As sete mulheres e as negras sem rosto
Mário Maestri, outubro de 2003

I. De volta ao presente
O espectro do romance histórico sobre a Guerra Farroupilha não cessa de assombrar a literatura sulina, pondo em geral a pique, com grande, algum ou nenhum sucesso de público, inúmeros escritores que se embarcaram na arriscada aventura, desde a publicação, em 1847, de A divina pastora, de Caldre e Fião, patriarca do romance rio-grandense.

O romance A casa das sete mulheres, de Letícia Wierzchowski [Rio de Janeiro: Rercord, 2003], consagrado por superprodução televisiva nacional, percorre os grandes e pequenos pecados cometidos por inúmeros protagonistas desse drama literário. O fato da autora possuir inegáveis dotes ficcionais facilita a discussão das raízes dessa maldição literária.

O projeto de Letícia é inteligente e ambicioso, já que se propõe contar o decênio heróico em romance de fôlego - mais de meio milhar de páginas - através dos olhos de mulheres que tiveram as vidas suspensas pela partida para a guerra dos pais, esposos, filhos e amantes.

Nesse sentido, Letícia retoma e homenageia as mais poderosas páginas da célebre trilogia de Érico Veríssimo -  O tempo e o vento - iniciada em 1948, sobre o passado sulino. Também suas mulheres escutam o vento assobiar e o tempo passar, prisioneiras das paredes silenciosas de estâncias desertadas por homens entreverados nos combates seculares deste fim de Brasil.

Paixão excelente
Lemos no romance: "Sim, sempre os homens vão, para as suas guerras, para as suas lides, para conquistar novas terras, para abrir os túmulos e enterrar os mortos. As mulheres é que ficam, é que aguardam. Nove meses, uma vida inteira. Arrastando os dias feito móveis velhos, as mulheres aguardam ... Como um muro, é assim que uma mulher do pampa espera pelo seu homem."

Também o nó de amarração do romance é ambidioso. A narrativa tem com centro articulador história de amor excelente - a paixão entre Manuela, sobrinha de Bento Gonçalves, e o jovem Giuseppe Garibaldi, futuro Herói dos Dois Mundos. Letícia rememora igualmente a derradeira novela de Josué Guimarães - Garibaldi & Manoela: Amor de perdição [Porto Alegre: L&PM, 2002], de 1986, reeditada com cortante apresentação de Tabajara Ruas.

Outra poderosa inspiração explicita de A casa das sete mulheres é precisamente Tabajara Ruas, autor da mais ambiciosa ficção épica da Guerra Farroupilha, de título camoniano - Os varões assinalados [Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985]. Portanto, o romance propõe igualmente qualificação ficcional heróica dos festejados sucessos históricos. Os elogios àqueles acontecimentos e aos seus protagonistas são incontidos.

Mas, sobretudo, o romance é narrativa no feminino. São histórias para todos, escritas pelas mãos de Letícia e explicadas pelos olhos e sentimentos de mulheres: Ana Joaquina, Antônia, Caetana, Maria Manuela, Mariana, Manuela, Rosário, irmãs, esposa e sobrinhas de Bento Gonçalves da Silva, o líder máximo da república sulina.

Deusas pastoris
Mas quem são as sete protagonistas que habitam e animam essas fazendas das bordas da campanha rio-grandense, principal cenário da trama ficcional? Como são as mulheres que Letícia recupera do passado, materializando-as ficcionalmente nos seus atos e sentimentos paradigmáticos?

São mulheres lindas, deusas pastoris, belas na juventude e desejáveis na maturidade. "Caetana [...] mirou-se no espelho de cristal. [...] Tinha quarenta e dois anos e ainda era bonita." "Bento Gonçalves [...]. Depois das escapadelas com as criadas, ele voltava para o quarto e sabia ser ainda mais carinhoso; mostrar, enfim, o quanto a querida."

São mulheres de olhos verdes como as matas e azuis como os céus, de cabelos negros como a noite e dourados como os trigais. Mulheres de pele alva cheirando a "rosas" que desejam e entregam-se sem pejo, em atos, sonhos e delírios, a másculos e belos guerreiros que abandonam os combates para mergulharem nos regaços amados.

O amor correspondido, realizado ou não, é o grande protagonista oculto da obra. "Vivi por Giuseppe Garibaldi como muito poucas mulheres viveram por um homem, um homem que nunca foi de todo meu, mas de quem pude compreender a essência - era um cometa, uma estrela cadente -, justo que restasse tão pouco ao meu lado."

