| O 11 de Setembro
e a era do terror
Noam Chomsky, 7 de setembro, 2003 Em meio aos tremores provocados por ataques suicidas em Bagdá, Jerusalém e Najaf — e outros incontáveis horrores ocorridos desde o 11 de setembro de 2001 — é fácil entender por que tantos acreditam que o mundo entrou numa nova e assustadora “era do terror”, título de uma recente coleção de ensaios de especialistas da Universidade de Yale e outros analistas. No entanto, dois anos depois do 11/09, os Estados Unidos ainda têm que confrontar as raízes do terrorismo, produziram mais guerra do que paz e continuamente provocam o risco de uma confrontação internacional. No 11 de Setembro, o mundo reagiu com choque, horror e simpatia pelas vítimas. Mas, para boa parte do mundo, houve outra reação: “Bem-vindo ao clube”. Pela primeira vez na História, uma potência ocidental fora submetida a uma atrocidade bastante familiar em outros lugares. Qualquer tentativa de entender os eventos que se desenrolaram desde então naturalmente começa com uma investigação do poder americano — como ele reagiu e que rumo poderá tomar. No mesmo ano, o Afeganistão estava sob ataque. Aqueles que aceitam valores morais elementares têm trabalho em explicar por que os EUA e a Grã-Bretanha tinham o direito de bombardear afegãos para levá-los a entregar suspeitos de atrocidades — razão oficial dada quando o bombardeio começou. Depois, em setembro de 2002, o mais poderoso Estado da História anunciou uma nova Estratégia de Segurança Nacional, garantindo que ela manterá sua hegemonia global permanentemente. Qualquer desafio será enfrentado com a força, dimensão em que reina a supremacia dos EUA. Ao mesmo tempo, os tambores da guerra começaram a soar para mobilizar a população para a invasão do Iraque. E começou a campanha para as eleições parlamentares do meio do mandato que diriam se o governo estava apto a levar adiante sua radical agenda internacional e doméstica. Os dias finais de 2002, segundo o especialista em política internacional Michael Krepon, foram “os mais perigosos desde a crise dos mísseis, de 1962, em Cuba”, descrita com razão por Arthur Schlesinger como “o momento mais perigoso da História da Humanidade”. A preocupação de Krepon era a proliferação nuclear em Irã, Iraque, Coréia do Norte e no subcontinente indiano, “um instável cinturão se estendendo de Pyongyang a Bagdá”. As iniciativas da administração Bush em 2002 e 2003 conseguiram apenas aumentar a instabilidade nesse cinturão e na vizinhança. A Estratégia de Segurança Nacional declarou que os EUA — sozinhos — têm o direito de deflagrar guerras preventivas: preventivas, e não preemptivas, usando a força para eliminar a ameaça percebida, mesmo que tenha sido inventada ou imaginada. Guerra preventiva é, simplesmente, o “crime supremo” condenado em Nuremberg. Desde o início de setembro de 2002, o governo divulgou sinistros alertas sobre o perigo que Saddam Hussein representava, com amplas insinuações de que estava ligado à al-Qaeda e ao 11 de Setembro. O ataque propagandístico permitiu que o governo conquistasse o apoio de uma população assustada para a planejada invasão de um país virtualmente sem defesas e conhecido como um prêmio no coração do maior sistema de energia do mundo. Mas o 11 de setembro de 2003 chegará sem qualquer prova concreta da alegada ligação entre Saddam e seu amargo inimigo Osama bin Laden. E a única ligação conhecida entre a vitória e o terror foi que a invasão do Iraque parece ter aumentado o recrutamento da al-Qaeda e a ameaça do terror. O “Wall Street Journal” reconheceu que a cuidadosamente planejada extravaganza de Bush no Abraham Lincoln “marcou o início da campanha pela reeleição em 2004”, a qual a Casa Branca espera que gire em torno, o máximo possível, de “temas da segurança nacional”. Se a administração deixar os assuntos domésticos prevalecerem, estará em apuros. Enquanto isso, Bin Laden continua desaparecido. E a fonte dos ataques com antraz é desconhecida — um fracasso ainda maior, já que se acredita que a fonte seria doméstica, talvez até vinda de um laboratório federal. As armas de destruição em massa do Iraque também ainda não apareceram. No segundo aniversário do 11 de Setembro, e além dele, temos basicamente duas escolhas. Podemos seguir adiante acreditando que a força expulsará o mal do mundo, como os redatores do presidente afirmaram, plagiando épicos antigos e contos infantis. Ou podemos submeter as doutrinas da proclamada nova era ao escrutínio, obtendo conclusões racionais, talvez ganhando alguma compreensão da realidade emergente. As guerras contempladas pela luta contra o terror continuarão por muito tempo. “Não há como dizer quantas guerras acontecerão para garantir a segurança em nossa terra”, disse o presidente no ano passado. Faz sentido. Ameaças em potencial são ilimitadas. E há fortes razões para concluir que elas estão ganhando ainda mais força como resultado da violência e da ilegalidade do governo Bush. Devemos apreciar recentes
comentários feitos por Ami Ayalon, chefe do Shabak, o Serviço
de Segurança de Israel, entre 1996 e 2000, que observou que “os
que querem a vitória contra o terror sem se preocupar com injustiças
básicas querem uma guerra sem fim”. O mundo tem boas razões
para acompanhar o que está acontecendo em Washington com medo. As
pessoas mais indicadas para reduzir esse medo, e conduzir o caminho para
um futuro mais esperançoso e construtivo, são o povo americano,
que pode moldar esse futuro.
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