Dividir para não somar
Petrônio Souza Gonçalves, 10 de outubro, 2003

Sempre soubemos que o Partido dos Trabalhadores era um partido dividido em suas convicções, preenchido por alas, as quais, umas situadas mais à esquerda, outras situadas mais à direita. Ainda assim, dentro desta comunhão de seitas oposicionistas, encontrávamos um ponto comum entre o PT e os nossos ideais: a busca e luta por um Brasil melhor, mais igualitário, mais brasileiro.

Passados dez meses do governo petista, o que tem à frente a figura operária e libertária do brasileiro Luis Inácio da Silva, começa-se a constatar que o Partido dos Trabalhadores não era apenas divido, mas recortado em si mesmo, com remendos que, à primeira hora, começam-se a se soltar e revelar a verdadeira pintura escondida por detrás da moldura.

Mal o novo governo assumia, já se desenhada sobre o perfil histórico da destemida senadora Heloísa Helena, o retrato da Joana D’Arc do partido, mantendo-se convicta às suas idéias, às suas raízes e, por isso, via-se no seu encalço o inquisidor José Genoíno, tentado de todas as formas apagar a centelha viva dos antigos sonhos do Partido dos Trabalhadores. Mas, como Genoíno não obteve êxito no intento, agora, como um serviçal que falha na missão, começa também a empunhar sua ‘metralhadora’ oposicionista de antigo guerrilheiro e apontar para o PT que é governo, exigindo que Lula e seus asseclas, mudem o rumo da nossa política nacional.

Hoje, o PT se mostra dividido entre o que governa, assistido em Lula e liderado por Palocci, e o Partido dos Trabalhadores, o que está como o trabalhador brasileiro, à margem dos acontecimentos. De dentro do governo, no centro do Planalto Central, começa-se a ouvir os primeiros gritos do sectarismo lulante.

José Genoíno, o presidente do partido, foi claro ao dizer que: "É preciso que o governo mostre sensibilidade para alguns pontos. O partido tem tradição e agenda. Tem bandeiras históricas que não podem ser esquecidas". Em um primeiro momento, foi ele que se esqueceu destas bandeiras e começou a perseguir quem ainda a empunhava. Como se estivesse do outro lado da história e do governo, ponderou: "O PT precisa ser ouvido sempre que a agenda for importante". Bom, quem está no governo é o PT e se ele não é ouvido, então quem é?! Será que há alguma farsa na conduta da nossa política nacional, ou o governo petista é um governo transgênico, formado nos laboratórios do estrangeiro por doutores do liberalismo?!

Na semana passada, os 14 senadores do PT tiveram uma reunião com Genoíno para cobrar uma maior participação deles no governo. A senadora petista de Santa Catarina, Ideli Salvatti, parafraseando Genoíno, reafirmou: "O que está acontecendo é inadmissível. O partido tem de ser ouvido". Outro que se juntou ao coro, ou choro, como preferir o leitor, foi o deputado Carlito Merss, também do PT catarinense, um dos mais fiéis ao governo, que reforçou: "Nossa bancada é a primeira vidraça. Quem segura as pontas do governo somos nós"... Errado deputado, quem segura as pontas deste desgoverno neoliberal e continuista somos nós, o povo brasileiro, que depois de caminhar junto com a mudança e a esperança, agora, como o senhor, está divido, perguntado em qual governo ele votou, no PT de antes das eleições, ou no PT que virou governo, que virou as costas para os sonhos brasileiros, para os seus antigos companheiros e a página de luta escrita na história.

É claro que não era para nós, cidadãos brasileiros, um ano após marcharmos para as urnas querendo enterrar de uma vez por todos a era entreguista fernandista, estar exigindo que Lula volte aos seus compromissos de campanha, à sua proposta de governo, na qual acreditamos e votamos. Era para estarmos agora apoiando o governo operário-nacional, invadindo as ruas para cantarmos ‘sem medo de ser feliz’ que a esperança é a nossa grande vencedora. Mas, infelizmente, o nosso maestro preferiu o caminho mais fácil, do medo, da servidão, do entreguismo. Enquanto isso, o povo desesperançoso permanece divido, repartido, mais pobre em si mesmo e com medo de ser feliz.
 

sobre o autor


Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor. [petros@brfree.com.br]


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