Penélopes pampianas
"D. Perpétua estivera feliz como em poucas vezes na vida, vendo a filha toda vestida de renda branca, de braço dado com o jovem fazendeiro. Depois tinham ido viver em Pelotas, tinham arrumado a casa da estância, tinham sido felizes e companheiros. José e Pedro nasceram, ambos parecidos com o pai, ambos corajosos, fortes, amantes dos cavalos e do campo ..."

Confesso que durante a leitura de A casa das sete mulheres pensei sem cessar nas jovens senhoras, aos vinte anos gordotas e bigodudas, aos quarenta sisudas e volumosas patriarcas embutidas em vestidos negros, imortalizadas, em pudica distância de maridos e prometidos, nos retratos retocados de molduras ovais das paredes das moradias e nas páginas dos álbuns de capa de veludo e arabescos de ferro das famílias latifundiárias sulinas.

Em O gaúcho, de 1870, que  tem iguamente como cenário a revolta farroupilha, José de Alencar, em tudo mais inverossímil, descreve as senhoras sulinas mais próximas da realidade: "Estavam no alpendre da casa duas mulheres. A mais idosa, viúva de quarenta e cinco anos [...] passaria por formosa se não fora a excessiva gordura." Para o célebre romancista, a primeira maturidade feminina era quase sinônimo de obesidade!

Nos corpos, falas, gestos, sonhos e sobretudo desejos e expectativas, as protagonistas de Letícia constituem irretorquíveis reproduções estereotipadas da mulher-padrão sulina, branca e de classe média, desse início de milênio, e jamais figuração ficcional das sinhás e sinhazinhas que habitaram as fazendas pastoris do passado.

O casamento como desdobramento do amor romântico e objetivação da atração e do prazer físico. O desejo sexual entre esposos. Maridos que se lançam nos braços de atraentes sinhás de meia idade. Conquistas, programas e mitos do atual estágio do matrimônio burguês-ocidental materializam-se sem nuanças em ficção ambientada no mundo pastoril oitocentista.

A conclusão impõe-se. Em vez de trazer o passado para o presente, o presente nos é apresentado como se passado fosse. Um pouco ao igual da cinematografia norte-americana, com heróis e heroínas da Antiguidade, vestidos mais ou menos segundo a época, falando, sentindo e amando como acreditam e desejam fazer os espectadores contemporâneos.

II. Letícia no país das maravilhas
O principal palco narrativo de A casa das sete mulheres, de Letícia Wierzchowski [Rio de Janeiro: Record, 2003], é o mundo sentimental e afetivo feminino, embalado pelas esperas e perdas motivadas pela guerra separatista sul-rio-grandense de 1835-1845. Portanto, é nesse plano, escolhido pela autora, que deve emergir e materializar-se o universo histórico que embasa e determina a narrativa.

São desprezíveis tropeços menores do décor ficcional, como lareiras aquecendo as sedes das fazendas; campos precocemente cercados; facilidades e processos higiênicos modernos; cativos domésticos labutando na roça; telegramas e bombachas em 1835. O importante é que as emoções e as ações centrais da narrativa expressem, correspondam e materializem as formas de sentir e de viver de então.

A experiência e a existência humana não são combinações variadas de mesmos ingredientes. Através dos tempos, mulheres e homens falam, agem e sentem subjetivamente de formas diversas, porque vivem e relacionam-se objetivamente em forma diversa. É função da historiografia e do romance histórico desvelar essa realidade e evolução através de suas linguagens singulares.

A unidade e a diversidade das experiências históricas materializam-se em banais atos quotidianos. O modo como uma filha relaciona-se com a mãe e uma mulher com o esposo expressam nexos sociais profundos e necessários. O tratamento protocolar "- Senhora minha mãe; - Senhor meu esposo", usado ainda em forma arcaica em regiões do Brasil, registrava, no interior da família senhorial, a rígida hierarquia escravista e patrimonial, que tinha no matrimônio instituição angular.

Casamento como negócio
Racionalizadas e idealizadas, as funções patrimoniais do matrimônio eram naturalmente aceitas por noivos que não incorporavam, entre as expectativas da união, o amor romântico e o prazer sexual. Este último, para as noivas, constituiria descoberta e acidente matrimoniais transitórios e, para os homens, conquista externa ao casamento, buscada nos prostíbulos e queridas de luxo.

