Meditação
Rolando Lazarte, 11 de outubro, 2003

Estaria se repetindo? Talvez. Como o sol, como a lua. Uma rotina saudável, essa de partilhar cada primeiro sábado do mês com os terapeutas comunitários no Alto do Mateus, João Pessoa, Paraíba, Nordeste do Brasil. Era como os retiros de antigamente, só que sem a formalidade. Aqui se vive, se pratica espiritualidade. Era quatro de outubro de 2003, dia de São Francisco. O tema do dia: Meditação. Maria começou invocando o santo, pedindo acolhimento espiritual.

Velhos rostos amigos ali estavam. Irmã Jacinta, Ana Vigarani, Alberto, Vagneide, Marise, Heloísa, embora seus copos ali não estivessem. Era como um rosário costurando os tempos entre cada um dos encontros. Como se os dias passados fossem uma teia só, um único pano tecido em muitas mãos. Pequenas janelas para o céu abriam-se sobre o muro mais alto da pequena sala de reuniões na casa de dona Lourdes onde funciona a AFYA – Casa Holística da Mulher.

Sobre os seixos do círculo de pedras, no jardim, tínhamos feito exercícios de alongamento e respiração, sob a direção da irmã Éfu. A palestra –onde vencidas mais uma vez foram as inibições de falar em público— convocou para uma recuperação de memórias de unidade vividas pelos participantes. Recuperar a vivência do instante total da criança, a capacidade de brincar com tudo. Osho. Dom Santiago. Imitação de Cristo. Todos de mãos dadas, pedimos: “Senhor, fazei-me instrumento da vossa paz”.

A oração coletiva prosseguia na invocação de cada um, girando pelo círculo. Enseguida, a costumeira troca de toque terapêutco entre os participantes. Quem ia dar e quem ia receber de quem. Caras novas se incorporaram a roda. Alguns tinham ido embora (os professores de ioga). Olhar para um coqueiro, sentindo o mundo parar, lembrou Maurício, massagista ayurvédico. Os intervalos entre os pensamentos, recordou Ana Maria. Viver o infinito aqui e agora, lembrou Éfu. Prestar atenção, sentir tudo, recordou Maria.

Vânia, Maria e Dona Lourdes encostavam-se na parede maior sobre o jardim de plantas medicinais. Várias terapeutas comunitárias referiram a dificuldade em receber, para quem está acostumado a dar. “É dando que se recebe”, tinha nesse contexto um significado direto e preciso. Muito distinto daquele “toma lá, dá cá” de políticos e juízes corruptos. Aliás, talvez fosse essa a magia das reuniões da AFYA. Não se criticava ninguém. Nem se referenciavam falas e atitudes pelo “Macromundo” dos meios de comunicação ou das ideologias. Circulava uma vida de primeira mão.

Um mundo governado por sentires elementares e puros, brotes espontâneos do coração resgatado dos abismos da empáfia e do ego engordado, tão típicos do intelectualismo academicista como do especialismo separatista. Troca gratuita de saberes e sentires, abolindo a mercantilidade corrupta do mundo capitalista, onde tudo se compra e tudo se vende. Era como ter retornado a 1969. Aquela mesma gratuidade. Flores de girassol se espalhando pelas vidas entrelaçadas.
 

sobre o autor


Rolando Lazarte [elzarat@yahoo.com.br] é sociólogo e escritor, professor aposentado da UFPB, doutor em Ciência (USP, 1993), autor de Max Weber: Ciência e Valores (São Paulo, Cortez Editora, 2001, 2ª edição)


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