Caso Chiquinho
também é arquivado na corregedoria
Dimmi
Amora e Elenilce Bottari, O
Globo, 17 de setembro, 2003
Uma
semana depois do arquivamento pela Alerj de um pedido de cassação
do mandato do deputado e secretário de Esportes, Francisco de Carvalho,
o Chiquinho da Mangueira, a Corregedoria Geral Unificada do Estado também
arquivou o caso. O corregedor João Pinaud apresentou um relatório,
que estava pronto há três meses e fora divulgado em julho
pelo GLOBO, sobre as denúncias do ex-comandante do 4 BPM (São
Cristóvão) tenente-coronel Erir Ribeiro da Costa Filho contra
o secretário. O relatório inocenta ambos e afirma que tudo
não passou de um mal-entendido. Mas aponta um culpado para o escândalo:
a imprensa.
No
relatório, Pinaud chama a imprensa de sensacionalista e diz que
o oficial negou, em dois depoimentos, que Chiquinho tenha pedido uma trégua
para o tráfico na Mangueira. Ao contrário do que afirma Pinaud,
nos depoimentos na Polícia Civil e na Comissão de Segurança
da Alerj, o coronel confirmou o teor do documento encaminhado à
Secretaria de Segurança Pública, em fevereiro.
— Houve
uma má interpretação de um fato que praticamente não
ocorreu. Para mim ficou claro que o coronel Erir, oficial exemplar, fez
uma leitura de que o secretario estaria em situação de risco
— disse Pinaud.
Corregedor
não anexou discurso aos autos
O
corregedor informou ainda que não foi anexado ao autos o o discurso
feito pelo oficial no dia de seu afastamento do comando do batalhão,
no qual ele afirmou que foi substituído por pressão política.
— Isto
não está nos autos. O que houve foi muita onda em torno de
um fato irrelevante. Tratava-se de um comunicado interno. Eu não
ouvi o discurso dele na saída do batalhão, não estava
lá. Aqui, ele não deu esta interpretação. Com
os elementos que eu colhi, não houve qualquer erro de conduta e
por isto estou arquivando o caso — alegou.
O trabalho
da corregedoria era investigar a atitude do oficial da PM, que ao sair
do comando em maio afirmou que sua exoneração teve motivação
política. No dia seguinte, foi divulgado um relatório encaminhado
por ele à Secretaria de Segurança em fevereiro, dizendo que
Chiquinho pedira uma trégua para o tráfico da Mangueira.
O documento também informa que Chiquinho se disse ameaçado.
O secretário nega o pedido e também que teria dito que estava
ameaçado.
MP
manterá apuração sobre Chiquinho
Bruna
Croce, Jornal
do Commercio, 11 de setembro,
2003
O
promotor chefe da Assessoria de Investigações Penais do Ministério
Público (MP) do Rio de Janeiro, Alexandre Araripe, afirmou ontem
que a investigação sobre o caso do secretário Estadual
de Esportes e Lazer, Francisco de Carvalho, o Chiquinho da Mangueira, não
sofrerá qualquer tipo de influência externa e durará
o tempo que for necessário.
O secretário,
que é deputado licenciado, está sendo investigado por associação
para o tráfico de drogas, desde que o ex-comandante do 4º BPM,
coronel Erir Ribeiro da Costa Filho, disse, ao ser exonerado do cargo,
em maio, que Chiquinho havia pedido que o batalhão deixasse de fazer
incursões no Morro da Mangueira. Ele está sob investigação
também da Promotoria de Defesa do Cidadania, por improbidade administrativa,
pela contratação do Clube de Futebol Zico (CFZ), sem licitação,
para prestar serviços à Mangueira, denúncia apresentada
pelo deputado Paulo Ramos (PDT).
"Tudo
será apurado até as últimas conseqüências.
Tenho autonômia total. As investigações só acabarão
quando todos os meios para atingirmos a verdade forem esgotados", disse
o promotor, que preferiu não comentar declarações
do secretário estadual de Segurança Pública, Anthony
Garotinho, sobre o possível arquivamento do processo pelo Ministério
Público.
Alexandre
Araripe disse ainda que as investigações do MP nada têm
a ver com o decoro parlamentar ou com o pedido de cassação
do mandato do secretário. "A ótica do Ministério é
criminal". "Estamos apurando a possibilidade de crime" afirmou.
Auxiliar
do secretário é assassinado
O
major PM Edimilson Silva Santos, de 33 anos, coordenador de segurança
da Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj),
foi assassinado com cinco tiros nas costas e na cabeça. O corpo
foi encontrado na manhã ontem, em São Gonçalo. O cadáver
estava no banco traseiro do Audi A3 que pertencia ao policial. O major
era responsável pela segurança interna do complexo esportivo
do Maracanã, na zona norte, e estava no cargo desde janeiro, a convite
do secretário estadual de Esportes, Francisco de Carvalho, o Chiquinho
da Mangueira.