Os namoros e noivados eram rigidamente controlados. Nos bailes do Brasil das últimas décadas do século 19, era visto como verdadeiro deboche noivo que dançasse mais do que algumas músicas com a prometida. Não raro, ao casarem, os esposos eram quase estranhos e comumente mantinham relacionamento contido por toda a vida.

Quando atração e prazer intrometiam-se inesperadamente em aliança nupcial, o fato inesperado era mantido encerrado a sete chaves entre as paredes da alcova e sob os lençóis do leito matrimonial para que não comprometesse a boa reputação do casal atingido pelo estranho desvio comportamental.

O universo senhorial determinava os contratos nupciais, via de circulação patrimonial. O controle das herdeiras era necessário para que a transferência de bens não se desse fora dos objetivos de classes. Até a poucas décadas atrás, as filhas do latifúndio sequer pensavam em passear sozinhas nos arvoredos próximos, quanto mais vagabundear pelas margens de arroios, como as heroínas de A casa das sete mulheres. "Mariana ficou desolada, fugiu para a sanga, restou lá uma tarde inteira a chorar."

Casos extraordinários
A vigilância era rígida devido a transgressões e ameaças reais e imaginárias. A ascensão social através do casamento com latifundiária - o tradicional braguetaço da fronteira - segue constituindo objetivo sobretudo mítico de jovens das classes médias pobres do mundo pastoril.

A tradição lembra casos extraordinários de peões que se tornaram proprietários por abiscoitarem rica herdeira. A documentação registra transgressões singulares como sinhá que se entregou às delícias do sexo com seus cativos, pagando-os a seguir para eliminar o consorte condescendente mas incômodo.

Comumente, castrava-se e degolava-se o raro cativo ou homem livre e pobre que seduzia uma herdeira, nos fatos ou na imaginação senhorial. Cobria-se a gravidez indesejada com aborto ou casamento com noivo condescendente, de origem social inferior mas não infamante. Tema habitual do romance de inícios do Segundo Reinado [1840-1889], a ameaça de sedução da heroína materializa o medo de matrimônio aviltante e reforçava os padrões matrimoniais de classe.

O amor de Mariana, sobrinha de Bento Gonçalves, com o peão João Gutierrez, peca por fantasia e artificialidade. Trata-se de um outro dos domínios essenciais em que a narrativa de Letícia Wierzchowski afasta-se do verossímil para construir relato romântico e modernizado, de solução feliz e tranqüilizadora.

Jovem livre e moderna
A jovem Mariana desloca-se pela fazenda ao bel prazer, abandonando à noite a vigiada alcova de donzela com estonteante facilidade, considerando-se a topografia e hábitos das sedes pastoris, trancadas ao escurecer, pelo interior, e vigiadas por cuscos e capatazes, do exterior.

Ao modo dos romances românticos oitocentistas de capa-e-espada, as personagens de A casa das sete mulheres adaptam-se em forma forçada ao enredo em vez dele construir-se harmonicamente a partir das determinações essenciais de personagens que singularizem categorias e relações sociais do passado.

Para que os amantes comuniquem-se, o peão João Gutierrez surge na trama lendo e escrevendo, artes desconhecidas por boa parte dos senhores. Nesse então, o peão letrado era elevado à função de capataz, na fazenda, e de sub-oficial, nos exércitos, devido à inusitada habilidade.

É também esdrúxula a modernização do sentimento paterno de João Gutierrez, ao conhecer seu bastardo. "[...] João Gutierrez percebeu que o mundo se resumia naquele serzinho delicado e morno, envolto em panos bordados, cujos sonhos por vezes provocavam sorrisos no rostinho angelical. - Ele é tão lindo, Mariana. - Parecido com vosmecê. Tem os seus olhos, João."

O amor tudo vence
No mundo rural, beleza e transbordamento de sentimentos eram tidos e vividos como qualidades e reações feminis, inaceitáveis em homem, quanto mais em peão! A determinação dos sentimentos pelo rústico mundo social engessava igualmente o modo de ser pai.

A solução da contradição nascida da relação socialmente inaceitável constitui happy end ficcional. O belo e destemido peão volta da guerra para viver feliz, como administrador de latifúndio, ao lado da igualmente bela esposa e do filho amado, não menos belo.

