| A importância dos fóruns
sociais para o movimento popular
Laerte Braga, 12 de outubro, 2003 Os fatos que marcam a construção do I FSB merecem uma reflexão sobre o significado dos fóruns sociais, hoje um processo de mobilização permanente e capaz de contrapor-se à mesmice da luta institucional que, muitas vezes, abriga integrantes de um clube de amigos e inimigos cordiais. O Fórum Social Mundial nasceu da necessidade de se criar um contraponto não apenas ao Fórum Econômico de Favos, mas, ao que ele representa, a outra face da moeda, o avanço do capitalismo na sua forma mais selvagem e brutal, conseqüência direta (sem análise de mérito) do fim da União Soviética. A hegemonia dos Estados Unidos e o que os Estados Unidos significam. A mágica que foi o I FSM, em Porto Alegre, mais que o II e o III, provocou a onda de fóruns continentais, nacionais, no caso do Brasil, estaduais e até municipais, temáticos, fazendo com que durante todo o tempo esse processo de mobilização encontre um escoadouro para a formação e organização da luta popular. Suas conseqüências, em qualquer dimensão que se tome para analisar, são visíveis e hoje, em todos os cantos, é possível contrapor-se, como desejado, às verdades escravagistas do mundo capitalista, do império norte-americano. Os fóruns não dispensam a luta institucional, pela via clássica dos partidos. São decisivos, no entanto, quando percebemos que a alternativa de um outro mundo possível passa por romper as estruturas daquele clube, o de amigos e inimigos cordiais, como correm à margem desse jogo. O processo eleitoral é um meio. Os fóruns são um caminho para o fim desejado na medida que aglutinam sem peias de qualquer espécie todo o conjunto de lutadores do povo, em todos os campos onde essa luta se trava. Por isso não podem ser domesticados e nem instrumentalizados para servir a propósitos que não os da proposta básica: a construção de um outro mundo, que como afirma o lema, é possível, como imperiosamente desejado. Até por sobrevivência. Fóruns perpassam todos os amplos espectros da organização popular e depositam sedimentos sólidos num outro processo, o de construção do homem socialista a que aludia Che Guevara. Existem problemas na construção do I FSB. Começam a surgir os donos do fórum. Os grupos que pretendem avocar a si, como se patente fosse, o poder de decidir rumos e colocar freios no que não interessa a eles, via de regra, atrelar os fóruns a partidos ou alianças políticas e retirar-lhes o conteúdo de movimento livre, plenamente livre, para atrela-los a situações político-partidárias, pior ainda, tentar fazer deles instrumentos de governos. Esse risco foi vivido pela primeira vez no II FSM, quando Bernard Cassen, então presidente mundial da ATTAC, tentou dar ao fórum um viés social democrata e ali vender além de sua organização, a candidatura de Jacques Chevenement à presidência da França. Não há riscos em revelar agora que o desmonte da manobra se deu pela ação de parlamentares franceses de esquerda, municiando jornalistas brasileiros com uma rica história da trajetória de Cassen e de Chevenement. Falhou a tentativa. O I FSB enfrenta esse problema. Setores de partidos da aliança que sustenta o governo de Lula querem um fórum lulista, domesticado, no mínimo que não sirva de palco para manifestações contra o governo. Não querem o debate político, prática à qual não estão acostumados. Isso foi muito bem explicado por Fernando Gabeira ao anunciar sua saída do PT. A bancada do partido, na Câmara e no Senado, em sua maioria, não é mais que “povo marcado, povo feliz”. O primeiro momento foi quando da disputa BH e São Paulo. O Fórum será em BH, Minas Gerais. Aqueles setores não se conformaram com a idéia de não dispor num ano que antecede às eleições municipais, de um palanque para a prefeita Marta Favre. Daí a tentar formas de boicote, buscar caminhos para esvaziar o evento, tanto encontraram espaço entre os que integram o oba oba do governo, como entre os ingênuos que “acreditam nas flores vencendo canhões”. São os que acreditam que a luta popular encerrou-se com a vitória de Lula e esgota-se no governo de Lula. Não enxergam sequer que Lula caminha por um pântano que cheira mal e vai lentamente afundando em seus novos caminhos que, com toda a certeza, não levaram a um outro mundo, o mundo possível, que é o mundo desejado. A despeito de todas as dificuldades, todos os obstáculos, o I FSB está sendo construído dentro dos propósitos e objetivos que norteiam o processo dos fóruns sociais. Com a visão clara que, ao contrário do que imaginam Lula e os grupos que pululam à sua volta, eles ainda não curam cegos, nem fazem mudos falar, muitos menos encerram o princípio, o meio, ou o fim da luta popular. São episódicos e vivem de jogadinhas montadas e orquestradas na corte de Duda Mendonça, o diretor do filme. O I FSB, para as forças populares, não é um momento anti Lula (carregam essa pretensão de achar que quem não reza pela mesma cartilha é contra), mas vai ser um momento de afirmação de algo maior: a luta popular. De 6 a 9 de novembro próximo cerca de 40 mil pessoas estarão em Belo Horizonte sonhando e construindo um outro mundo possível. As forças que tentam instrumentalizar o I FSB, para vesti-lo de Lula lá e o FMI aqui, vão ser varridas, como têm sido nos fóruns sociais mundiais. Existe quem acredita que
a luta não acaba com um carguinho no governo. E nem queira esse
tipo de sinecura.
sobre o
autor
Laerte | Opinião
|