Chiquinho
contou que Santos trabalhou normalmente, na quarta-feira, e deixou o Maracanã
por volta de 18h15m. O último contato do policial com a família
ocorreu também na noite de quarta-feira, quando ele telefonou para
avisar que estava indo para casa.
Mais
molho para a pizza do Caso Chiquinho
Jan
Theophilo, O Globo,
11 de setembro, 2003
O
secretário de Segurança, Anthony Garotinho, que desde as
primeiras denúncias contra o secretário estadual de Esportes,
Francisco de Carvalho, o Chiquinho da Mangueira, garantira a inocência
dele, antecipou ontem o resultado de duas investigações do
caso que não estão sob sua responsabilidade direta. Garotinho
garantiu que a Corregedoria Geral Unificada e o Ministério Público
estadual, a exemplo da Assembléia Legislativa, também decidirão
pelo arquivamento do caso. Chiquinho é acusado de ter pedido uma
trégua no combate da PM ao tráfico.
— A
conclusão da corregedoria é a mesma da Alerj. A conclusão
do inquérito da policia vai na mesma direção e a do
Ministério Público também. Então, parece-me
que há unanimidade de opiniões. Como secretário, sou
parte do processo e prefiro não externar uma opinião. Estou
apenas relatando fatos — disse Garotinho, durante entrevista no Palácio
Guanabara.
Rosinha:
‘A verdade sempre aparece’
Mas,
ao contrário do que disse Garotinho, o MP ainda não chegou
a conclusão alguma. Segundo a assessoria do MP, o procurador Alexandre
Araripe Marinho, encarregado do caso, não terminou as investigações.
Além disso, Garotinho não tinha como saber o resultado de
uma investigação que está sendo conduzida por outro
poder ou sob responsabilidade de outra pasta, já que a corregedoria
é ocupada, interinamente, pelo secretário de Direitos Humanos,
João Luiz Duboc Pinaud.
Desde
o início da crise, Garotinho deixou clara a conclusão desejada
por ele para os inquéritos. Uma semana após vir à
tona a denúncia do tenente-coronel Erir Ribeiro da Costa, ex-comandante
do 4 BPM (São Cristóvão), quando as investigações
mal haviam começado, Garotinho praticamente deu os trabalhos por
encerrados ao dizer que era uma inverdade que Chiquinho não queria
policiamento na Mangueira. Chiquinho recebeu também o apoio de todo
o secretariado de Rosinha Matheus e do chefe da Polícia Civil, Álvaro
Lins, que disse que “botaria a mão no fogo” por ele.
Em
Brasília, a governadora comentou ontem a decisão da Mesa
Diretora da Alerj, que anteontem arquivou um pedido de abertura de processo
de cassação de Chiquinho, que é deputado licenciado.
— A
verdade sempre aparece — disse Rosinha, ao sair de um encontro com o ministro
da Fazenda, Antonio Palocci.
Procurador
foi menos votado de lista tríplice
Ao
comentar uma decisão do MP que não existia, Garotinho opinou
sobre assunto que é da alçada do procurador-geral de Justiça,
Antônio Vicente da Costa Júnior. O GLOBO tentou ouvir o procurador
para saber como o secretário obtivera a informação,
mas sua assessoria informou que ele não ia se pronunciar. Não
se espere, entretanto, uma briga entre poderes. Menos votado entre os candidatos
que figuravam numa lista tríplice encaminhada pelo MP à governadora
Rosinha Matheus, Antônio Vicente está no cargo por decisão
política do grupo de Garotinho.
Alerj
deverá instaurar processo ético
Dimmi Amora
A Mesa
Diretora da Alerj deverá aceitar, nos próximos dias, um pedido
do PT para que seja aberto um processo ético contra Chiquinho da
Mangueira. Os principais partidos da Casa estão alinhavando um acordo
para a aceitação do requerimento. O próximo passo
será iniciar um procedimento para pedir punição, que
pode ir de uma advertência à cassação do mandato
do deputado licenciado, por quebra do decoro parlamentar.
Anteontem,
alegando um problema técnico, a Mesa arquivou por 11 votos a zero
um pedido de abertura de processo feito pela Comissão de Segurança,
sem analisar a questão central: se houve ou não quebra de
decoro. A comissão pedia a cassação depois de apurar
a denúncia, do tenente-coronel Erir Ribeiro da Costa Filho, de que
o secretário teria pedido uma trégua no combate da PM ao
tráfico. Chiquinho nega a acusação, alegando que pediu
apenas planejamento das operações policiais no horário
escolar.
A Procuradoria
da Alerj deu parecer contrário ao pedido, alegando que, segundo
o Regimento Interno, a Comissão de Segurança não tem
poderes para solicitar a abertura de processo de cassação
de mandato. O pedido só poderia ser feito por um deputado ou partido
político. Além disso, os líderes dos partidos alegaram
que a comissão não poderia fazer mais que duas sessões
sobre o caso. Foram realizadas 12.
