Bolívia: 'Valor Econômico' vacilou
Gustavo Barreto, Consciência.Net, 16 de outubro, 2003

Quando um jornal se permite o direito de fazer reportagens sobre outro país, ele deve ter no mínimo respeito pelos grupos políticos legítimos que formam a conjuntura local. No caso da Bolívia, o jornal paulista Valor Econômico desta quinta-feira, 16 de outubro de 2003, contém um erro infantil. Não sei se por má-fé ou por ignorância, fato é que o jornal relatou a situação na Bolívia da forma mais superficial possível.

Os leitores que buscam o jornal como matéria-prima não vão notar, mas qualquer pessoa (jornalista ou não) que tenha pesquisado minimamente sabe que nem todos os indígenas da Bolívia estão do mesmo lado.

Veja o seguinte parágrafo da 'reportagem' (que nem identifica a misteriosa fonte):

"Está acontecendo um fenômeno político novo na Bolívia: a ascensão dos partidos de base indígena", disse uma fonte familiarizada com a questão. Esses partidos, que tinham representação simbólica até o ano passado, chegam agora a ocupar um terço das bancadas do Congresso. "Mas os maiores grupos indígenas, liderados pelos oposicionistas Evo Morales e Felipe Quispe, são também de esquerda muito radical, antiga, dos anos 60. Não têm nada a ver com movimentos de esquerda amadurecidos de países como o Brasil." [Valor, 16.10.03]


A jornalista Laura Cassano, não sei se por falta de tempo ou por falta de interesse, não ouve nem sequer um dos dois 'esquerdistas' citados. Pela reportagem (reproduzida a seguir), parece que é tudo farinha do mesmo saco. Mas a Agência Carta Maior fez o dever de casa, e aqui segue:
http://www.agenciacartamaior.com.br/agencia.asp?coluna=reportagens&id=930

A tranqüilidade e articulação com que fala Evo Morales, líder do Movimiento al Socialismo (MAS), na revista CartaCapital número 255, de 27 de agosto de 2003 (página 34), deixa claro que os grupos mais 'radicais' e antigos são mesmo os ligados ao presidente Gonzalo Sánchez de Lozada, que não permitem mudanças estruturais e mantém 60% da população em estado de miséria absoluta. É importante destacar que o único caminho de Evo Morales e o MAS é pela via eleitoral, e o tempo irá serenamente provar esta realidade.

No jornalismo, você não julga mérito: ouve as partes envolvidas. Fica a dica: não esquecer o que foi ensinado na faculdade. Jornalismo feito desta forma tem outro nome: publicidade. Fica a pergunta: em nome de quem?


Valor: "Extrema esquerda usa protestos para chegar ao poder na Bolívia",aqui
CartaMaior: "Cocaleiros recusam convite militar para tentar golpe", aqui
Extrema esquerda usa protestos para chegar ao poder na Bolívia
Bettina Barros, De São Paulo
Valor Econômico, 16.10.03

Por trás da tentativa de forçar a renúncia do presidente da Bolívia, Gonzalo Sánchez de Lozada, estão grupos e partidos de extrema esquerda, com viés autoritário, que viram na debilidade do governo uma possibilidade de chegar ao poder e estão conseguindo manipular a insatisfação crônica da população boliviana.

As manifestações contra o governo ganharam corpo ontem, com protestos em quase todas as grandes cidades do país.

"Está acontecendo um fenômeno político novo na Bolívia: a ascensão dos partidos de base indígena", disse uma fonte familiarizada com a questão. Esses partidos, que tinham representação simbólica até o ano passado, chegam agora a ocupar um terço das bancadas do Congresso. "Mas os maiores grupos indígenas, liderados pelos oposicionistas Evo Morales e Felipe Quispe, são também de esquerda muito radical, antiga, dos anos 60. Não têm nada a ver com movimentos de esquerda amadurecidos de países como o Brasil."

A percepção de que os protestos não visam apenas forçar a renúncia do presidente, mas incluem também um projeto de poder com a formação de um novo governo, está implícita nas manifestações do Brasil, dos EUA e da OEA (Organizações dos Estados Americanos). Em notas oficiais, esses países dizem não aceitar a ruptura da ordem constitucional e a formação de governos não democráticos. 

A oposição acusa Sánchez de Lozada de ter vínculos fortes com Washington e de estar afundando o país com sua política neoliberal. 

"É uma oposição muito ampla e dispersa, sem uma orientação clara", disse ao Valor o cientista político boliviano Roberto Lacerna, que trabalha como professor-visitante do programa de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Princeton, nos EUA. "São vários grupos pequenos com demandas particulares, que em muitos casos são as mesmas - melhores salários, emprego, infra-estrutura".

Segundo Lacerna, a tática dos líderes oposicionistas foi aproveitar a coincidência de temas [mau desempenho econômico e proposta de exportar gás natural via Chile, rival da Bolívia] para mobilizar a população. "O que Morales e Quispe fizeram foi tirar proveito de um momento de ouro para manipular os sentimentos populares."

Há quem veja um paralelo entre a radicalização do Movimento dos Sem-Terra (MST) e desses grupos bolivianos, como se pode ver em vários documentos e entrevistas disponíveis na internet. Um diplomata sul-americano que pediu para não ser identificado, porém, afirma que há muita diferença. O MST, segundo ele, quer terra para quem trabalha, enquanto a bandeira de Morales é o plantio da coca, que, por ser uma cultura tradicional, não poderia ser reprimida.

A Bolívia viveu ontem mais um dia de tensão. O Exército aumentou o contingente em La Paz, na tentativa de impedir a entrada de manifestantes de outras regiões. 

Dois mineiros morreram e ao menos 50 ficaram feridos em um violento confronto com soldados na cidade de Patacamaya, a 109 km ao sul de La Paz. Escolas e o comércio estão fechados desde segunda. Vôos no aeroporto internacional de El Alto, próximo a La Paz, continuavam suspensos ontem.

Testemunhas dizem ser freqüentes as ameaças de morte ao presidente. Sánchez de Lozada permanece no Palácio Presidencial, cercado por forte segurança.


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