A saúde
vai pagar a conta
Rosinha
quer tirar dinheiro dos hospitais para financiar projetos assistenciais.
Maiá Menezes, O
Globo, 18 de setembro, 2003
Em
nome das marcas lançadas pelo seu antecessor, Anthony Garotinho,
e mantidas em sua gestão, a governadora Rosinha Matheus decidiu
sacrificar uma área já combalida de seu governo: a saúde.
Um projeto aprovado por cinco a dois pela Comissão de Constituição
e Justiça da Assembléia Legislativa transfere para o Fundo
Estadual de Saúde a conta dos principais projetos sociais do governo
Rosinha: o Cheque-Cidadão, a Sopa da Cidadania e o Leite Saúde.
Programas desse tipo não são considerados pelo governo federal
como ações de saúde desde 8 de maio.
A dotação
do fundo, este ano, é de R$ 1,8 bilhão. Na mensagem, Rosinha
cria o Programa Estadual de Acesso à Alimentação,
reunindo oito projetos hoje vinculados à Secretaria estadual de
Ação Social. Se aprovado pelos deputados, o projeto entra
em vigor no ano que vem.
A iniciativa
do governo consolida a tendência já apontada com a apresentação
do projeto 722/2003, que foi retirado de pauta ontem pela presidência
da Alerj. A mensagem pretende, ainda este ano, reservar 25% do Fundo Estadual
de Saúde para financiar programas como a Farmácia Popular,
o Cheque Saúde Cidadão e até projetos de saneamento
básico. O presidente da Casa, Jorge Picciani (PMDB), decidiu retirar
o projeto de pauta por considerá-lo polêmico. Na terça-feira,
a mensagem recebera dez emendas e deverá voltar a plenário
na próxima semana.
Governo:
discussão é conceitual
O secretário
de Integração Governamental, Luiz Rogério Magalhães,
argumenta que a discussão sobre a aplicação de recursos
de saúde na área social é conceitual e que cabe aos
deputados chegarem a uma conclusão sobre ela. Luiz Rogério
lembrou que, na avaliação das contas do governo, em 2002,
o Tribunal de Contas do Estado reprovou a aplicação de verbas
da saúde em projetos como o restaurante popular e o Cheque-Cidadão.
— A
governadora nunca deixou de dizer que esses projetos sociais são
prioritários em sua administração. Nós não
estamos deixando de aplicar em outros setores. Mas esta é uma discussão
conceitual. O combate à desnutrição pode ser considerado
uma questão de saúde pública — alega Luiz Rogério
Magalhães.
As
medidas que Rosinha tenta agora legitimar na Alerj já são
praticadas em sua gestão. Duas delas, de 20 de agosto, sacrificam
inclusive o investimento da Secretaria de Saúde em segurança
alimentar, transferindo recursos para projetos sociais. Elas repassam verbas
da rubrica Combate à Desnutrição, vinculada ao Fundo
Estadual de Saúde, para o Restaurante Popular (R$ 2,7 milhões)
e para o Cheque-Cidadão da Terceira Idade (R$ 1 milhão).
Entre
os projetos enquadrados no Programa Estadual de Acesso à Alimentação
estão o Cheque-Cidadão e a Sopa da Cidadania. Os dois foram
lançados pelo atual secretário de Segurança, Anthony
Garotinho, tutor político da governadora. Os projetos são
gerenciados por Rosinha desde que ela era secretária de Ação
Social, na gestão do marido, e se tornaram carro-chefe de sua campanha
rumo ao Palácio Guanabara.
Mas
as práticas adotadas pela governadora vão de encontro às
normas editadas pelo governo federal, na resolução 22, de
8 de maio deste ano. Entre as diretrizes que regulam os gastos com as verbas
de saúde pelos estados estão proibições à
aplicação de recursos em merenda escolar, em saneamento e
em projetos que “não atendam o princípio da universalidade”.
