Lula Futebol Clube
Laerte Braga, 14 de outubro, 2003

Se há uns cinco meses atrás alguém medisse forças com o ministro chefe do Gabinete Civil, José Dirceu, iria direto para o inferno sem passagem pelo purgatório. Dirceu hoje não entra em dividida. Sabe que foi comido pelas beiradas pelo núcleo neoliberal do governo. Corre o risco de ter que engolir decisões ou então pedir o boné e abandonar o sonho de eleger o filho prefeito de uma cidade no norte do Paraná. Pior, o acalentado projeto de vir a ser o próximo governador de São Paulo.

O governo Lula começa a transformar-se num caos cercado de burocratas por todos os lados, sob a égide de caciques e abraçando a verdade neoliberal ditada por Henrique Meireles, o verdadeiro dono da bola, Antônio Palocci, Fernando Furlan e Roberto Rodrigues. Ao fundo, Luís Gushiken que, nessa altura, para salvar a própria pele e os negócios que representa no latifúndio petista (previdência privada), não é aliado de ninguém, está na moita.

O veto à inscrição do economista Plínio de Arruda Sampaio Júnior às prévias para a indicação do candidato a prefeito de São Paulo é um clássico exemplo da ditadura de caciques e burocratas. A alegação é ridícula: muitas das assinaturas eram de não filiados. O que se percebe por detrás disso é que não estão fazendo a menor questão de escancarar as portas do PT para a saída dos que teimam em se manter fiéis ao partido, à sua história e ao seu programa.

Entre eles se entendem. Um cargo aqui, uma mesa ali, uma secretária, telefone, um fax, essas coisas que fazem o paraíso de um burocrata. Os caciques não se fazem de rogado para sustentar esse tipo de gente. Há uma guerra interna cujas conseqüências não serão ruins para Lula se observarmos que o presidente pigmeu pouco se importa com história, programa, princípios, etc. O importante é a festa do chope, é  o futebol,  são as câmeras e a direção de Duda Mendonça.

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, confirmou a saída do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães das negociações em torno da ALCA. O grupo norte-americano sob a batuta de Meireles e seus miquinhos amestrados está ganhando a parada. E dificilmente perderá.

O deputado Fernando Gabeira fez um discurso elegante, correto e sobretudo preciso, para anunciar seu desligamento do PT. Tem história. O que menos importa é concordar ou não com seus pontos de vista. O que vale é que sua guampada foi de quem tem respeito por si. Saiu da manada de tontos, a maioria da bancada petista, deixou aos espertos, uma boa parte daquela bancada, a tarefa de enterrar o PT, enterrar as expectativas e os desejos de mudanças manifestados nas eleições do ano passado.

A continuar como está o partido desmilingue-se, como querem os neoliberais, já não é mais perspectiva de PSDB do B, está próximo do estágio PMDB do B. Uma geléia geral.

Para se ter uma idéia de como a coisa anda basta ouvir um deputado petista, de qualquer estado, seja ele estadual ou federal. Inimigo ou adversário não são os outros, mas o companheiro do lado. É rio de piranha e jacaré nada de costas. Tudo indica, a julgar pelo veto ao economista Plínio de Arruda Sampaio Júnior, que a estratégia de aguardar as eleições municipais e disputar o partido por dentro vai para o brejo. Os caras são os donos, literalmente, nos mesmos moldes que qualquer Maluf da vida compra e vende partidos.

O presidente? Bom, d. Marisa recebeu hoje o cheque de Vera Loyola, amiga de Benedita da Silva e uma das deslumbradas da Miami brasileira, a Barra da Tijuca (inglês ali é questão de sobrevivência), para o Fome Zero. Estava prometido já faz tempo mas a condição era a de ser entregue à primeira dama.

Por quê? Vera Loyola não se conforma de não ter sobrenome e por isso não gozar dos mesmos benefícios junto ao beautiful people do high society que Carmen Mayrink Veiga. É que Carmen está falida mas tem sobrenome, poucas plásticas e Loyola é uma escultura andrógina montada por cirurgiões dos mais diversos cantos do mundo. Quis mostrar poder à inimiga e ao grand monde. Benedita acha que está lá também, logo...

Isso, em parte, explica Rosinha Garotinho. Mais ou menos como escapar do ninho de cobras e cair na toca das hienas.

Episódios como esse são a cara de Lula e seu governo.

Já a crise boliviana... Preâmbulo da crise brasileira com o advento da ALCA. Bom, isso aí não faz diferença para Meireles, Palocci, Furlan e Rodrigues. Os caras fazem parte do time que coloca a mãe no negócio se o negócio for bom. Se o patrão mandar.

É essa turma que dita a tática do Lula Futebol Clube.
 

sobre o autor


Laerte Braga é jornalista e analista político. [laerte.braga@uol.com.br]


Laerte | Opinião

Busca no site | Principal..Consciência.Net


Publicidade

.