PT do Rio confirma filiação de Narriman Zito
Carter Anderson, O Globo, 22 de setembro, 2003


O diretório regional do PT rejeitou ontem recursos movidos pela esquerda do partido contra duas decisões polêmicas tomadas recentemente pela direção executiva: a filiação da prefeita de Magé, Narriman Zito, e a autorização para que o diretório municipal de Nilópolis negocie a participação de petistas na gestão do prefeito Farid Abrão David (PP), irmão do banqueiro de bicho Aniz Abrão David, o Anísio.

Biscaia: “Aprovar aliança com o bicho é inaceitável”
A filiação de Narriman foi confirmada por larga margem: 32 votos a sete. Já a participação na prefeitura de Nilópolis por pouco não divide o partido: passou por 21 votos a favor, 14 contra e duas abstenções.

Inconformados com a manutenção das duas medidas, deputados e dirigentes da esquerda petista decidiram entrar com novos recursos, desta vez no diretório nacional, que se reúne em outubro. O deputado federal Antonio Carlos Biscaia acusou a direção do PT de ter aderido ao jogo do bicho.

— Aprovar uma aliança com o jogo do bicho em Nilópolis é inaceitável. E ainda querem botar para fora do partido as pessoas com padrões éticos. Também continuo francamente contrário à entrada de Narriman. Dizer que ela não tem nada a ver com Zito (José Camilo Zito dos Santos, prefeito de Caxias e marido de Narriman) é brincadeira — afirmou.

Biscaia disse que, na época em que era procurador de Justiça do Estado do Rio, teve em mãos vários processos nos quais Zito era acusado de envolvimento com grupos de extermínio. Narriman já anunciou que vai processar Biscaia por não aceitar a acusação de que tem ligação com tais práticas. Em defesa de Narriman, o presidente regional do PT, deputado estadual Gilberto Palmares, disse que a prefeita tem que ser avaliada por suas ações e não as praticadas por Zito.

— Esses companheiros estão sendo preconceituosos. Ela não pode ser julgada pelos atos do marido — disse Palmares.

Esquerda do PT planeja ação para pressionar cúpula
Em relação à questão de Nilópolis, Palmares disse que a medida foi discutida e aprovada democraticamente, além de corresponder ao desejo de outros setores da sociedade que, segundo ele, desejam o envolvimento do PT nas ações de cunho social.

O deputado federal Chico Alencar e o deputado estadual Alessandro Molon, no entanto, condenaram as duas medidas e afirmaram que o PT está perdendo suas características. Para discutir a política de alianças, representantes de diretórios municipais começaram ontem a elaborar um abaixo-assinado em que pedem a convocação de um encontro extraordinário.

— Qualquer partido que chega ao poder vira pólo de atração. Agora, se isso descaracteriza o PT, não vale a pena. Essas pessoas (que aprovaram as duas medidas) parecem não saber o que estão fazendo. A pior coisa para a democracia é o PT virar um partido como os outros. E acho que está caminhando nesse sentido — disse Chico.

Cientes de que também estarão em minoria no diretório nacional, os integrantes da esquerda petista já articulam um movimento nacional, com a participação de intelectuais e outros formadores de opinião, para forçar o PT a mudar sua estratégia eleitoral.

Candidatura de Lindberg é criticada
O deputado federal Lindberg Faria (PT-RJ) foi alvo de duras críticas, na reunião do diretório regional do PT, por ter lançado sua pré-candidatura a prefeito de Nova Iguaçu, com o apoio do PSDB. Um dos mais revoltados era Adeilson Telles, candidato do PT a prefeito de Nova Iguaçu em 2000. Membro do diretório regional, Telles afirmou que disputará a indicação do partido com Lindberg, a quem acusou de desrespeitar as instâncias partidárias, por lançar sua pré-candidatura à revelia da decisão do diretório municipal.

— Sou o candidato natural à prefeitura. Lindberg pulou de pára-quedas. Há quatro meses, ele era do grupo da Luciana Genro, do Babá e da Heloisa Helena (parlamentares radicais, ameaçados de expulsão). Hoje, beija a testa do Marcello Alencar e faz acordos sem consultar o diretório municipal. Ele age de maneira desrespeitosa — afirmou Adeilson, integrante da Articulação, corrente moderada, que detém a maioria no diretório regional.

Adeilson afirmou que o diretório municipal nunca discutiu qualquer proposta de aliança com o PSDB.

— Como então Lindberg diz que Luiz Paulo (Corrêa da Rocha, deputado estadual tucano) vai coordenar a campanha e como diz que o PSDB indicará seu vice? O Lindberg tem que passar por um aprendizado sobre Nova Iguaçu. Vamos ter prévias e eu vou ganhá-las — disse.

Adeilson ganhou o apoio dos deputados federais Antonio Carlos Biscaia e Chico Alencar, que ironizaram a pré-candidatura de Lindberg.

— O Lindberg tem domicílio em Nova Iguaçu, Chico? — perguntou Biscaia.

— Passou a ter — respondeu Chico.

