Neste último domingo, dia 21 de setembro, ocorreu no Centro do Rio de Janeiro um dos primeiros debates para definir as estratégias eleitorais do Partido dos Trabalhadores no Estado. Estiveram presentes representações de todas as correntes e de diversos municípios onde o PT atua. Fica a impressão: a estratégia definida pela direção do partido está fadada ao fracasso. Entre as pessoas que estão pensando – e não apenas levantando as mãos impunemente nas votações – a inquietação é grande. Quando membros da direção ligados à corrente interna majoritária – a ‘Articulação’ – falam em “ampliar alianças”, os mais atentos (e mais comprometidos com a população) ouvem “suicídio político”. Tanto do ponto de vista moral quanto do eleitoral. Não se sabe se a situação atual se dá por má-fé ou ignorância, mas é forte o sentimento de que esta estratégia é a receita para o caos. Não só para as eleições municipais, mas também para o próprio futuro do partido. Este futuro não é nada promissor: ao cair na vala comum dos partidos fisiológicos, o PT se descaracteriza como fonte de moralidade, permite a diminuição do número de núcleos, perde contato com os que ainda existem, provoca cada vez mais insatisfação entre as pessoas que construíram o partido e, por fim, passa a dar voz e ação a pessoas que sempre combateu. Nilópolis
Apesar da evidente insatisfação, o presidente regional do partido, Gilberto Palmares, já articula algumas secretarias com a família Abrahão David. Na reunião, foi votado o recurso, organizado por diversos parlamentares e setores municipais, de posição contrária à participação do partido no governo de Nilópolis. Por 22 a 14, foi mantida a aliança. Para piorar a situação, um vereador petista local, o Toninho, defendeu com unhas e dentes a posição da Executiva – instância partidária cuja maioria é da Articulação. Diante do deputado federal Antonio Carlos Biscaia, que já participou de vários esforços contra o jogo do bicho, Toninho falou: “Alguém tem alguma coisa contra o jogo do bicho?”. Um dos argumentos mais absurdos colocados por Toninho é o de que Farid é irmão de Anísio – e não ‘o’ Anísio. O fato de não ser ele próprio o bicheiro o inocentaria. Sabe-se, no entanto, que Anísio e Farid não cortaram relações. Boa parte da platéia – grande parte não votantes – se revoltou. Biscaia deixou a reunião no mesmo momento. O deputado estadual Alessandro Molon anunciou que vai pedir intervenção do Diretório Nacional para anular a decisão, que ele considera “um tiro no pé”. O deputado federal Chico Alencar também protestou, lembrando a contradição de se dar um "tratamento rigoroso a militantes históricos e ser generoso com os novatos" [JB, 22.09.2003] Molon argumenta que não é apenas moralmente que a decisão é prejudicial. “O partido será descaracterizado moralmente, tendo conseqüências diretas nas eleições”. O deputado disse ainda que o Rio não é respeitado pelo Diretório Nacional, que usa o Estado como “moeda de troca”. E completa: “A Direção Nacional não respeita o PT do Rio porque o PT do Rio não se dá ao respeito. No Rio Grande do Sul, por exemplo, existem muitas tendências, mas não se vê esses tipos de alianças”. Outro deputado estadual, Carlos Minc, chegou a adiantar manchetes dos jornais após a decisão do Diretório Estadual: “PT se une a jogo do bicho”. Minc disse que defende a política de alianças, mas lembrou que o partido não pode esquecer seus posicionamentos históricos. Aliança com o PMDB
Cabe o questionamento: quem seria o “resto do partido”? Diante da base petista nos diversos municípios do Rio, é difícil obter uma resposta. Na maior parte deles, o PMDB é visto como o principal inimigo, representante de muitas oligarquias locais. Recentemente, a fazenda de um dos líderes do PMDB e presidente da Assembléia Legislativa, Jorge Picciani, foi flagrada com dezenas de trabalhadores em regime de semi-escravidão. O flagra foi feito por técnicos do Ministério do Trabalho, que visitaram o local. Este mesmo Jorge Picciani já admite fazer uma aliança com o PT para garantir que César Maia seja derrotado. Mas como engolir o grupo de Garotinho e Rosinha? Não dá. Não há clima para isso em quase nenhuma tendência do PT do Rio. A única explicação para essa intenção de aliança seria, como denunciou Molon, acordos na esfera federal. No mês passado, o governo Lula prometeu benefícios aos peemedebistas em troca de apoio às reformas na Câmara e no Senado. Novos tempos
Em novos tempos de PT, até a entrada de participantes que não tinham crachá foi restrita – e liberada depois por pressão. Muitos ficaram indignados com a restrição de acesso e foram embora, sem poder defender suas posições. Foi o caso de Almir, que falaria pelo município de São Gonçalo. A própria mesa diretora o convocou para debater sobre uma filiação no município, mas Almir já havia desistido de participar da reunião e ido embora. No começo da manhã, uma participante desabafou: “Eu é que sou burra de ainda estar aqui”. Desafios locais
Outra preocupação foi com a BR 393. Durante o governo FHC, foi sugerida a privatização desta via. Segundo líderes presentes, não haveria como explicar a retomada desta posição, como o ministro dos Transportes, Anderson Adauto, deu a entender. Resgate
Muitos militantes estão convencidos de que os grupos majoritários podem ganhar muitas votações com as novas práticas adotadas. No entanto, “a alma do partido continua”, como destacou um dos presentes. Com essa alma, que persiste ao conservadorismo e deslumbramento com o poder, diversos parlamentares já articulam uma oposição responsável às novas práticas do PT. No Rio de Janeiro, o movimento poderá ser forte: seis dos oito deputados estaduais defendem o resgate, entendendo que alianças devem existir, mas devem ser objeto de longos debates ideológicos, se adequando à realidade do partido. E, nesta realidade, não
há espaço para Narriman Zito – prefeita de Magé, mulher
do prefeito de Caxias e convidada a falar no programa de TV do partido
poucos dias depois de filiação extremamente questionável.
Tampouco há espaço para os bicheiros locais.
Autor: Gustavo Barreto
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