"Mariana, João Gutierrez e o menino foram viver na Estância do Brejo e lá tiveram existência calma e feliz." E isso devido ao fato do peão ter desvirginado e embarrigado, sobre um pelego sujo, na beira da sanga, a sobrinha de Bento Gonçalves que, por coisas de honra, fulminou o próprio primo, sangue de seu sangue!

A solução ficcional socialmente integradora do caso do gaúcho safado agrava-se devido ao fato de que o empreendedor João Gutierrez constitui o único protagonista da narrativa que não pertence às classes senhoriais! Sua meteórica ascensão social sugere democratismo desconhecido pelo mundo escravista.

Folga dizer que a superação social é apresentada como devida à capacidade do amor de vencer qualquer barreira! A mãe de Mariana, que rejeitara a origem espúria do neto, ao ver o menino, funde-se sob a força do amor: "João Gutierrez derrama-se do rosto do menino, e ela sente um princípio de raiva ao ver sua família misturada com o vaqueano; porém, a raiva logo se desfaz. É amor essa coisa boa latejando em seu peito."

III. O silêncio dos dominados
A linguagem é o espelho da história. Homens e mulheres do passado falavam diversamente, porque, então, se pensava, se vivia e se sentia diversamente. A linguagem é a consciência dos homens, poderoso registro da diversidade social. Falando em formas distintas, peões, cativos e senhores registravam suas distintas existências e visões de mundo.

Na obra ficcional, a pluralidade de vozes registra a multiplicidade e complexidade dos protagonistas que constroem a trama narrativa. Sobretudo, materializa ficcionalmente a diversidade das visões de mundo de segmentos sociais concorrentes e antagônicos, figurações do mundo abordado.

A rica narrativa ficcional pampiana, especialmente argentina e uruguaia, sobre o mundo pastoril, em geral, e sobre o gaucho, em especial, foi comumente obra de latifundiários ou de seus intelectuais orgânicos, estranhos portanto nos hábitos e opostos nos fatos aos protagonistas das narrativas.

Essa paternidade teve importantes conseqüências culturais e ideológicas. Em geral, em espécie de "caridade com o chapéu alheio", as narrativas senhoriais sobre o mundo pastoril fizeram da necessidade do gaúcho, virtude, diluindo as responsabilidades sociais e históricas dos proprietários.

Vidas diversas
A vida vagabunda, sem raízes e sem fronteiras, devido à ausência de família e de direito à terra; o trabalho duro e penoso nos campos abertos; a pobreza e violência das relações interpessoais, etc., foram cantadas por essa ficção como virtudes naturais e seminaturais e, raramente, como decorrência das relações sociais de dominação. Entretanto, poderosas narrativas literárias, com o trabalhador pastoril como protagonista, foram construídas sobretudo através da materialização ficcional criativa da fala-linguagem exterior e interior dos gaúchos, importante registro do modo de existir e de ver o mundo desse grupo humano.

Obras como Martin Fierro, de José Hernández, Dom Segundo Sombra, de Ricardo Güiraldes, ou os melhores momentos de Antônio Chimango, do rio-grandense Ramiro Barcellos, registram aspectos essenciais do universo rural, ao fixarem, transfiguradas, as vozes e as falas dos múltiplos e contraditórios protagonistas que o animam.

Em A casa das sete mulheres, tenta-se ambientação histórico-lingüística superficial através do uso de palavras e tratamentos arcaizantes -charlava, mui, prosear, vosmecê- e castelhanismos -mala suerte, usted-. Em tudo mais, a linguagem é atual, chata, estranha na forma e na essência ao mundo recriado. Sobretudo, é terrivelmente monocórdia.

Monólogo permanente
A única voz que ressoa no romance, o único mundo que a narrativa tenta inutilmente reconstruir, é o das classes senhoriais do passado que resulta ser simples projeção, no Rio Grande do sul de 1835-45, de expectativas e sentimentos estereotipados sobretudo das classes médias e superiores dos nossos dias.

Em A casa das sete mulheres, como no romances e novelas brasileiras de inícios da segunda metade do Oitocentos, o cativo doméstico aparece apenas nas entrelinhas da narrativa, sem rosto, sem nome, sem perfil, triste coadjuvante semi-invisível, espécie de pano de fundo novelesco, ao igual que as cadeiras, mesas e cortinas das moradias senhoriais.