— Essa é a prática que nós sempre condenamos. Cadê o patrimônio ético do PT? — disse Biscaia.

Palmares: “Lindberg adquiriu uma expressão”
O presidente regional do PT, Gilberto Palmares, afirmou, no entanto, que Lindberg conseguiu construir uma sólida base de apoio à sua pré-candidatura. Mas frisou que caberá ao diretório municipal de Nova Iguaçu escolher o candidato.

— É inegável que Lindberg adquiriu uma expressão — disse Palmares.

Segundo o presidente do PT, a busca por alianças se dará preferencialmente no campo de partidos que formam a base do presidente Lula, o que não impede acordos com outras siglas. (C.A.)

PT aprova filiação de Narriman
Decisão irrita esquerda do partido, que vai recorrer no diretório nacional. Jornal do Brasil, 22 de setembro, 2003


Estratégias e políticas de alianças para as eleições municipais de 2004 discutidas ontem, durante a reunião do Diretório Estadual do PT do Rio, dividiram opiniões e geraram protestos entre a esquerda petista. O diretório rejeitou os recursos contra a filiação da prefeita de Magé, Narriman Zito, e contra a decisão da executiva do partido, que autorizou o diretório de Nilópolis a negociar a participação de petistas na gestão do prefeito Farid Abrão David (PP), irmão do bicheiro Anísio Abrahão David.

Petistas contrários à decisão, entre eles o deputado federal Chico Alencar e o deputado estadual Alessandro Molon, vão entrar com novos recursos em outubro, no Diretório Nacional. Indignado, o deputado federal Antonio Carlos Biscaia disse que o PT estava ''fazendo uma aliança com o jogo do bicho''.

Alencar taxou a votação de anti-democrática e contraditória e comparou a atitude do PT aos chamados partidos ''ônibus'' - ''como o PMDB, onde cabe todo mundo''.

"O PT não pode aceitar a filiação de pessoas que não têm uma trajetória identificada com a legenda. Podemos até analisar coligações, mas nunca fazer política escancarando as portas. É um contra-senso o partido dar tratamento rigoroso a militantes históricos e ser generoso com os novatos", disse.

O deputado Alessandro Molon fez coro com Alencar afirmando que a decisão do diretório regional afeta a coerência e a ética do PT, contradizendo tudo que o partido construiu. "Mais uma vez o PT do Rio fica na contramão da história".

O presidente regional do PT, deputado Gilberto Palmares, comemorou a decisão e disse que os argumentos apresentados contra a filiação de Narriman foram preconceituosos. "O governo de prefeita de Magé tem características populares". O deputado William Campos endossou a filiação. "Todo o esforço contra o Garotinho é necessário. Não se pode condená-la por ser mulher de Zito".

Sobre a política de alianças, o PT admite que, para crescer no Rio, pode coligar-se com partidos que não integram a base do governo Lula, como PFL, PP e PSDB. Mas a ofensiva do partido no Estado, segundo o deputado estadual Carlos Minc, não pode cair na vala comum. "O PT tem que crescer com base em critérios favoráveis à política de alianças, sempre respeitando a ética".

O vereador Edson Santos também defendeu a filiação de Narriman. "A prática política é que deve ser o referencial. Ela trabalhou com o PT e participou do governo da Benedita".

Todos contra Garotinho
Ana Carolina Gitahy

A aliança do PT com PSDB, em Nova Iguaçu, em torno do nome do deputado Lindberg Farias (PT-RJ), ou a filiação da prefeita de Magé, Narriman Zito, não surpreendem o cientista político da PUC-Rio, Cesar Romero Jacob."Vamos ver um cerco ao Garotinho e seu grupo no Rio. Muitas outras alianças ainda vão acontecer".

Jacob lembra que o PMDB e os partidos ligados ao ex-governador do Rio somam, hoje, quase 50 prefeituras no Estado do Rio - quase a metade dos municípios fluminenses. Avalia que todos os outros partidos - mesmo os que não têm afinidade histórica e política - vão se reunir para derrotá-lo em 2004.

O cientista político descarta, no entanto, que essas alianças possam prejudicar a imagem do PT. "O dogma da pureza partidária acabou. O PT está construindo um governo de centro-esquerda que tende à social democracia. Mesmo ferindo certas posições da esquerda, está cumprindo a plataforma de inclusão social", pondera.

Jacob destaca que o PT não está exagerando nas novas filiações partidárias. ''A maioria das novas adesões está nos partidos da base'', explica. Ressalta, no entanto, que o partido vai buscar uma grande aliança para se expandir nacionalmente. "O PT não tem capilaridade nacional. É forte em cidades de grande e médio porte, mas sem representatividade expressiva nos grotões".

O lançamento do Bolsa Alimentação, avalia, vai ajudar o partido a aumentar sua presença nos municípios pobres, da mesma forma que o PSDB nas duas últimas eleições cresceu nessas áreas, até então dominadas pelo PFL e PMDB. "No interior, o pobre é o governista por falta de opção. Os grotões precisam de ajuda federal e sempre votam nos partidos da situação", conclui.

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