Entre os projetos que serão financiados ainda este ano com os 25%
do Fundo Estadual de Saúde estão a Alimentação
Escolar nas Férias, ações na área de saneamento
e o programa Farmácia Popular (que oferece remédios a R$
1 aos idosos carentes).
— Estes
dois projetos são os mais graves que eu já vi passar pelo
Parlamento, em oito anos de mandato — afirmou o deputado estadual Paulo
Pinheiro (PT).
Verbas
previstas não são usadas
Rosinha
Matheus turbina os projetos sociais do governo e ignora programas de trabalho
para a área de saúde contemplados na previsão orçamentária
de 2003. Apesar de o secretário de Integração Governamental,
Luiz Rogério Magalhães, alegar que nenhuma área foi
sacrificada, basta uma consulta ao Sistema de Acompanhamento Financeiro
do Estado para observar que a execução orçamentária
na área de saúde deixou de lado o investimento previsto em
construção e reformas de unidades do interior. Em 38 programas
de trabalho, não foi empenhado recurso algum dos R$ 74,4 milhões
previstos para este ano no orçamento.
Hospitais
do interior são sacrificados
Entre
os projetos sacrificados está a conclusão das obras do Hospital
de Nilópolis. De uma previsão de R$ 55,4 milhões,
feita no orçamento aprovado no ano passado pela Assembléia
Legislativa, nada foi gasto. O mesmo aconteceu com o investimento previsto
para a construção de uma unidade hospitalar em São
Gonçalo, para a qual o orçamento reservava R$ 1,2 milhão.
A construção e reforma de hospitais nos municípios
de Resende, Duas Barras, Barra do Piraí, Natividade, Quatis e São
Pedro da Aldeia também foram postas de lado pelo estado.
Enquanto
o governo retira recursos da saúde, o setor continua em coma profundo.
Como mostrou O GLOBO mês passado, três hospitais inaugurados
na gestão do então governador Anthony Garotinho operam em
condições precárias. Nas unidades de São Gonçalo
e Itaboraí, os centros cirúrgicos e as UTIs estão
de portas fechadas, obrigando a transferência dos doentes em estado
grave e politraumatizados para os já superlotados hospitais Antônio
Pedro e Azevedo Lima, em Niterói.
O Hospital
de Araruama, projetado para ter cem leitos e atender a casos de alta complexidade,
só realiza exames de ultra-sonografia e ecocardiograma. Apesar de
pagar salários a 500 funcionários, sendo 120 médicos,
a UTI e o centro cirúrgico também estão fechados desde
a inauguração, há um ano e quatro meses. Enquanto
isso, aparelhos de última geração, como dois tomógrafos
helicoidais, estão encaixotados há mais de um ano em unidades
da rede estadual. Um deles, que está no hall do Instituto Estadual
de Cardiologia Aloísio de Castro, no Humaitá, foi transformado
em banco para pacientes e seus acompanhantes.
Estado
usou o mesmo artifício com o Fecam
Não
é a primeira vez que a governadora decide legitimar com uma votação
na Alerj atitudes que já vem tomando na prática. Para se
livrar do crivo do Tribunal de Contas do Estado, que já fez ressalvas
ao não cumprimento do percentual mínimo da arrecadação
dos royalties do petróleo no Fundo Estadual de Controle Ambiental
(Fecam) — que era de 20% — a governadora enviou à Assembléia
mensagem que, depois de aprovada, reduziu o percentual para 5%. Também
depois de alertada pelo TCE, Rosinha decidiu mudar a lei para ter liberdade
de usar os recursos da saúde na área social.
O
destino do dinheiro do fundo para os projetos do governo
O
Globo, 18 de setembro, 2003
FUNDO
ESTADUAL DE SAÚDE: A dotação para 2003 do fundo
é de R$ 1,8 bilhão. Deste total, a despesa liquidada (já
reservada para gasto) é de R$ 620 milhões. Cerca de R$ 550
milhões do fundo são gastos para pagar pessoal. Ele é
capitalizado com recursos federais (R$ 410 milhões previstos para
este ano), de impostos (R$ 1,1 bilhão), de convênios (R$ 39,6
milhões) e do Fundo Estadual de Combate à Pobreza (R$ 286,9
milhões).
