas alternativas".

Carlos Chagas comenta proposta de Fórum
"Instalou-se uma espécie de Clube Brancaleone, similar do famoso exército uma vez empenhado em ocupar a Terra Santa e tomar Jerusalém de assalto. A proposta, sob nome mais pomposo, de Fórum Permanente para o Cumprimento do Programa do PT, engloba alguns líderes e parlamentares do partido infensos à atual política desenvolvida pela equipe econômica. Não se trata dos já defenestrados Heloísa Helena, Luciana Genro, dr. Babá e João Fontes, mas dos outros, aqueles que se viram advertidos e até suspensos, mas não expulsos do PT. Com o deputado Chico Alencar à frente, eles imaginam poder ampliar suas hostes com muitos petistas que, mesmo sem afrontar a direção nacional e, muito menos, o próprio presidente Lula, venham a servir para mudar os rumos do governo.

A empreitada é difícil, cheia de perigos, mas responde à perplexidade que domina boa parte do PT, cujo histórico programa bate de frente com a prática desenvolvida por Palocci e companhia. Sabendo navegar no tempestuoso mar das verdades absolutas da equipe econômica, o Fórum poderá servir para corrigir excessos e exageros dos novos neoliberais da atualidade. O risco é de naufrágio, se baterem em algum desses empedernidos arrecifes chamados José Genoíno, José Dirceu e outros". (Tribuna da Imprensa, 5 de novembro, 2003)

Soares ataca o PT em programa de televisão
Correio do Brasil, 4 de novembro, 2003
 
O antropólogo Luiz Eduardo Soares, filiado ao PT do Rio de Janeiro, que ocupou até recentemente a Secretaria Nacional de Segurança Pública, entrevistado no programa Roda Viva, da TV Cultura, disse estar faltando coragem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para levar adiante compromissos históricos do partido, como a questão da segurança pública. Ele considerou indispensável a liderança do presidente para a solução dos problemas do setor, através de mais recursos públicos, da mobilização da sociedade e de encontros com os 27 governadores e com os prefeitos das principais cidades brasileiras.

Ele explicou que, ao contrário do governo FHC - que a cada ano elevava em 20% as verbas para a segurança pública -, o governo petista reduziu-as em mais de 100 milhões para o próximo exercício. "Estamos levando depressa demais para debaixo do tapete os nossos compromissos", afirmou.

Crise de identidade
Para Luiz Eduardo Soares, os petistas estão vivendo uma crise de identidade, como quem se mira no espelho e não reconhece a própria face. "Estamos (governando) sob o ponto de vista economicista, que é unilateral e que deixa de lado os sistemas civilizatórios, que sempre foram os nossos (do PT): as minorias, a questão indígena, a questão do meio-ambiente, a questão das drogas..."

Silêncio no Planalto
Sobre as razões que o levaram a se demitir da chefia da Secretaria Nacional de Segurança Pública, e do silêncio do Palácio do Planalto sobre sua queda, Soares disse que o nepotismo denunciado pela imprensa não foi o fator preponderante, mas deixou claro que não contava com a simpatia do ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu.

Ele esclareceu ter ouvido do deputado Jorge Bittar (PT-RJ) uma afirmação de Dirceu, logo após a eleição de Lula, de que se dependesse dele, não ocuparia qualquer cargo no governo petista. Isso, porque, segundo Dirceu, Soares teria boicotado a candidatura de Benedita da Silva ao governo fluminense. O antropólogo desmentiu a informação, recorrendo inclusive ao testemunho da própria Benedita.

— Eu continuo no PT, eu continuo lutando pelas teses que são as nossas. Eu não acredito que essas práticas , mesmo que elas não tenham acolhimento em instâncias superiores, essas práticas de dossiês, essas práticas que são abjetas e repulsivas encontrem abrigo neste partido que se democratiza. Se nós estamos, afinal de contas, nos atualizando em outras áreas, será que, na ética, nós vamos continuar repetindo procedimentos da direita mais atrasada, mais fascista? Se há algo contra mim, então que se exponha isso claramente e se diga do que se trata — afirmou.

Sobre os motivos reais que o levaram a demitir-se, Luiz Eduardo Soares revelou que, além de militantes radicais (responsáveis pelo dossiê com acusações a ele, distribuído internamente no partido), há empresas estrangeiras ligadas ao projeto de identificação, "que é um projeto bilionário".

— E, evidentemente, isso se casa com o aparelhismo de certos setores, que são atrasados... É extremamente importante que o governo tenha clareza e não fique refém dessas práticas. Se nós fingirmos que não está acontecendo nada, amanhã (o acusado) pode ser qualquer outro, porque esses procedimentos vão ser reproduzidos. E (aí) nós vamos ter uma casta burocrática, stalinista, que vai exercer uma democracia plebiscitária, que vai acuar o Judiciário e o Ministério Público para impor uma poder autoritário. Nós, no PT, não vamos admitir esse tipo de caminho — concluiu.

Revolução à vista no PT do Rio

Partido espera volta de Lula para se unir ao PCdoB. Gilberto de Souza, Jornal do Brasil, 5 de novembro, 2003


No que se refere ao Partido dos Trabalhadores, o quadro político do Rio de Janeiro está prestes a viver mais uma revolução. Pré-candidato do PT à Prefeitura do Rio, o deputado federal Jorge Bittar está na mira do governo para ocupar um ministério. ''O do Planejamento'', adiantou-se um influente prefeito petista com trânsito livre na Casa Civil, em Brasília. A possibilidade não foi descartada por Chico Alencar, deputado federal e nome cogitado para ocupar o posto destinado ao colega na reforma ministerial, caso este seja elevado à posição hoje ocupada por Guido Mantega.

Deputada federal entre as mais votadas no Estado do Rio, a médica Jandira Feghali (PCdoB) também não estranharia se o PT fechasse um acordo com os comunistas e optasse por seguir com Chico Alencar na corrida à prefeitura, com Jorge Bittar seguindo para o Executivo. No entanto, ela considera esta possibilidade ''um tanto remota'' diante das decisões que o PCdoB e o PT devem tomar nos próximos dias. Há um acordo em marcha no qual ambas as legendas sairiam unidas para as eleições municipais.

- No caso do PT carioca, é preciso que haja abertura para avaliar quem seguirá na chapa como candidato majoritário. No caso de Fortaleza e de Olinda, cidades já governadas pelo PCdoB, o acordo com o PT já está cristalizado. Mas no Rio ainda há muito o que se negociar - afirmou Jandira.

Integrante da Comissão Política Nacional do PCdoB, Pedro Oliveira confirma a formação de uma frente de negociações com o PT.

- Houve um pedido, formulado pelo José Genoino, para que iniciássemos estas negociações. Estamos apenas esperando o Lula voltar da África para retomar o diálogo - afirmou.

Genoino tem ''suado a camisa'' para que o PT saia unido nas próximas eleições, como afirmam assessores diretos do presidente do PT. Ele também considera ''natural, uma aliança histórica'' o acordo com os comunistas.

Jorge Bittar admite ter sido ''indicado pela imprensa até para ser ministro das Comunicações'', no início do governo Lula, mas nega com veemência qualquer convite para ocupar a pasta do Planejamento.

- Isso não passa de especulação. Em momento algum fui contactado para ocupar este cargo. Quanto ao acordo com o PCdoB, há realmente uma negociação, em nível nacional, para que possamos somar esforços na campanha do ano que vem, inclusive no Rio - afirmou o deputado.


Decisão sobre radicais é adiada, aqui


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