| O Brasil do Lula e o Brasil que conhecemos
nas ruas
Petrônio Souza Gonçalves, 3 de outubro, 2003 Quando o presidente Fernando Henrique Cardoso ‘viajava’ o mundo falando às maiores autoridades internacionais sobre o seu governo e o Brasil, sempre tínhamos dúvida de qual Brasil que ele estava falando. Nunca achamos um ponto comum entre o Brasil real e o Brasil das palestras de FHC. Agora, enxergamos o presidente Lula com a mesma desenvoltura do seu antecessor, bramindo ao quatro ventos, um Brasil que não é nosso, não é dele e nem de FHC, é apenas um Brasil que não se vê, que não se toca, que não se crê. Na semana passada, em Nova York, o presidente Lula cumpriu uma agenda que contrastou com a realidade vivida pelo nosso Ministério das Relações Exteriores. Enquanto o presidente defendia a inclusão do Brasil entre os membros permanentes do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas e mantinha, paralelo à 58ª Assembléia-Geral das Nações Unidas, encontros com oito chefes de Estado, Lula esteve amparado por diplomatas e oficiais de chancelaria que não recebem o auxílio-moradia há pelo menos quatro meses. Lula falava em austeridade enquanto era acompanhado pela insegurança, pela falta de compromisso do seu governo aos que estão sob sua responsabilidade, representando fora, o país pátria. De Nova York, a Secretaria-Geral de Relações Exteriores recebeu telegramas desesperados de três embaixadores nos últimos 15 dias - os veteranos Ronaldo Sardenberg, chefe da missão do Brasil na ONU, Júlio César Gomes dos Santos, cônsul-geral, e Gilberto Velloso,chefe do escritório financeiro em NY. Sardenberg alertou para "sérias e crescentes dificuldades" enfrentadas pela equipe da missão por conta do atraso do auxílio-moradia, benefício que cobre de 50% a 80% do valor dos aluguéis de servidores transferidos para o exterior. O embaixador Júlio Cesar Gomes foi além. Mencionou o comentário de um diretor da Newmark & Company Real State Incorporate de que "o atraso no pagamento de aluguéis pode indicar que o Brasil enfrenta dificuldades financeiras graves, pois vê-se impossibilitado de honrar em dia seus compromissos mais corriqueiros". De outro lado, embaixadores designados para postos no exterior nos últimos meses tiveram seus embarques adiados por causa da falta de recursos para pagar as suas mudanças. Além disso, diplomatas designados para missões temporárias em outros países têm se atrevido a declinar do convite: alegando que dizer sim significaria dispensar dólares de seus bolsos, sem nenhuma perspectiva de quando seriam ressarcidos. Se não bastasse isso, esta crua e dura realidade brasileira que não é vivida somente aqui, mas além fronteiras, vem agora o aviso: se o Brasil não quiser perder o direito ao voto nas Nações Unidas, o ministério das Relações Exteriores terá de desembolsar aproximadamente US$ 24 milhões para a ONU, cerca de 20% de sua dívida com o organismo internacional, até dezembro. O Ministério terá ainda que cobrir pelo menos uma parte de seus haveres com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), que gira em torno de US$ 40 milhões. Enquanto Lula falava, alguém nas Nações Unidas debitava os furos da nossa participação, desacreditando uma vez mais da seriedade de um povo em cumprir com os seus compromissos. Na abertura da 58ª Assembléia Geral das Nações Unidas, em seu discurso, ao melhor estilo FHC, Lula foi enfático ao dizer que " a fome é uma emergência e como tal deve ser tratada", depois de nove meses estamos vendo como a fome tem sido tratada pelo seu Fome Zero. O presidente seguiu firme: "A cada dia a inteligência humana amplia o horizonte do possível, realizando prodigiosas invenções e, no entanto, a fome continua e, o que é mais grave, se alastra em várias regiões do planeta". Ela se alastra evidenciando a total incompetência e descomprometimento dos governantes que não são capazes de vencê-la, de erradicá-la. Lula, o nordestino de Caetés, ainda foi mais preciso: "Precisamos nos engajar política e materialmente na única guerra da qual sairemos todos vencedores: a guerra contra a fome e a miséria. Erradicar a fome do mundo é um imperativo moral e político" (...) “Nossa meta é que até o final do meu governo nenhum brasileiro passe fome." (...) “Mas devemos ser capazes, ao mesmo tempo, de atender as necessidades de alimentação, emprego, educação e saúde de dezenas de milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza. Temos o compromisso de realizar uma grande reforma social no País". Hoje, a nossa realidade é de mais de 14 milhões de desempregados, com a faixa de exclusão entre a parcela mais rica da sociedade e a mais pobre, aumentando devido à queda da renda e da falência do setor produtivo que não emprega. Somos hoje aproximadamente 54 milhões de brasileiros vivendo com menos de R$ 2,00 ao dia. Uma tragédia! "O protecionismo dos países ricos penaliza injustamente os produtores eficientes das nações em desenvolvimento. Além disso, é hoje o maior obstáculo para que o mundo possa ter uma nova época de progresso econômico e social". É a política espúria do doutor Palocci, privilegiando o capital especulativo em detrimento ao setor produtivo, do social. "Somos favoráveis ao livre comércio desde que tenhamos oportunidades iguais de competir. A liberalização deve ocorrer sem que os países sejam privados de sua capacidade de definir políticas dos campos industrial, tecnológico, social e ambiental". Como é que pode competir um país como o Brasil que têm juros básicos a 20% ao mês com os EUA que têm os juros a 1%. Esta lógica, só mesmo o Lula para explicar. "As negociações comerciais não são um fim em si mesmo. Devem servir à promoção do desenvolvimento e à superação da pobreza. O comércio internacional deve ser um instrumento não só de criação, mas de distribuição de riqueza." Os juros altos não geram produtividade, emprego e distribuição de renda, apenas concentração. Lula, o nosso presidente
eleito pela vontade de 54 milhões de brasileiros, tem que entender
que o Brasil não tem que falar em fome, em miséria, em pobreza.
Pois, para isso ele foi eleito, para banir de uma vez por todas estas mazelas
humanas do nosso meio. Lula não pode ser o homem do vamos fazer,
mas o homem do estamos fazendo, estamos construindo, estamos acreditando
nos nossos próprios sonhos, plantando nesta terra que tudo dá,
um Brasil melhor, mais humano... um Brasil que vai desabrochar aos olhos
do mundo como a grande nação do ano 2000, um Brasil que canta
e é feliz. Que têm na sua presidência, um filho da pobreza,
e nas ruas, os filhos da riqueza.
sobre o
autor
Prega Fogo | Opinião
|