SOPA
DA CIDADANIA: A Sopa da Cidadania é produzida com os excedentes
de hortaliças e tubérculos rejeitados pelos lojistas da Central
de Abastecimento do Estado do Rio de Janeiro (Ceasa) e distribuída
em forma de pasta concentrada e enlatada a diversas instituições
de amparo a idosos, crianças e portadores de deficiência O
custo anual é de cerca de R$ 2 milhões.
CHEQUE-CIDADÃO:
A distribuição dos cheques, no valor de R$ 100, é
feita, em sua maioria, por igrejas evangélicas. Ao todo, 60 mil
famílias com renda máxima por pessoa de 1/3 do salário-mínimo
recebem o benefício. O cheque é exclusivo para a compra de
gêneros alimentícios e de higiene pessoal. Por mês,
o custo do programa, a cargo da Secretaria estadual de Ação
Social, é de R$ 6 milhões.
CHEQUE-CIDADÃO
DA TERCEIRA IDADE: Cerca de cinco mil idosos carentes recebem o benefício
de R$ 50. A renda mínima da unidade familiar também deve
ser de 1/3 do salário-mínimo. A idade mínima do beneficiado
deve ser de 60 anos. O custo mensal do programa, a cargo da Secretaria
de Ação Social, é de R$ 250 mil.
CHEQUE
SAÚDE CIDADÃO: O programa presta assistência aos
portadores de hanseníase no estado. Foi criado em junho pela governadora,
que liberou R$ 3,4 milhões para a implementação do
programa. Ele prevê a liberação mensal de cheques no
valor de R$ 91 para que os doentes comprem cestas básicas. O programa
é uma parceria entre as secretarias de Saúde e de Ação
Social e será normatizado este mês.
CHEQUE-CIDADÃO
TRABALHADOR RURAL: O programa é destinado aos trabalhadores
rurais temporários, no período da entressafra. Os cupons,
no valor de R$ 100, são distribuídos a cerca de cinco mil
trabalhadores. O beneficiado também tem que demonstrar que sua renda
per capita não ultrapassa 1/3 do salário-mínimo. O
custo mensal deste programa, a cargo das secretarias estaduais de Agricultura
e Ação Social, é de R$ 500 mil.
CHEQUE-ESCOLA:
O projeto tenta assegurar a permanência de crianças de 7 a
14 anos nas escolas públicas, concedendo um cheque de R$ 100 às
famílias dos alunos. Hoje, beneficia duas mil famílias e
é administrado pela Secretaria de Educação.
SUBVENÇÃO
A RESPONSÁVEIS POR IDOSOS: Uma lei sancionada pelo então
governador Anthony Garotinho garante a subvenção aos responsáveis
por idosos carentes no estado. O beneficiado tem que ter relação
de parentesco com o idoso.
LEITE
SAÚDE: O Leite Saúde é destinado a crianças
entre 2 e 12 anos, sofrendo de carência alimentar, que vivem em bolsões
de pobreza. O programa distribui, por mês, dois quilos de leite em
pó, enriquecido com vitaminas e sais minerais, para 100 mil crianças.
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Esquema
de fraudes provoca um rombo de R$ 100 milhões
Jornal
do Commercio, 17 de setembro, 2003. O dinheiro
foi captado por fundações, criadas para ajudar os hospitais
e institutos federais a obter recursos de empresas privadas. E mais: Federais
prendem suspeitos de envolvimento em corrupção nos serviços
de lavanderia; Hospital Getúlio Vargas está à míngua
de medicamentos; Deputados constatam carência de material e de leitos.
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Estado
e Município não investem em saúde, aqui |