Hospital Getúlio Vargas está à míngua de medicamentos
Deputados constatam carência de material e de leitos. Gisela Alvares, Jornal do Commercio, 10 de setembro, 2003


As comissões de Saúde e de Defesa do Consumidor da Assembléia Legislativa do Estado do Rio (Alerj) vistoriaram ontem as dependências do Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, onde constataram falta de material, de medicamentos e de leitos. A visita faz parte da iniciativa da Alerj de reunir os gestores das esferas municipal, estadual e federal em busca de maior interação e, conseqüentemente, da melhoria do atendimento à população da rede pública.

No Hospital Getúlio Vargas, as presidentes das comissões da Saúde, deputada Cida Diogo (PT), e de Defesa do Consumidor, Cidinha Campos (PDT), constataram falta de pessoal, de equipamentos para o CTI, como monitor e respirador, e até de insumos básicos, como suturas e algodão. "Em um CTI, apenas oito dos 13 leitos estão ocupados porque é preciso fazer obra no sistema elétrico para suportar a carga dos equipamentos. Como isso não é feito, pois depende de licitação e o Governo não providencia, gente operada de traumatismo craniano e que precisa estar internada nesse ambiente é submetida a alto risco de vida ao ser levada para a enfermaria", destacou Cida Diogo.

As comissões constataram ainda que o hospital, com 314 leitos, poderia dispor de mais 150, o que evitaria as filas nos corredores de idosos com fratura no fêmur há mais de 10 dias sobre macas improvisadas. A situação configura total descaso, já que, segundo a deputada Cida Diogo, que é médica, este tipo de paciente não pode aguardar mais de 10 dias pela cirurgia sob pena de não resistir.

Cida Diogo informou que as reuniões para resolver o colapso nas emergências e urgências dos hospitais públicos conta com o apoio do Ministério Público (MP), o Conselho Regional de Medicina (Cremerj) e o Sindicato dos Médicos. As entidades estarão presentes no próximo encontro de saúde, promovido pela Alerj e agendado para a segunda quinzena de outubro.

As comissões da Alerj encontraram em visitas anteriores as mesmas precariedades verificadas no Getúlio Vargas nos hospitais estaduais Albert Schwartz, Pedro II e Rocha Faria, e nos federais Instituto de Cardiologia de Laranjeiras e de Traumato-Ortopedia. Na próxima semana as parlamentares estarão no Hospital Municipal Salgado Filho. "Não adianta troca de acusações porque a responsabilidade é de todos. Tudo que queremos é maior entrosamento das unidades para evitar o jogo de empurra que tanto sacrifica a população", frisa a deputada Cida Diogo.

Esquema de fraudes provoca um rombo de R$ 100 milhões
Jornal do Commercio, 16 de setembro, 2003


Investigações do Ministério Público e da Polícia Federal revelam que um esquema de fraudes causou um rombo de R$ 100 milhões a um hospital federal do Rio. O dinheiro foi captado por fundações, criadas para ajudar os hospitais e institutos federais a obter recursos de empresas privadas. Mas, segundo o Ministério da Saúde, isso poucas vezes aconteceu.

Fundações como a Ari Frauzino, do Instituto Nacional do Câncer (Inca), teriam recebido dinheiro público e se tornado responsáveis pela contratação de profissionais terceirizados. Segundo o secretário de Atenção à Saúde, Jorge Solla, o Ministério da Saúde quer reduzir o poder dessas fundações.

- Elas surgiram porque a política do Governo federal nas gestões anteriores foi desmontar a área de recursos humanos na Saúde e desmontar a capacidade de gestão da rede própria. O fato de elas existirem, por si só, cumprindo esse papel, já é um problema. Precisamos recompor os quadros de recursos humanos diretos, pessoal concursado, e impor a capacidade de gestão desses hospitais - afirmou Solla.

Compras sem licitação
Nos últimos anos, as unidades federais enfrentaram também problemas de administração. Segundo o Ministério da Saúde, 80% das compras no Inca - que entrou em crise por falta de medicamentos - eram feitas sem licitação.

A comissão que apura a irregularidade no Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia encontrou fraudes em mais de 50 processos de licitação para compra de medicamentos e material hospitalar, causando prejuízo de mais de R$ 7 milhões aos cofres públicos.

Na semana passada, o responsável pela comissão recebeu carta com ameaças. O autor, não identificado, tenta impedir a continuidade do trabalho da comissão, afirmando que os auditores serão esquecidos ou "deletados", e termina afirmando de que essa é a última chance de interromper o processo.

