Contágio
de Deus no Parque da Redenção
Uma leitura livre e inconseqüente da obra de Iberê Camargo. Por Fabricio Carpinejar, 14 de outubro, 2003
Aparentemente bufônicas, as figuras ultrapassam o patamar satírico. O riso nervoso vem de uma solidão envergonhada, da malícia contida. E no clima descontraído, percebe-se a densidade da tragédia, de algo a explodir. O pintor descobriu o alto drama na comédia. É o mais cômico dos pintores, por isso o mais sério. Nada irrita tanto do que uma risada gratuita, a interrogação despretensiosa, o insulto do destino. Os "idiotas" reverberam uma insatisfação autônoma, uma espontaneidade cortante, convulsionados pela ingenuidade, não permitindo fingimentos e falsificações. Pintura escavando pintura. Os narizes sempre salientes, como bicos de pássaros lascados, são de máscaras que melhor serviram do que o rosto. A fealdade não condiz à fatalidade, agressiva, mas improviso generoso de uma pose que se pretende eterna. Iberê é um Goya diurno: a caridade do grotesco. Toda linha é tratada de cima para baixo, em direção à sucção do solo. Não há homens ali no "rede-moinho". O melhor é definir como criaturas, assim como Iberê acentuava, no sentido abissal do termo, indefinido. Criaturas não são domésticas como os homens. Não procuram a salvação pessoal, decidir o presente, porém aceitam a imperfeição. A verdade é rápida demais para permanecer. As dúvidas são longas dívidas. O espaço abarca uma espera de tempo, do amaino. O território vazio já é memória ocupada. Ciclistas, carretéis, tudo tem uma roda, um ato em execução. A roda é do tear, de uma máquina de costura amputada. Tal uma teia em proporções gigantescas, o pintor se destaca como uma aranha que extrai o novelo de tinta do ventre. Talvez crie realmente marionetes, evocando à Commedia dell'arte, como sintetizou Paulo Ribeiro. De qualquer modo, sejam fios elétricos, sejam fios das mãos, a corda expande uma duração biológica, um bordar característico das mortalhas. O carretel funciona como um relógio sempre adiantado. Os viventes metaforizam lembranças do osso, reduzidos a agulhadas secas, precisas, pontuais. Uma recordação apenas do que são. A robustez cilíndrica é aérea, vagante, de ferro líquido. Nem vegetal, nem animal, absolutamente mineral. A carne da luz está sempre ao derredor, fora do corpo. A carne da luz é azulada, enferruja, com um exagero essencial da matéria. O fundo protagoniza. Os retratados de Iberê significam esculturas pintadas, a mesma fusão do metal, a mesma solda implacável entre o mundo e o imundo, entre o remissivo e a catarse, entre o rural de Restinga Seca e o urbano do Parque da Redenção. Iberê se contagia de
Deus, o progresso do homem é recolher-se a um pátio, a liberdade
deflagrada na topografia ancestral e primitiva da infância. A morte
não é um luxo religioso, a pacificação dos
costumes, e sim fluxo. Se Velázquez nos ensinou a ver de novo (Carlos
Fuentes), Iberê Camargo nos ensina a ler as pinturas. Com o talento
único de narrador e o jeito imutável de soprador de borrascas.
(Artigo publicado na revista Porto & Vírgula, número 50, da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, outubro/2003. Original aqui)
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