A Ilusão Corporativa
Didymo Borges, 25 de setembro, 2003

Tenho um irmão que é funcionário público aposentado que no auge das frustrações do debate da reforma da previdência se confessou decepcionado com o governo Lula. Mas, afinal, o que esperava o funcionalismo público do governo Lula que tem a responsabilidade de acabar com o déficit da previdência e de promover inclusão social de 40 milhões de brasileiros sem qualquer amparo previdencial?

Será que eles tinham a ilusão de que para incluir socialmente estes 40 milhões de brasileiros não seria necessário acabar com alguns privilégios dos que mamavam no erário da União através de um sistema de previdência ilegal e injusto? Ilegal pois afronta o dispositivo constitucional segundo o qual todos são iguais perante a lei. Injusto por que beneficiava uma minoria de menos de um milhão em detrimento de uma massa de 40 milhões de brasileiros despossuídos.

Agora que o governo Lula já fez sua opção em favor dos 40 milhões de despossuídos e que optou por conduzir o governo sem chutar o pau da barraca é comum encontrar textos da esquerda decepcionada, aquela do corporativismo, das ilusões revolucionárias irrealizáveis, e da quimera da ditadura do proletariado se proclamando decepcionados e inpotentes e assacando contra o presidente os mesmos epítetos dos quais FHC foi merecedor.

Só se pode entender a decepção como resultado destas falsas expectativas e, sob este aspecto, a esquerda mais radical se iguala à direita mais reacionária. Mais uma vez se confirma o dito segundo o qual os extremos se tocam afinal. E farsantes não seriam aqueles que, decepcionados nas suas expectativas ,viram "a casaca" ou os que, coerentes com os compromissos assumidos em campanha de não chutar o pau da barraca, estão procurando eliminar um mínimo do entulho corporativista para abrir um novo descortino para a nação?


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