O esquema que está sob investigação da Polícia Federal e do Ministério Público envolvia também a importação de equipamentos médicos e próteses que nunca chegaram aos pacientes. No total, a lesão aos cofres públicos pode chegar a R$ 100 milhões.

O presidente da Federação das Fundações Privadas do Estado do Rio, Luiz Antônio de Godoy, disse que as instituições são, de forma geral, sérias e éticas, e buscam dar apoio à população e à comunidade científica. E que são fiscalizadas pelo Ministério Público e avaliadas pelos Ministérios da Ciência e Tecnologia e da Educação.

Federais prendem suspeitos de envolvimento em corrupção nos serviços de lavanderia
Jornal do Commercio, 17 de setembro, 2003


O cerco à máfia que atua nos hospitais federais do Rio foi apertado ontem com a prisão de 10 suspeitos de integrar um esquema de corrupção na prestação de serviços de lavanderia. Foi a primeira desde abril, quando o Ministério da Saúde decidiu reforçar investigações em curso há mais de três anos. Por volta das 6 horas da manhã, agentes da Polícia Federal surpreenderam oito funcionários da empresa Brasil Sul Indústria e Comércio Ltda e dois do Hospital dos Servidores do Estado (HSE), lotados no setor de rouparia, usando notas superfuradas.

Três veículos da empresa, que também presta serviço para o Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia (Into), o Hospital Geral de Bonsucesso (HGB) e Hospital do Andaraí, foram apreendidos. Ao contrário dos outros dois, este último foi municipalizado.

A fraude consistia no aumento abusivo do número de toneladas de roupas limpas. A Brasil Sul cobrava por mais peças do que realmente lavava, contando com a ajuda de funcionários corruptos que exageravam na pesagem. A detenção ocorreu quando uma quantidade de roupas inferior à registrada na fatura da empresa era entregue no HSE. O esquema também era realizado no Into, onde o diretor da unidade, Sérgio Côrtes, já recebeu sete ameaçadas de morte depois que passou a revisar contratos e serviços firmados pelo instituto.

Roupa limpa era transportada no carro com as roupas sujas
Durante a operação, o delegado responsável pelo caso, Daniel Brandão, também constatou a infração das normas de controle bacteriológico. A entrega de roupas limpas e o recolhimento das sujas eram feitos em um mesmo veículo. Um dos três carros apreendidos vai permanecer retido na PF. Já os funcionários foram liberados após prestar informações.

Só no HSE, a diretora da unidade, Ana Lipke, conseguiu uma economia de mais de R$ 1 milhão por ano com a revisão do contrato com a Brasil Sul. Ao assumir a direção do HSE, em março, ela reduziu as encomendas de roupa limpa, que passaram de 78 mil quilos para 59 mil quilos mensais.

- O gasto de R$ 270 mil mensal caiu para R$ 100 mil - disse a médica, que esteve reunida ontem, em Brasília, com os diretores dos outros quatro hospitais federais do Rio para discutir o relatório do Departamento Nacional de Auditoria do SUS e fazer um balanço da situação em cada unidade.

Por suspeitar de fraude no setor de lavanderia, a diretora do HSE decidiu substituir a fiscal de pesagem das roupas. Mas tão logo assumiu o serviço, a nova funcionária foi ameaçada de morte por dois homens armados.

- Não acho que tenha sido coincidência o fato de ela ser intimidada justamente quando eu troquei a anterior - observa. Além das ameaças contra a fiscal de pesagem, o consultório particular de Lipke foi invadido e depredado. Segundo ela, uma reação à revisão de vários contratos firmados anteriormente pelo HSE. Entre abril e julho, a diretora recebeu proteção 24 horas de policiais federais. Ao saber da operação da PF, Lipke disse que a prisão é um alerta aos envolvidos no esquema de corrupção.

- As pessoas que estavam acreditando na impunidade agora saberão que não é assim - desabafou.

Lavanderia seria suspeita de outras irregularidades
Funcionários da Brasil Sul também podem estar ligados a irregularidades no Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia (Into). Em maio, dois funcionários terceirizados foram detidos dentro do centro cirúrgico da unidade com duas sacolas de material hospitalar furtado do instituto. Com eles, a Polícia Federal encontrou notas fiscais frias da Brasil Sul, usadas na revenda do material para hospitais públicos e privados do Estado. Embora atualmente preste serviço de lavanderia, a empresa já comercializou material hospitalar. Durante 1995 e 1998, o Into foi um dos clientes da Brasil Sul.
 

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A saúde vai pagar a conta
O Globo & Jornal do Commercio, setembro de 2003. Rosinha quer tirar dinheiro dos hospitais para financiar projetos assistenciais. Leia mais

Estado e Município não investem em saúde, aqui


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