Únicas com direito à cidadania ficcional, as mulheres das elites, bordam, esperam, desmancham-se em paixões frívolas, servidas por infinidade de domésticas referidas pelos narradores e protagonistas sob a forma categorial de negras, em todas as páginas do romance, não raro, múltiplas vezes.

Até o início da crise da escravidão, os senhores negaram espaço ao cativo na narrativa, materializando na ficção a procura permanente no mundo real de reduzi-lo a não-ser social. Porém, ao mesmo tempo, exigiam que os negros se objetivassem, em forma incessante, através de atos produtivos realizados em quase todas as esferas da sociedade.

Ausentes, presentes Nas mais ricas sedes pastoris, a criadagem de portas adentro raramente superava os dedos de uma mão. Mais ou menos despótica e duramente, sinhás e sinhazinhas tratavam e destratavam suas negras pelos nomes e apelidos, já que as conheciam e com elas conviviam, em intimidade objetiva, não raro, desde o nascimento.

No mundo social real, as mucamas, cozinheiras, passadeiras, arrumadeiras, etc. não eram seres etéreos, invisíveis, meras negras fantasmagóricas. Eram componentes ativos e determinantes da vida quotidiana das residências urbanas e rurais, ainda que subalternizados objetiva e subjetivamente pela escravidão.

As negras abstratas da narrativa de Letícia nasciam, viviam, amavam, sofriam e morriam, percorrendo todos os passos de existência que tinha, na minoração, importante mas não única determinação. Para objetivar-se ficcionalmente, o romance histórico deve registrar o caráter despótico das relações do passado, e não reproduzir as negações arbitrárias do real da narrativa perneta da época abordada.

Negar os cativos como personagens plenos ou como elementos ausentes, mas determinantes da trama, constitui violação e empobrecimento do universo narrativo, e não reprodução ficcional da opressão negreira do passado. Opressão que se materializava em dialética amo-cativo que reduzia o senhor a uma extensão necessária do cativo. Nesse sentido, a pessoa do senhor era inevitavelmente decalcada pela do cativo que explorava.

Entretanto, há diferença radical entre a negação ficcional do mundo do trabalho na literatura do passado e no romance de Letícia. Os negreiros ignoravam ficcionalmente cativo que temiam, porque o conheciam plenamente. A apresentação categorial do negro doméstico de A casa das sete mulheres - são raras as referências ao cativo assenzalado - nasce de ignorância radical do universo escravista.

As tetas da negra Xica
Preenchendo outra vez o passado com matéria do presente, a autora empreende comumente valorações raciais semioticamente perigosas. A beleza feminina e masculina restringe-se em forma maniqueísta ao padrão europeu nórdico, raro nas próprias elites sulinas, de raízes ibéricas, algumas vezes, mestiçadas com nativos e africanos.

São inúmeras as referências positivas aos olhos verdes, azuis, cabelos loiros, dourados e sedosos, à pele branca, alva e translúcida das mulheres das elites. "A beleza de Rosário tornou-se mais etérea com o claustro, sua pele mais translúcida e lisa, o azul dos olhos mais suave, celestial."

O tratamento dado aos raros personagens subalternos delineados fracamente é diverso, sobretudo quando são africanos e afro-descendentes. A "negra Xica" tem "tetas"; a "negra Milú", "rosto retinto de preto" e "cabelos de carapinha"; "Zé Pedra" [sic] "parecia um monstro de dentes brancos"; "Nettinho era um negro retinto".

As comparações zoológicas do narrador são opostas, segundo o status social dos personagens. O belo Garibaldi é comparado a um "pássaro", as "negras" da casa grande são "inquietas feito moscas"! Preconceitos do presente são apresentados como próprios ao passado: "Zé Pedra, um negro atarracado com cara de poucos amigos, mas que tinha um coração de manteiga [...]." Quase todos os cativos da narrativa possuem "dentes" e "dentaduras brancas"!

No contexto da profunda ignorância da realidade sócio-ideológica do universo histórico abordado, os lugares comuns e visões piedosas e menos piedosas das elites brancas atuais dos trabalhadores negros povoam o romance, materializados sobretudo através da intrusão do narrador onisciente. Realidade que une, sob forma perigosa, o passado e o presente.

