Alunos vão às ruas para
pedir professores
Estudantes do terceiro ano
do ensino fundamental, em Niterói, vão enfrentar o vestibular
depois de três anos sem aulas de matemática. Secretária
Estadual de Educação afirma que não há déficit
de professores na cidade. Waleska Borges,
Jornal
do Brasil, 5 de setembro, 2003
Aluno do terceiro ano
do Colégio Estadual Professor Terezinha Melo Gonçalves, em
Niterói, Wagner Silva, 22 anos, vai começar a prestar os
exames do vestibular com um ponto a menos. Nos três anos em que cursou
o ensino médio no colégio, não recebeu sequer uma
aula de matemática. A exemplo do que ocorre na maioria das escolas
estaduais, ele é uma vítima da falta de professores que,
segundo o Sindicato Estadual dos Profissionais de Ensino (Sepe), chega
a 26 mil profissionais.
Para compensar a deficiência
do Estado, Wagner buscou ajuda com colegas e, aos sábados, participa
de um curso pré-vestibular com professores voluntários, que
vão ao colégio sem cobrar. "A falta de professores aconteceu
todos os anos. Por sorte, este ano tenho o pré-vestibular gratuito",
contou Wagner, enquanto participava, na manhã de ontem, de um protesto
em frente à Secretaria Estadual de Educação.
A manifestação,
organizada pelo Sepe, reuniu cerca de 300 estudantes. Exibindo faixas e
cartazes, os manifestantes reclamavam da falta de professores e do agrupamento
de turmas, devido ao remanejamento de profissionais de educação.
Do alto dos prédios vizinhos à secretaria, pessoas incomodadas
com a manifestação jogaram água nos estudantes.
Quem não tem a sorte
de receber aulas de graça, como Wagner, precisa driblar a falta
de professores com dedicação extra. Aluna do 2º ano
no mesmo colégio de Niterói, Luciana Fernandes de Souza,
18 anos, tenta aprender química só com os livros. A estudante
não se lembra de quando foi sua última aula de química.
"No ano passado, tinha química mas faltava física. Este ano,
temos física e ficamos sem química", reclamou Luciana.
O Colégio Estadual
Professora Terezinha divide o prédio com a Escola Estadual Rodrigo
Otávio. Inicialmente, a divisão seria por seis meses, mas
já se passaram três anos e nada mudou. Na Escola Estadual
João Alfredo, em Vila Isabel, alunos contam que passam a maior parte
do tempo em aulas vagas. "Falta professores de física, filosofia,
química e matemática. Agora, resolveram juntar as turmas.
Você imagina uma sala com 70 alunos?" pergunta Luciana dos Santos,
16 anos, do 1º ano do ensino médio.
Na segunda-feira, com base
em relatórios de diretores enviados aos conselhos tutelares e ao
Ministério Público, o Sepe vai entregar um dossiê ao
juiz da 1ª Vara da Infância e Juventude, Siro Darlan. Segundo
a secretária de Educação, Darcília Leite, o
remanejamento de professores visa adequar o quadro da rede, sem prejudicar
o aluno. De acordo com Dracília, após levantamentos da secretaria
verificou-se que algumas turmas tinham 16 alunos por professor, enquanto
outras passavam por carência. A secretária, que prometeu apurar
as denúncias, afirma que não há carência de
professores em Niterói.
Estado sugere a
escolas cortar aulas
Ana Wambier,
O
Globo, 9 de setembro, 2003
Pode parecer irônico,
mas uma das soluções encontradas pela Secretaria estadual
de Educação para suprir a carência de professores é
reduzir a quantidade de aulas. É o que sugere um ofício enviado
a diretores de alguns colégios. A circular 280, de 27 de agosto,
encaminhada pela IV Coordenadoria da secretaria (que inclui Realengo, entre
outros bairros), diz que, “se a unidade escolar apresentar carência
(de professores) nas disciplinas de história, geografia e matemática,
o diretor deverá reduzir os tempos das respectivas disciplinas para
02 tempos (semanais), possibilitando assim que novas turmas tenham suas
carências supridas”.
