O Rio como desafio
Chico Alencar, outubro de 2003

Candidatura só é petista quando vai bem além da pretensão pessoal. A que eu encarno é demanda coletiva em torno de um projeto. Quero ser prefeito da cidade onde nasci, na metade do século passado, porque já passou da hora do Rio ter um governo liderado pelo PT. É preciso explicar qual: o PT de combate, de doutrina, de proposta solidária com horizonte socialista.

E governo só é do PT se, em meio a tensões e contradições, transforma as relações políticas, sociais e culturais no espaço urbano, ainda fundadas no mandonismo e no patriomonialismo.

Quero ser prefeito para liderar uma revolução gradualista, que começa com o chamamento contínuo à participação popular: cada um dos seis milhões de habitantes deve se sentir um pouco prefeito. Cada um dos 136 mil funcionários municipais (86 mil ativos e 49 mil aposentados) deve se saber também administrador do Rio e co-responsável por serviços públicos de qualidade para todos, especialmente os mais necessitados.

Governo do PT tem que reacender o espírito republicano, onde a cidadania é estimulada vinte e quatro horas por dia. Daquele lixo que não se joga mais no chão à definição dos investimentos do Orçamento de cada ano. Chega desse cesarismo imperial!

Governo do PT é transparência absoluta dos negócios públicos, rompendo com a tradição tecnocrática das caixas-pretas, dos entesouramentos para especulação, da gastança eleitoreira oportunista, da roubalheira crônica que drena para mãos privadas criminosas 30% do dinheiro dos nossos impostos.

Governo do PT é trabalho de equipe, comandada por gente que sabe aliar competência técnica, compromisso político com as maiorias assalariadas e ética inquestionável. A "sociedade civil progressista" do Rio tem quadros de sobra para conduzir esta tarefa!

Quero ser prefeito do Rio pelo nosso PT por que tenho certeza que nossa administração - como a de Patrus em Belo Horizonte, as de Olívio, Tarso e Pont em Porto Alegre e a dos nossos angrenses - será um marco novidadeiro da forma diferente de fazer política, livre do clientelismo, do populismo e do personalismo que, insidiosos, querem hoje ocupar espaço até no partido do Presidente da República, e com a acolhida ingênua (ou interesseira?) de companheiros nossos. Radomiro Tomic, do PDC chileno, lembrava que quando se faz aliança com a direita é ela - matreira, experiente - quem governa. O Rio precisa, afinal, de um governo de esquerda!

Quero ser prefeito do Rio para estimular conselhos populares nos bairros, organismos democráticos de gestão nas escolas, hospitais e postos de saúde. Para tocar a agitação juvenil e a promoção da cultura - nesta cidade pedagógica e universitária de tantos artistas. Cultura não só como espetáculo mas como criação da massa, expressão autêntica de cada um dizer a sua palavra tão sufocada pela falta de chance e espaço ou pela ideologia do consumo contínuo e acrítico.

Quero ser prefeito do Rio para, junto com a militância do nosso partido e a dos aliados, fazer das vinte mil ruas e praças de nossa cidade maravilhosa e ferida não um eterno canteiro de obras, mas um jardim de cidadania, informação, cuidado com os abandonados, os excluídos, os malabaristas do sinal vermelho, na esteira das urgentes mudanças estruturais com as quais o governo Lula está comprometido e tem a obrigação de viabilizar.

Quero ser prefeito do Rio para potencializar ainda mais suas/nossas vocações econômicas na ciência e tecnologia, na informática, na cultura e no turismo. Prefeito carioca é um privilegiado: pode passear nos 216 domingos de sua gestão nos inúmeros espaços de beleza e gente boa que esta cidade tem, da Zona Oeste ao litoral.

Quero ser um prefeito que vista aquela roupa carioca que inverte o protocolo do poder, ao som de Pagodinho, Martinho, Beth, Clara, Tins, Tons, Miltons e Bens: buarquianamente recolhendo a poesia que nossa gente humilde entorna no chão e que uma elite preconceituosa despreza, negando oportunidades à nossa juventude e depois reclamando do banditismo.

Enfim, sou candidato por sua causa, companheiro(a)! Para darmos vida à nossa causa comum, generosa e justa. Vamos juntos!
 

sobre o autor


Chico Alencar é deputado federal (PT/RJ) e historiador.


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