IV. A negra bandeira farroupilha
Em 1835-45, a revolta farroupilha constituiu movimento republicano e separatista dos grandes proprietários pastoris sulinos contra o Estado central monárquico e centralizador brasileiro. Ao contrário de outros movimentos liberais da época - Balaiada, no Maranhão-Piauí, a Cabanagem, no Pará, etc. - as elites senhoriais rio-grandenses barraram o ingresso e a intervenção das classes subalternizadas na revolta.

A Guerra Farroupilha foi movimento elitista, sem cunho social e libertário. Espinha dorsal da revolta, os grandes criadores mantinham nas fazendas núcleos permanentes de cativos esforçando-se nas roças; ocupados nos trabalhos domésticos; construindo taipas de pedra; carreando água, lenha, etc. Cativos labutavam igualmente nas lides pastoris, ao lado de peões mensalistas e gaúchos contratados para os rodeios.

O trabalho escravizado era elemento sistêmico e necessário da produção pastoril das grandes fazendas. Os chefes farroupilhas, proprietários de terras e de homens, coerentes com a defesa das bases materiais, sociais e políticas do poder que detinham e procuravam ampliar, jamais prometeram a liberdade para os cativos e a terra para os gaúchos.

Senhores e seus cativos
Em plena sintonia com seus princípios, suas raízes sociais e suas concepções e visões de mundo, ao morrer, Bento Gonçalves, presidente da república sulina e grande chefe farroupilha, legou terras, gado e meia centena de trabalhadores escravizados aos seus descendentes.

A república farrapa sequer foi movimento de todos os rio-grandenses. A população livre das cidades e os produtores camponeses alemães, chegados ao Sul havia apenas uma década, mantiveram-se em geral afastados e comumente apostos a um movimento de latifundiários com programa em geral antagônico aos seus interesses.

A cidade de Porto Alegre foi agraciada pelo Império com o epíteto de "Leal e Valorosa", encravado até hoje em seu escudo, por ter-se rebelado contra a ocupação inicial e resistido aos três cercos das tropas rebeldes. A resistência da capital sulina contribuiu poderosamente à derrota republicana.

A república farroupilha foi separatista, latifundiária e escravista. Jamais possuiu grandeza social e histórica capaz de inspirar e sustentar obras ficcionais épicas e dramáticas. As mais felizes narrativas sobre esses acontecimentos registraram precisamente sua vacuidade social. O movimento farroupilha constitui capital evocativo e simbólico das classes proprietárias modernas, descendentes sociológicas dos promotores da revolta, interessadas no elogio de relações e conteúdos superados pela história.

República negreira
A Constituição da república sulina reafirma que tudo continuaria como dantes, no triste quartel de Abrantes, se o movimento tivesse triunfado. "A República do Rio Grande é a associação política de todos os cidadãos rio-grandenses". Os rio-grandenses eram apenas os "homens livres nascidos no território da República". O regime eleitoral prosseguia censitário, votando e sendo votado somente o homem livre e rico.

Ao igual que o Império, a República sulina assentava-se sobre o latifúndio, a escravatura, o patrimonialismo. Nela, o índio, o liberto, o gaúcho, o homem pobre eram cidadãos formais de Estado latifundiário-escravista que manteve seus milhares de trabalhadores escravizados à margem dos direitos civis mínimos.

A guerra farroupilha constituiu conflito intersenhorial que jamais questionou a ordem social instituída, assegurando assim a permanente possibilidade de reconciliação das partes em luta. Daí não ter conhecido protagonistas das elites ou populares que registrassem e sintetizassem tensão histórica e social que jamais possuiu.

Em A casa das sete mulheres [Rio de Janeiro: Record, 2003], procurando figurar artisticamente sucessos desprovidos de tensão sócio-histórica, Letícia Wierzchowski moderniza soluções românticas oitocentistas. Totais e demiúrgicos, seus heróis qualificam e criam com suas excelências intrínsecas os acontecimentos, jamais sendo qualificados e criados por eles. "Crescêncio, Teixeira, Netto e Bento Gonçalves são como baluartes, o vento não os verga, a chuva não os atinge, míticos centauros desse pampa."

Elogio do latifúndio
A nula essência paradigmática do movimento de 1835 leva a que as tentativas ficcionais, cinematográficas, poéticas, etc. de fecundá-lo com sentido social e libertário resultem em apologias retóricas e vazias, no conteúdo e na forma. Operações empreendidas conscientemente, já que o conhecimento essencial daqueles fatos são já de pleno domínio público.

