A glória de Deus
Verissimo, O Globo
20 de outubro, 2003

A glória de Deus é esconder, a glória dos reis é descobrir, disse, mais ou menos, Salomão (“Provérbios” 25:2). Muitos séculos depois, o inglês Sir Francis Bacon, um dos primeiros reis da ciência, deu um conselho curioso aos que estudavam a Natureza: eles deveriam desconfiar de tudo que suas mentes adotassem com muita satisfação. Talvez fosse uma maneira de prevenir contra a ilusão de que qualquer descoberta humana fosse completa, ou tivesse completamente desvendado o que Deus encobrira. No momento (século 17) em que crescia a idéia quase herética de que existia um Livro da Natureza tão cheio de mensagens de Deus para os homens quanto o Livro dos Livros, Bacon aconselhava a Ciência a não desprezar o que diziam os mitos e as Escrituras. A glória de Deus se manifestava de várias formas. Algumas eram apenas mais poéticas do que as outras.

Num livro chamado “Labyrinth”, subintitulado “Uma busca pelo significado escondido da Ciência”, o autor americano Peter Pesic (professor de música, diplomado em física, não sei muito mais sobre ele) escreve que a primeira “mensagem” assim identificada do Livro secular da Natureza foi o magnetismo, que só começou a ser estudado a fundo pelo inglês William Gilbert, contemporâneo de Bacon na corte da rainha Elizabeth I, de quem era médico. O magnetismo era a prototípica evidência de uma força invisível na Natureza, a primeira alternativa à pura vontade de Deus como algo por trás de tudo. Segundo Pesic, Albert Einstein contava que o presente de uma bússola, quando era menino, lhe dera a primeira sensação desta força misteriosa, e o primeiro ímpeto de desvendá-la. Mais do que ninguém, Einstein podia reivindicar uma glória de descobrir igual à glória de Deus em ocultar, embora nunca tenha abandonado sua devoção quase religiosa a um determinismo harmônico do universo, atribuindo-o a Deus ou a que outro nome se quisesse dar ao indesvendável. Mas Einstein não seguiu o conselho de Francis Bacon, de desconfiar do que o satisfazia. Satisfez-se tanto com suas certezas que passou os últimos anos da vida buscando uma teoria unificada da gravidade e do eletromagnetismo que refutasse a teoria quântica que as ameaçava, e tornava a matéria e seu comportamento inexplicáveis em qualquer linguagem, científica ou poética. Pois aceitá-la seria aceitar um universo regido pelo acaso, ou pela estupidez. Ou tornado absolutamente obscuro por um Deus ciumento, cioso da sua glória e indisposto a compartilhá-la com quem quer que fosse, mesmo com um Einstein.

Quando recém se começava a falar em partículas subatômicas e seu estranho procedimento, o físico dinamarquês Niels Bohr disse que elas só poderiam ser descritas usando-se a linguagem como na poesia. Um sombrio reconhecimento de que a linguagem racional não teria como acompanhar a especulação científica e estava condenada à analogia e à aproximação inexata. Assim os físicos falam em teorias das cordas, em um universo em forma de donut, ou agora de bola de futebol, e isso é apenas o som da mente humana se chocando contra os limites da linguagem, como moscas (para usar outra analogia) na vidraça. Einstein morreu sem se resignar à idéia de que a verdadeira e inexpugnável glória de Deus começa onde termina a linguagem.


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