Deputado
diz que trabalho nunca foi questionado
A
dita atuação equivocada da Comissão de Segurança
jamais foi questionada nos quase dois meses de investigação
sobre o caso, segundo o seu presidente, Flávio Bolsonaro. Ele lembra
que o presidente da Alerj, Jorge Picciani, e o presidente da Comissão
de Constituição e Justiça (CCJ), Paulo Melo, estiveram
presentes à terceira reunião sobre o caso — que já
seria ilegal — quando foi convocado o secretário de Segurança,
Anthony Garotinho. Segundo a transcrição das fitas do depoimento,
ambos elogiaram o trabalho da comissão.
Caso
o requerimento do PT seja aceito, haverá um prazo de defesa para
Chiquinho. Depois disso, a Mesa pode decidir iniciar um processo ético,
que seria conduzido pela CCJ, arquivar o pedido ou encaminhar uma advertência
ao deputado. Segundo fontes do Legislativo, a tendência é
de que Chiquinho receba uma advertência.
Arquivamento
acirra os ânimos no plenário
Gisela
Alvares, Jornal
do Commercio, 11 de setembro,
2003
O
arquivamento do caso Chiquinho da Mangueira pela Mesa Diretora (MD) deixou
no ar um cheiro de pizza na Assembléia Legislativa do Estado (Alerj).
No dia seguinte à decisão de não enviar à Comissão
de Constituição e Justiça (CCJ) o relatório
elaborado pela Comissão de Segurança Pública (CSP)
da Casa, pedindo a cassação do deputado licenciado e secretário
estadual de Esporte e Lazer, Francisco de Carvalho, parlamentares foram
ao plenário defender posições distintas em discursos
inflamados ou irônicos. Chiquinho da Mangueira foi alvo de investigação
da CSP durante dois meses, sob suspeita de manter estreitas ligações
com o narcotráfico.
O líder
do PDT, Paulo Ramos, entrou ontem com recurso na MD contra a posição
da própria MD, que arquivou o processo sem ao menos ler o relatório.
Neste caso, a aprovação ou rejeição do recurso
será em plenário.
O líder
do PMDB, deputado Paulo Melo, agarrou-se ao regimento interno para justificar
a decisão da MD. "A comissão não tem poder para encaminhar
pedido de cassação. Isto só pode ser feito de forma
legítima por partido político com representatividade no Congresso",
explicou Melo.
Alessandro
Molon (PT) advertiu que as audiências públicas que não
forem autorizadas serão realizadas nas escadarias da Alerj. "Se
a situação está tão preocupada em cumprir o
regimento interno, nem deveria ter permitido esta sessão", afirmou
Molon.
Satisfeito
com a decisão da MD, o líder do Governo, deputado Noel de
Carvalho (PMDB), não acredita que a Casa fique desmoralizada com
o episódio. "Se este resultado pode ser interpretado como tendo
acabado em pizza, mais ainda seria se tivessem ido adiante com tantas irregularidades
que aconteceram com o intuito de linchar o secretário Chiquinho",
defendeu Noel.
O líder
do PT, deputado Carlos Minc, ressaltou que a argumentação
de que houve desrespeito a procedimentos do regimento interno é
uma forma de "exigir o cumprimento de uma operação padrão,
feita exatamente para que nada funcione. Se até a convocação
de um secretário não é permitida a uma comissão,
então resta ao parlamento ficar jogando truco", ironizou.
Membro
da Comissão de Segurança Pública e tendo votado a
favor de Chiquinho, o deputado Délio Leal (PMDB) acha que a imagem
da Casa foi desgastada. "Durante os trabalhos, sugeri que a documentação
fosse enviada à MD para apreciação, mas sem pedido
de cassação, pois esta não é a função
da comissão. Se tivessem me escutado, a Casa não estaria
pagando este mico", resumiu o parlamentar.
Dois
inquéritos ainda estão em tramitação
O
deputado Chiquinho da Mangueira ainda pode ter o mandato cassado. Mesmo
com a decisão da Mesa Diretora da Alerj, que derrubou o pedido de
cassação, dois inquéritos sobre o caso tramitam no
Ministério Público Estadual (MPE). Chiquinho, porém,
diz ser inocente de todas as acusações.
Um
dos inquéritos é criminal e está sob responsabilidade
do procurador-geral de Justiça do Estado, Antônio Vicente
da Costa Júnior, que pode denunciá-lo por associação
para o tráfico, caso se confirme sua suposta ligação
com traficantes. A outra investigação corre na Promotoria
de Defesa da Cidadania: se o órgão entender que Chiquinho
pediu trégua em favor de traficantes, um processo pode ser aberto
por improbidade administrativa, que pode ser punida até com a perda
de função pública e inabilitação para
exercício de cargos na administração. |