As farsas épicas sobre os sucessos farroupilhas têm constituído sobretudo apologias indiretas da grande propriedade pastoril, perfilhadas pelas classes proprietárias industriais e comerciais, dominantes no Rio Grande desde o defenestramento político do latifúndio, quando da Guerra Federalista de 1893-5.

Propor meta abolicionista como objetivo dos chefes republicanos não constitui exercício da licença artística, para revelar conteúdo essencial dos fatos narrados. Ao contrário, constitui mistificação ficcional grosseira para escamotear elementos constitutivos centrais dos sucessos abordados, de caráter redutivo, elitista, paternalista e providencial.

Em A casa das sete mulheres, é explícita e abundante a retórica abolicionismo farroupilha enunciada pelo narrador ou verbalizada pelos protagonistas: "Sim, aquele era um sonho pelo qual se merece lutar até a última gota de sangue: a liberdade de uma terra e de um povo, a criação de uma nação igualitária, onde não houvesse imperador ou escravo."

"Antônio tem a alma voltada para a guerra. Uma guerra onde os negros serão libertados. Uma república igualitária." "Nós, que éramos servidas por escravas em todos os momentos, que, para vestir um espartilho ou prender os cabelos, necessitávamos daquelas mãos negras a nos auxiliar, tanto vibramos com a ambição republicana sobre a abolição da escravatura."

Licença e mistificação
Sobretudo na ficção histórica, casos extraordinários devem ser apresentados como tal, iluminando na sua singularidade as práticas sociais dominantes. Quando isso não ocorre, ensejam reconstruções distorcidas do universo figurado, através da radicalização e generalização de desvios e rupturas da norma.

No romance histórico, a licença artística constitui sobretudo manipulação do formal com o objetivo de reforçar e enfatizar o essencial. Não constitui ato arbitrário do autor-narrador, produto de decisão ou inspiração artística errática. Trata-se de opção cuidadosa e estudada, para melhor ressaltar e iluminar o fundamental.

A principal trama afetiva e as viúvas de Letícia Wierzchowski são outros exemplos das insuficiências ficcionais de A casa das sete mulheres [Rio de Janeiro: Record, 2003]. No mundo pastoril, as proprietárias que sobreviviam aos partos, sobreviviam habitualmente aos esposos. Ao contrário das viúvas da narrativa, não mergulhavam em profunda, sentida e eterna viuvez devido ao transpasso dos maridos-amantes.

No Rio Grande da época, era mais comum que a morte do fazendeiro fosse vivida como espécie de  libertação por viúvas proprietárias que prosseguiam a existência sem grandes abalos. Chorando socialmente os falecidos, dedicavam-se sem maiores problemas a missas, novenas, bolos, bordados, goiabadas, visitas a parentes, atenções a filhos e netos.

O corsário e a presa
É também patente o simplismo da grande história de amor do romance. O primo Joaquim, latifundiário, ama Manuela, latifundiária, que ama por sua vez o corsário Garibaldi que, não podendo abiscoitar a noiva riquinha, já que o tiozão Bento Gonçalves não o quer para parente, embolsa na continuação jovem plebéia casada de Laguna. Esse desdobramento da trama demonstra no mínimo a desfaçatez do herói galante.

A incapacidade de Letícia de figurar em forma realista o fracasso do noivado da sobrinha de Bento Gonçalves com Giuseppe Garibaldi deve-se sobretudo à contaminação do perfil ficcional do pretendente pela sua dimensão histórica posterior. Anacronismo que facilita a construção de entrecho afetivo de cunho romântico oitocentesco. Como registra o rio-grandense Caldre e Fião, no romance O corsário, escrito poucos anos após a guerra farroupilha, na época, Garibaldi apenas se destacava entre os tantos corsos italianos, em geral sem eira nem beira, que aproveitaram os sucessos do Plata para dedicarem-se à pirataria legalizada, através da obtenção de cartas de corso.

Quando arrastou a asa para a rica herdeira, Garibaldi não possuía a consistência pessoal e épica que adquiriu, décadas mais tarde, como expressão excelente dos sucessos da Unificação Italiana. Era apenas um decidido e pouco hábil corsário que prestava serviços à república sulina. Portanto, não possuía consistência social para aliar-se matrimonialmente à família Gonçalves da Silva.