Subsecretário nega
punição que diretora diz existir
Embora não haja,
no texto da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, nada que
estipule a quantidade de horas/aula para cada matéria, a secretaria,
ao redigir o ofício, caiu em contradição. Todo início
de ano, as escolas recebem a grade curricular que devem seguir, podendo
aumentar o número de aulas, mas nunca diminuí-lo. No início
deste ano letivo, a secretaria estipulou em quatro horas a carga semanal
para matemática, história e geografia. O ofício, portanto,
corta pela metade os tempos de aula previstos.
O subsecretário de
Educação, Rivo Gianini, disse que as escolas devem se adequar
à sua realidade. Segundo ele, se um colégio não tem
professores suficientes para cumprir a carga de horas/aula exigida pela
secretaria, não precisa seguir à risca o que foi estipulado
e está isento de punição. Não é o que
diretores dizem:
— Quem não cumpre
o mínimo que a grade determina será chamado na coordenadoria
de sua região para prestar esclarecimentos, podendo ser exonerado
do cargo — disse a diretora Maria de Lurdes Afonso Moreira.
A escola onde ela trabalha,
a Marechal Rondon, em Realengo, precisa de pelo menos mais 17 professores.
Nesse colégio, a situação é crítica
principalmente em física, matemática, história e química.
Todas essas matérias contam com apenas um professor cada e eles
se dividem entre o 1, o 2e o 3 anos do ensino médio.
Quando perguntado se concordava
que os alunos que recebem menos tempo de aula estão menos preparados
para o vestibular que outros, o subsecretário respondeu que não:
— Nem todos os alunos que
estão no ensino médio vão prestar vestibular. Muita
gente fará curso profissionalizante. Passar ou não no vestibular
depende do aluno. Ele tem que correr atrás, estudar por conta própria,
encontrar meios para tal.
Professores e alunos farão
protesto em Campo Grande
A afirmação
causou indignação no Sindicato Estadual dos Profissionais
de Educação.
— Eles não podem fazer
maquiagem. Está faltando professor — disse Maria José Ferreira
de Melo, uma das coordenadoras do Sepe.
Hoje, às 10h, profissionais
de educação e alunos de escolas estaduais da Zona Oeste farão,
em Campo Grande, um protesto contra a falta de professores. O Sepe estima
que faltem 26 mil professores na rede estadual. Embora conteste esse dado,
a secretaria disse não ter um número aproximado do déficit.
Longe do sonho
olímpico
Às vésperas
dos Jogos Pan-Americanos de 2007, aulas de educação física
são raridade na rede pública de ensino do Rio. Waleska Borges,
Jornal
do Brasil, 4 de setembro, 2003
Prestes a receber os
Jogos Pan-Americanos de 2007, o Rio está deixando de fora do sonho
olímpico uma geração inteira de futuros atletas. Sem
equipamentos e professores de educação física, alunos
das redes estadual e municipal de ensino assistem de longe aos investimentos
anunciados para o Pan e a candidatura da cidade aos Jogos Olímpicos
de 2012. No dia-a-dia da escola pública, quadras com piso destruído,
materiais em péssimo estado de conservação e vestuários
pichados ou com goteiras fazem a esperança de ganhar medalhas parecer
piada.
Para o Sindicato Estadual
dos Profissionais de Educação (Sepe), a deficiência
do ensino de educação física é mais um sintoma
da crise por que passa a educação pública no Rio.
só no Estado, segundo o Sepe, faltam 26 mil professores. Revoltados
com as dificuldades que enfrentam na rotina dos colégios e escolas
do Estado, professores já reagem com indignação aos
anúncios de investimentos em complexos esportivos na cidade.
- O Pan é um megaprojeto,
rentável para a iniciativa privada. Os recursos deixam de ser investidos
em áreas que estão passando dificuldade para o setor privado
usufruir - critica Roberto Simões, professor de educação
física no Estado e município.
Segundo a coordenadora do
Sepe Guilhermina Rocha, o descaso com as aulas de educação
física acontece nas escolas da capital e do interior. A rede estadual
atende hoje a 1.524.317 alunos em 1.882 escolas. No município são
730 mil os estudantes em 1.040 unidades escolares.
- A situação
é precária. O contraste é ainda mais acentuado nos
Cieps, onde existe toda uma estrutura, mas faltam profissionais e materiais
- denuncia Guilhermina.
Entre os exemplos de descaso,
está o Colégio Estadual João Alfredo, em Vila Isabel.
