Tradição
da burguesia e desenvolvimento
Renato Kress, 19 de maio, 2003
A tradição
da burguesia ibérica, assim como a da burguesia alemã difere
frontalmente da tradição da burguesia inglesa. Enquanto a
burguesia inglesa e francesa se definiram em contraposição
ao Estado inglês e francês, se distanciando dos poderes aristocráticos
e reais na busca por poder político que se equivalesse a esses,
a burguesia portuguesa e boa parte da burguesia alemã se desenvolveu
através de acordos com a aristocracia e a realeza, numa forma de
"apadrinhamento" com as casas reais ou as grandes aristocracias.
É hora de relativizarmos
certos dogmas da política e da economia mundial. Em primeiro lugar,
a via de "desenvolvimento" à qual nós tentamos nos adequar
só existiu na Inglaterra e nos Estados Unidos, 2 países num
planeta de 217, e mesmo assim com diversas ressalvas que na realidade invalidam
o modelo como um todo quando um mero caso particular de via de desenvolvimento
se torna um "modelo" a ser adotado em todo o mundo.
O empresariado brasileiro
é herdeiro dessa estrutura de pensamento comercial que mais depende
do Estado, e a este está vinculado, do que à tradição
burguesa, inglesa e francesa que precisa procurar brechas no Estado para
sobreviver. Temos uma tradição personalista no nosso empresariado,
de uma espécie de mundo de barganha com o poder público,
de confusão entre o público e o privado.
Não tenho nada contra
essa tradição. Só creio que o governo deve ciceronear
apenas
as empresas nacionais, que remetem lucros ao Estado brasileiro, e não
financiar o empresariado internacional dando de bandeja com o BNDES. Além
disso o empresariado nacional deveria aproveitar o aval do Estado para
ousar mais e não para se acomodar. Não é que tenhamos
uma tradição fadada ao fracasso, só tentamos nos adequar
a uma tradição que não é a nossa, quando temos
uma estrutura e uma cultura mais semelhante à alemã e à
italiana. Pergunta: a Alemanha é um país fracassado, ou eles
se movem dentro de suas estruturas de poder?
Segue a notícia:
Furlan diz que
empresário brasileiro é 'acomodado'
Marcelo Crescenti, de Frankfurt,
para a BBC.
15 de maio, 2003
O ministro do Desenvolvimento,
Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, propôs
que a União Européia crie cotas de importação
para produtos agrícolas vindos do Mercosul. Esta seria uma medida
transitória até o fechamento do acordo de livre comércio
entre os dois blocos econômicos. Furlan fez a proposta durante a
conferência bilateral Alemanha-América Latina em Frankfurt,
da qual tomam parte empresários de peso das duas regiões.
O ministro também criticou a postura do empresariado brasileiro,
que ele caracterizou de "acomodado".
"Sem esforço"
"A maioria das empresas
se concentra no mercado interno e não faz o esforço que deveria
para conquistar espaço no exterior", disse Furlan, que já
foi presidente da Sadia. A Alemanha é o segundo maior parceiro comercial
do Brasil, depois dos Estados Unidos, mas as vendas de produtos brasileiros
para a Alemanha perfazem somente 0,8% do total das importações
alemãs. A meta do governo brasileiro é aumentar esse número
para 1%. O ministro disse que veio à Alemanha para deixar claro
aos empresários que a América Latina e o Mercosul estão
vivendo um "novo momento" depois de eleições importantes
no Brasil, no Paraguai e na Argentina.
Ele previu que o risco Brasil
deverá cair ainda mais no futuro, chegando ao patamar de 300 pontos,
semelhante aos níveis de México e Rússia. Furlan disse
ainda que a valorização do real frente ao dólar é
um fato "natural". "Estamos vivendo um período de acomodação
da cotação do dólar", comentou. O ministro afirmou
que a o governo alemão continua favorável ao corte de subsídios
agrícolas por parte dos europeus, o maior empecilho ao fechamento
de um acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União
Européia. Furlan comentou que esse assunto será discutido
em breve entre o chanceler alemão, Gerhard Schröder, e o presidente
francês, Jacques Chirac, que se opõe à medida. |
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sobre o
autor
Renato
Kress
é co-autor da revista Consciência.Net e autor do livro
“Consciência”.
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