Contágio de Deus no Parque da Redenção
Uma leitura livre e inconseqüente da obra de Iberê Camargo. Por Fabricio Carpinejar, 14 de outubro, 2003


O gaúcho Iberê Camargo (1914-1994), visceral e original pintor brasileiro do século XX, ainda é um mistério na luz, um segredo em plena visibilidade. Conseguiu redimensionar o real segundo a gula da imaginação. A série de guaches e gravuras instaura uma perplexidade: assim como suas pinturas, parece uma arte inconclusa de propósito. Uma arte nunca encerrada, como se o pintor ainda estivesse diante dela, pronta a mudar qualquer ordem. Vinga-se um perpétuo julgamento, mas o julgado é o observador, nunca o quadro. Como uma resina escura no vidro, os personagens de Iberê não enxergam, estão apartados do desperdício, com olhares maternais, lácteos, no excesso baldio da vida. A organização em Iberê Camargo é sinônimo de coerência, antônimo de disciplina. Uma difícil harmonia na passionalidade inexplicável das coisas, porque a incerteza é como a dor, com uma diferença: não cicatriza. Daí o alheamento obsessivo, a perdição enraizada, a serenidade do pânico. Corrente de iluminações carregadas da eletricidade do traço, há o pressentimento de que o autor não quer representar. Transborda significação ao recusar a própria representação. Não ambiciona estar, mas ser um movimento interrompido. Os gestos não dormem.

Aparentemente bufônicas, as figuras ultrapassam o patamar satírico. O riso nervoso vem de uma solidão envergonhada, da malícia contida. E no clima descontraído, percebe-se a densidade da tragédia, de algo a explodir. O pintor descobriu o alto drama na comédia. É o mais cômico dos pintores, por isso o mais sério. Nada irrita tanto do que uma risada gratuita, a interrogação despretensiosa, o insulto do destino. Os "idiotas" reverberam uma insatisfação autônoma, uma espontaneidade cortante, convulsionados pela ingenuidade, não permitindo fingimentos e falsificações. Pintura escavando pintura. Os narizes sempre salientes, como bicos de pássaros lascados, são de máscaras que melhor serviram do que o rosto. A fealdade não condiz à fatalidade, agressiva, mas improviso generoso de uma pose que se pretende eterna. Iberê é um Goya diurno: a caridade do grotesco.

Toda linha é tratada de cima para baixo, em direção à sucção do solo. Não há homens ali no "rede-moinho". O melhor é definir como criaturas, assim como Iberê acentuava, no sentido abissal do termo, indefinido. Criaturas não são domésticas como os homens. Não procuram a salvação pessoal, decidir o presente, porém aceitam a imperfeição. A verdade é rápida demais para permanecer. As dúvidas são longas dívidas.

O espaço abarca uma espera de tempo, do amaino. O território vazio já é memória ocupada. Ciclistas, carretéis, tudo tem uma roda, um ato em execução. A roda é do tear, de uma máquina de costura amputada. Tal uma teia em proporções gigantescas, o pintor se destaca como uma aranha que extrai o novelo de tinta do ventre. Talvez crie realmente marionetes, evocando à Commedia dell'arte, como sintetizou Paulo Ribeiro. De qualquer modo, sejam fios elétricos, sejam fios das mãos, a corda expande uma duração biológica, um bordar característico das mortalhas. O carretel funciona como um relógio sempre adiantado.

Os viventes metaforizam lembranças do osso, reduzidos a agulhadas secas, precisas, pontuais. Uma recordação apenas do que são. A robustez cilíndrica é aérea, vagante, de ferro líquido. Nem vegetal, nem animal, absolutamente mineral. A carne da luz está sempre ao derredor, fora do corpo. A carne da luz é azulada, enferruja, com um exagero essencial da matéria. O fundo protagoniza. Os retratados de Iberê significam esculturas pintadas, a mesma fusão do metal, a mesma solda implacável entre o mundo e o imundo, entre o remissivo e a catarse, entre o rural de Restinga Seca e o urbano do Parque da Redenção.

Iberê se contagia de Deus, o progresso do homem é recolher-se a um pátio, a liberdade deflagrada na topografia ancestral e primitiva da infância. A morte não é um luxo religioso, a pacificação dos costumes, e sim fluxo. Se Velázquez nos ensinou a ver de novo (Carlos Fuentes), Iberê Camargo nos ensina a ler as pinturas. Com o talento único de narrador e o jeito imutável de soprador de borrascas.
 

(Artigo publicado na revista Porto & Vírgula, número 50, da Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, outubro/2003. Original aqui)


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