Com 2.800 alunos do ensino médio e curso técnico, divididos
em três turnos, o colégio tem apenas uma quadra, que durante
as aulas precisa ser repartida em três para driblar a falta de espaço.
As poucas bolas de vôlei, basquete e futsal, algumas já esgarçadas
e sem revstimento, são guardadas com o resto do material numa cantina
desativada. Nos vestiários, as paredes estão pichadas e sujas.
- Não dá para
tomar banho. Em vez de chuveiros, temos que usar um cano que, às
vezes, não abre. No calor, somos obrigados a assistir às
outras aulas com o corpo suado - conta a estudante Etiene Pereira, 16 anos.
Guilhermina questiona, além
da falta de estrutura, a forma de utilização dos recursos
previstos no orçamento para a educação. Segundo ela,
25% do orçamento das escolas deveria ser aplicado na melhoria de
estrutura e compra de material.
Durante a visita às
escolas, na tarde da segunda-feira, a reportagem do JB foi impedido de
entrar na Escola Municipal Soares Pereira, na Tijuca. Cercada por favelas,
a escola - que tem alunos do CA à 8ª série do ensino
fundamental - é chamada pelos professores de educação
física de Pan-Demônio. A única quadra descoberta tem
o apelido de rala-joelho, devido ao chão de cimento grosso.
- O número de alunos
é excessivo e faltam equipamentos. Os professores negociam o espaço
e os alunos ficam nervosos. É difícil controlar crianças
da 3ª e 8ª séries na mesma quadra - explicou Roberto Simões.
Segundo a Secretaria Municipal
de Educação, desde 2001 estão sendo construídas
ou reformadas 660 quadras. Desse total, 620 estão prontas e 40 em
andamento. Na rede municipal existem 3.381 professores de educação
física. No Estado, segundo a Secretaria de Educação,
este ano estão sendo feitas 54 intervenções em escolas
do Noroeste Fluminense, Baixada, Região Serrana, Médio Paraíba
e Região Metropolitana.
Suderj parou no tempo
Numa sala improvisada, onde
funcionava um depósito de material velho, as aulas de judô
no centro de iniciação esportiva Parque Aquático Júlio
de Lamare, da Suderj, dependem das condições do tempo. Se
a semana for de chuva, alunos e professores dividem o tatame com uma goteira
ininterrupta. Devido às infiltrações, os tombos e
escorregões são comuns. No local, onde funciona um dos maiores
estádios fechados do país, o Maracananzinho, a situação
das escolinhas esportivas é caótica.
Segundo o professor de judô
Waldemiro Lins de Castro, há três anos ele vem reclamando
da goteira na sala de judô. "É ruim. Por causa do chão
sempre molhado, já caí e me machuquei - relata Nathalia Pereira
Tavares Lobato, 10 anos". Vitrine de grandes competições,
o estádio do complexo está servindo como espaço para
a escolinha de ginástica olímpica. O espaço foi improvisado,
recentemente, após a antiga sala ceder lugar para a Federação
de Halterofilismo. No lugar onde são dadas as aulas, o piso está
destruído.
Descalças, crianças
- com no máximo cinco anos - correm por cima dos buracos no chão.
Os colchonetes estão rasgados. E, se não bastassem os problemas
de estrutura, constantemente as aulas são interrompidas para a montagem
de palcos. "As aulas param de quinta a domingo, quando o estádio
é alugado para shows", disse o professor de ginástica olímpica
Eduardo Giardine Tavares, 46 anos.
Em boa parte do complexo,
é possível ver outras situações de abandono.
Traves de futebol são deixadas na chuva. Espaços, que poderiam
servir como quadras, estão abandonados. "Na década de 70,
o centro chegou a ter 82 professores. Hoje são 24. Ao contrário
do que aconteceu no projeto da Mangueira, que tem como padrinho o secretário
estadual de Esportes, Chiquinho da Mangueira, o trabalho no Maracanã
não se desenvolveu", comenta o professor de educação
física Roberto Simões.
Cotado para sediar as competições
de vôlei nos Jogos Olímpicos, o complexo do Maracanã,
segundo o vice-presidente executivo da Suderj, Stanley Mackenzie, vai entrar
em reformas até o fim do ano. No projeto, está prevista a
troca de piso e melhorias nas instalações elétricas
e hidráulicas, além da climatização do estádio. |