O grito da terra

As personagens românticas, providenciais e modernizadas de A casa das sete mulheres contribuem para que a narrativa naufrague como romance histórico, capaz de aproximar ficcionalmente o leitor contemporâneo dos atos e sentimentos das mulheres e dos homens que viveram os sucessos de 1835-45. Descolado dos fatos e tempos abordados, o romance assume dimensão romântica e folhetinesca.

São homens valentes que acorrem, todos, para a guerra, sem que ninguém corra da guerra. São donzelas estourando de ânsia à espera dos amores que não chegam, endoidecendo literalmente longe das festas e saraus. São esposas aflitas por maridos amantes, recebidos com beijos cinematográficos apenas apeiam dos indomáveis corcéis.

Devido à falta de conteúdo essencial dos sucessos históricos que inspiram o romance, o discurso sobre o impulso social despertado pela Guerra Farroupilha transforma-se inevitavelmente em retórica vazia, de cunho patrioteiro, sobre indefinível impulso telúrico que impulsiona inexplicavelmente os protagonistas do romance.

Não são idéias e sentimentos nascidos dos conflitos sociais e históricos que alimentam os heróis sem máculas da narrativa: "Algo de sobre-humano, de celeste, de bestial. Algo para além das fronteiras dessa carne. Vem do chão, viva energia que os alimenta a cada légua, que insufla em seus corpos a força para prosseguir contra todas as tempestades, a despeito do mais vigoroso dos invernos, esquecendo todas as derrotas."

A produção sem trabalho
No mesmo sentido, ao animar apenas personagens das classes proprietárias, em cenário pastoril naturalizado onde a terra, a relva, o vento e o pampa têm variados, múltiplos e esquisitos sabores, A casa das sete mulheres reduz praticamente todos os personagens relacionados com o mundo do trabalho ao estado de seres imateriais, profundamente insossos.

Em claro paralelismo com do romance do Segundo Reinado, o mundo ficcional de Letícia não deixa espaço ao trabalho, apesar de figurar a fazenda de criação. Nesse sentido, em forma inconsciente, trata-se de expressão ficcional do mito latifundiário sulino da criação da riqueza pastoril sem esforço social. Nos fatos, o romance constitui imenso elogio ao latifúndio.

Nesse contexto geral, A casa das sete mulheres fracassa inevitavelmente no registro pretendido do vazio existencial nascido da espera feminina de homens que jamais voltarão da guerra, para ser infestada pela enorme vacuidade da vida material e espiritual de protagonistas femininas que varam a vida em forma absolutamente inútil, sem outra ocupação do que a fidelidade a amores românticos nascidos de bater de pestanas e arrastar de esporas. Vacuidade romantizada e idealizada, em vez de figurada artisticamente.

A vingança de Letícia
A modernização dos hábitos e sentimentos; a idealização das relações interpessoais e intersociais; a pieguice das tramas românticas; a retórica regionalista desbragada; a mistificação dos sucessos históricos; o desconhecimento do trabalhador e do trabalho como protagonistas, etc. constituem poderosos handicaps positivos, e não entraves, para o sucesso de público do romance.

A articulação em ficção de inegável qualidade textual, de prejuízos e preconceitos sociais e ideológicos dominantes da atualidade, obtém efeitos estético-ideológicos inebriantes e tranqüilizadores que conquistam para A casa das sete mulheres vastas parcelas do imenso público leitor preparado e acostumado ao consumo da narrativa de forma e conteúdo triviais.

Porém, atualmente, o grande público consumidor desse tipo de narrativa é formado pelas dezenas de milhões de telespectadores, em geral viciados nas múltiplas telenovelas produzidas com inegável competência técnica pelas redes televisivas nacionais, em geral, e pelo Rede Globo de Televisão, em especial.

Nesse sentido, a adaptação e o sucesso da série televisiva A casa das sete mulheres, de Letícia Wierzchowski, não constitui surpresa, mas iniciativa quase natural, realizada através de seleção, transposição e radicalização dos fatos do romance, absolutamente fiel a sua estrutura trivial profunda. Uma espécie de refeição nova, cozida do mesmo modo, preparada com iguais ingredientes, apenas apresentada e servida em forma diversa e esplendorosa.
 

sobre o autor


Mário Maestri, 55, doutor pela UCL, Bélgica, professor do Curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UPF e autor de Por que Paulo Coelho teve sucesso. Porto Alegre: AGE, 1999. [maestri@via-rs.net]


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