Cuidando da Saúde Mental das
Equipes de Saúde da Família do Município de Cabedelo/PB:
relato de experiência
Maria de Oliveira Ferreira Filha[1], Ana Vigarani[2], Ana Maria Cavalcanti Lopes[3], Maria Djair Dias[4], Ernúbia Rufino[5], Rolando Lazarte[6], Ana Teresa Medeiros Cavalcanti[7]
Utlizando-se a pedagogia crítico reflexiva, e buscando sensibilizar as ESF, para o cuidado com a saúde mental planejou-se a realização de oficinas, cuja temática central vem sendo, CUIDANDO DE QUEM CUIDA. Foram realizadas 4 oficinas (dentro de um total previsto de 12), com 19 ESF, buscando sensibilizá-las através de técnicas grupais, que visam dinamizar o trabalho das equipes e o cuidado com a auto-estima. Na avaliação das ESF, ficou evidenciado que, até o momento, houve crescimento, tanto no nível pessoal como profissional, especificamente no que diz respeito a melhoria das relações internas da equipe e desta com a comunidade. Contudo registrou-se também que ainda há sérios entraves de natureza institucional, tais como, relações de poder extremamente hierarquizadas e excesso de burocracia, que necessitam ser considerados pela equipe de cuidadores, para que a saúde mental possa ser experienciada como direito de cidadania. Consideramos que as oficinas são importantes para as ESF principalmente pelo fortalecimento do sentido de equipe e pela possibilidade de serem estas um espaço de discussão e reflexão das experiências cotidianas vivenciadas pelas ESF no município de Cabedelo/PB. A modo de introdução A política de saúde do município de Cabedelo pauta-se no princípio de Saúde para Todos com atenção voltada para o atendimento global ao cidadão; elegendo a Atenção Básica como estratégia para a reorganização do modelo assistencial, até então, centrado no modelo hospitalocêntrico. Com a implantação das Equipes de Saúde da Família – ESF, a Secretaria Municipal de Saúde de Cabedelo, vem desenvolvendo esforços na construção e consolidação de um modelo de saúde fundamentado na Promoção da Saúde, onde a saúde mental passa a ser concebida como elemento importante de qualidade de vida. A implantação de Programa de Saúde Mental no Município de Cabedelo/PB, se iniciou através de uma iniciativa da Diretoria da Atenção Básica/ Secretaria Municipal de Saúde, a qual promoveu uma série de encontros e discussões com a equipe de docentes da UFPB/DESPP, Secretaria de Cultura do Município e outros profissionais interessados no assunto. A princípio foram levantados alguns problemas a respeito da atuação das Equipes de Saúde da Família junto a comunidade e foi evidenciado que tais equipes ainda não estavam sensibilizadas para atuar no sentido de promover a saúde de um modo geral e em particular, a saúde mental. Diante dessa observação a equipe de docentes da UFPB, propôs ao município, a realização de oficinas, visando dar início a um processo de sensibilização de tais equipes, no sentido de viabilizar a implantação do programa de saúde mental no município. O método de trabalho Foi proposto para a SMS/Cabedelo a realização de 12 oficinas de sensibilização, a serem efetivadas durante o período de 1 ano, ocorrendo uma vez por mês, com as 19 equipes do Saúde da Família. Até o momento já foram realizadas 4 oficinas. As oficinas, são realizadas no clube Cabedelo, contam com a participação de 169 profissionais ( médicos, enfermeiros, dentistas, nutricionistas, auxiliares de enfermagem, agentes comunitários, e outros trabalhadores como secretaria da unidade, vigilantes, etc.). Cada oficina tem a duração de 4 horas e vem sendo realizada para 5 a 7 ESF, as quais formam três grupos de aproximadamente 50 a 60 pessoas. A equipe de cuidadores foi formada inicialmente por 3 enfermeiras de áreas disttintas: saúde mental, saúde coletiva e saúde da mulher, uma pedagoga com experiência em terapia comunitária, e um sociólogo. Posteriormente foi acrescida a equipe uma psicóloga – coordenadora do programa de saúde mental no município e mais uma enfermeira da área de saúde mental do DESPP. Cada oficina é cuidadosamente planejada, de acordo com os interesses dos participantes e sendo observadas as necessidades tanto do grupo como da proposta de sensibilização para atuação na saúde mental. Priorizamos o método crítico reflexivo como abordagem das experiências vivenciadas no cotidiano das ESF. As oficinas possuem dois momentos pedagógicos: um voltado para o olhar para si (2h da programação) e outro voltado para o olhar sobre a prática (2 h). Utilizamos diferentes técnicas de abordagem para promover a apreensão da realidade, tanto do ponto de vista da cognição como das emoções. Trabalhamos essencialmente com dinâmicas para promover a integração grupal, a auto estima individual e coletiva, sem perder de vista momentos de discussão da realidade onde as ESF atuam como sujeitos sociais. Neste sentido já empregamos diversas técnicas: respiração, relaxamento, dança, dramatizações, sociograma, discussão em pequenos grupos, discussão em pares, técnica do cochicho, tempestade de idéias, etc. Utilizamos canções para expressão de sentimentos, emoções e também para conduzir atividades lúdicas. As avaliações são feitas ao término de cada oficina, tanto pelas ESF como pela equipe de cuidadores e servem como material de análise para a programação da oficina seguinte. Observações sobre a marcha Consideramos que as oficinas de sensibilização são estratégias relevantes para viabilizar tanto a implementação de um novo modelo de atenção a saúde mental que vem se desenhando através da atenção básica, bem como para promover o crescimento das ESF, no que diz respeito a atuação enquanto equipe na aproximação com a comunidade, no fortalecimento dos vínculos afetivos, sociais e culturais. Tais equipes necessitam preparar-se para enfrentar novos desafios, desenvolvendo o potencial criativo, exercitando não só o conhecimento técnico para abordar problemas de saúde/doença, mas sobretudo valorizando a sua prática como sujeito e ator social, aprendendo a construir vínculos solidários mais fortes tanto no trabalho como na própria família, apoiando-se nas redes solidárias e percebendo que nesse contexto ele é um coadjuvante na construção de um processo político social mais enriquecedor, onde a saúde é o seu campo de atuação com interface com outros campos: cultura, educação, economia, trabalho, lazer e religiosidade. Estamos tentando promover nas ESF a descoberta de si e a descoberta do outro e nesse processo também estamos nos descobrindo como sujeitos ativos, participantes e comprometidos mais ainda com o cuidado vital com o ser humano que cuida.
[1] Dra em Enfermagem pela UFC. Profa. do DESPP/CCS/UFPB da área de Saúde Mental e Enfermagem Psiquiátrica. [2] Pedagoga, membro da Pastoral da Saúde mental Comunitária. [3] Mestre em Enfermagem. Profa. do DESPP/CCS/UFPB da área de Saúde Coletiva. [4] Dra. em Enfermagem pela USP. Profa. do DESPP/CCS/UFPB da área de saúde da mulher. [5] Psicóloga. Coordenadora do Programa de saúde mental no município de Cabedelo/PB [6] Dr. em Ciências Sociais. Colaborador e membro da equipe de implantação do projeto Saúde mental na Atenção Básica no município de Cabedelo. [7] Dra. em Enfermagem. Profa. do DESPP/CCS/UFPB da área de Saúde Mental e Enfermagem Psiquiátrica. Publicado em 10 de setembro, 2003
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