Pássaros e homens ou a senadora Heloisa Helena
Leandro Konder, JB, 5 de outubro, 2003

Os jornais informam que, nos últimos três anos, cerca de 80 pássaros se chocaram com aviões.

Em geral, esses choques acarretam a morte da ave e resultam em situações momentaneamente desagradáveis para o piloto da aeronave. A desproporção das forças é evidente. Um pássaro, mesmo que seja grande, não tem chance de abater o sofisticado engenho humano. Como poderiam uma águia ou um condor enfrentar um Boeing?

Durante muitos milênios, os pássaros tiveram o domínio absoluto do espaço, com seu poder de voar. Muita gente tinha inveja deles.

Um certo Ícaro chegou até a inventar asas artificiais para voar; a tecnologia, porém, era deficiente e o inventor - como todos sabemos - sofreu uma queda e morreu. Tenho a impressão de que as aves, à maneira delas, terão sorrido com o desastre de Ícaro.

Aristófanes, na Grécia antiga, escreveu uma peça intitulada Os pássaros. Nela, o mundo dos homens era apresentado como um mundo lamentável, cheio de corrupção e dividido por guerras. E os deuses eram coniventes com as bandalheiras.

Dois homens, então, se revoltaram. Euêlpides e Pistetairos (assim se chamavam eles) romperam com os seres humanos e aderiram aos pássaros. Convenceram as aves de que elas podiam impor seu modelo societário tanto aos homens como aos deuses, porque, situadas entre a superfície da Terra e as alturas do Olimpo, podiam interromper todas as comunicações entre uns e outros. Isolados, os homens e os deuses ficariam ''pirados'', inseguros, seriam obrigados a capitular diante da nova potência. Os pássaros redimiriam a humanidade, reorganizando-a em novas bases.

Tudo aconteceu conforme os dois desertores - notáveis estrategistas! - previam. Os deuses e os homens se acovardaram e se submeteram aos novos detentores do poder.

O que Euêlpides e Pistetairos não previram foi a malandragem dos seres humanos, que, ao se submeterem à nova ordem, começaram a agir como se fossem mais pássaros do que os próprios pássaros. E começaram a minar de dentro os princípios da nova organização mundial.

De lá para cá, o que mudou?

Os deuses gregos se aposentaram, vivem dentro das enciclopédias. A malandragem humana derrotou as aves. Ícaro passou a ser venerado como pioneiro da aviação.

De vez em quando, os homens ainda manifestam mal-estar, sentem medo das aves. Isso fica bastante claro no filme feito pelo cineasta Hitchcock, que faz das aves uma espécie de imenso exército inimigo.

Contudo, os homens dispõem de duas armas poderosas para vencer o medo: a tecnologia e a esperteza. É o que se percebe no filme Indiana Jones e o Cálice Sagrado, quando o pai do herói assusta um bando de milhares de gaivotas para provocar uma colisão entre elas e um pequeno avião nazista.

Reencontramos a situação comentada no início deste artigo. Com uma diferença, entretanto: no filme a multidão das gaivotas acionadas pelo personagem vivido por Sean Connery ainda podia derrubar a pequena aeronave do mal. Agora, as aves, isoladas, vão sendo - uma a uma - abatidas pelos colossos voadores.

É claro que não tem sentido nós ignorarmos a importância de todas as conquistas feitas pela ciência no âmbito dos nossos vôos: de fato, voamos muitíssimo mais alto e muitíssimo mais longe do que qualquer ave. Fomos até a Lua, em breve estaremos indo a Marte. Quem pensaria, nas condições atuais, em seguir o exemplo de Euêlpides e Pistetairos (que nomes estranhos!) e desertar do gênero humano?

Os pássaros não nos ameaçam. Vendo-os em pleno vôo, chego mesmo a admirá-los. Passam-me uma sensação forte de liberdade. Como não admirar a altivez de uma gaivota sozinha, fiel a si mesma, recusando-se a ceder às pressões conjunturais? Como não pensar na senadora Heloisa Helena?

Pássaros e homens, afinal, se misturam, no plano dos sentimentos. É o que eu vejo no poema de Carlos Drummond de Andrade intitulado Confissão, que termina assim:

''Não amei ninguém./ Salvo aquele pássaro - vinha azul e doido -/ que se espatifou na asa do avião''.
 

sobre o autor


Leandro Konder é escritor, professor e filósofo.


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