Estratégia do PT
em xeque
Nova política na Baixada fluminense divide o PT. Reportagem de Carter Anderson e Ciça Guedes, Rio e Brasília. O Globo, 10 de setembro, 2003. Colaborou Isabel Braga
A esquerda do PT tentará derrubar a decisão da executiva na reunião do diretório regional, no dia 21, quando será discutida a estratégia para as eleições de 2004. Mas o presidente regional do PT, deputado Gilberto Palmares, afirmou ontem que a decisão já está valendo e disse que está sendo discutida com Farid a nomeação de petistas para a área social. "Vários prefeitos estão chamando quadros do PT para administrar. O recurso contra a participação não tem efeito suspensivo", disse Palmares, favorável à filiação de Ratinho. O PT tem quatro prefeituras no estado (Niterói, Paracambi, Resende e agora Magé) e quer lançar candidatos próprios em pelo menos 30 municípios fluminenses, disse Palmares. A intenção é fazer frente ao PMDB, que se fortaleceu ainda mais com a filiação do secretário de Segurança, Anthony Garotinho, e da governadora Rosinha Matheus. Para crescer no Rio, o PT admite coligar-se com partidos que não integram a base do governo Lula, como PFL, PP e PSDB. "Em princípio, nossa conversa será com os partidos que dão sustentação ao governo Lula. Mas, dependendo da realidade local, podemos nos aproximar de outros partidos", disse Palmares. Deputados criticam decisão da executiva Parte do PT fluminense reage à estratégia. A bancada do PT na Assembléia Legislativa decidiu ontem, por seis votos a um, ser contra a participação na prefeitura de Nilópolis. Só Palmares foi a favor. Para o líder do PT na Alerj, Carlos Minc, as atividades da família Abrahão David são incompatíveis com o ideário petista. "Essa não é uma questão partidária. O problema é que pesa sobre esse grupo político uma vinculação com o bicho", disse Minc. No Câmara dos Deputados também houve protestos. Ex-procurador de Justiça do Estado do Rio, o deputado Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ) criticou a filiação de Narriman, defendida pelo presidente nacional do PT, José Genoino. "O patrimônio ético do PT não pode ser atingido por filiações como esta. A prefeita e seu marido (José Camilo Zito dos Santos, prefeito de Caxias) utilizam-se de práticas políticas condenáveis e são suspeitos de outras atividades ilícitas", disse Biscaia, que já criticara a punição do deputado Chico Alencar por ter se abstido na reforma da Previdência. "No momento em que parlamentares éticos são punidos pelo partido, o PT cogita a filiação desse tipo de pessoa", criticou Biscaia. Chico disse que ficou surpreso com a participação de Narriman no programa do PT na televisão, anteontem: "Sou do tempo em que quem era recém-admitido no partido era soldado raso e não general cinco estrelas. O programa era discutido, havia critérios rigorosos para participar desses veículos de massificação do ideário petista". O ex-deputado Milton Temer preferiu ironizar: "Ou não era o programa do PT ou não era a Narriman". O plano eleitoral para 2004 O partido que cresceu sob a lógica de marcar posição com candidaturas próprias em todas as eleições — mesmo aquelas nas quais não tinha a mais remota chance de ganhar — vai estrear em 2004 uma nova estratégia que pode ser resumida na expressão “tudo pela vitória”. O presidente do PT, José Genoino, confirmou a mudança no encontro com pré- candidatos realizado no fim do mês passado em Belo Horizonte. Ele avisou que as alianças ganharão espaço diretamente proporcional às possibilidades de vitória, especialmente nas capitais. — Agora somos governo e temos de vencer no maior número de capitais. Por isso, vai ficar claro que esta eleição não é degrau nem escada para outra eleição — ratificou Genoino, lembrando que no passado petistas faziam “biografia” numa campanha para disputar a eleição seguinte. Para 2004, o PT está também disposto a fazer alianças abrindo a cabeça da chapa para outros partidos. No caso, integrantes da base parlamentar do governo, como PSB, PPS, PTB, PL e, os mais novos aliados, PMDB e PP. E o partido elevou a questão de honra a reeleição de Marta Suplicy em São Paulo, como já avisou seu principal cabo eleitoral: o presidente Lula. Ambições à parte, o PT vai pôr em jogo, na eleição do ano que vem, um patrimônio considerável. São atualmente petistas os governos de 187 cidades Brasil afora, último número de um crescimento vertiginoso desde a histórica vitória de Diadema, em 1982. Na votação seguinte, 1987, o PT ganhou Fortaleza, prefácio das vitórias de 1988 (38), 1992 (54), 1996 (115) e 2000. Ratinho, apelido por causa da magreza Osvaldo Costa, de 43 anos, nasceu e foi criado em Nilópolis, município da Baixada Fluminense que, com apenas 19 quilômetros quadrados e 153 mil habitantes, é um dos menores do país em área. Conhecido por Ratinho, o vice-prefeito é técnico em patologia clínica, mas não exerce mais a profissão. O apelido, do qual, diz ele, sua mãe não gosta, surgiu depois de uma longa internação hospitalar por causa de desnutrição, aos 20 anos: "Eu passei um bom tempo no hospital, fiquei muito magro, pesava menos de 50 quilos. Aí o pessoal começou a me chamar assim". Ratinho está feliz com o convite do PT para se filiar ao partido, pois afirma que sempre foi ideologicamente próximo ao partido do presidente Lula, para quem fez campanha: "Eu sou muito próximo da Benedita (Benedita da Silva, ministra da Assistência e Promoção Social) e sempre lutei ao lado de quem precisava. Tem camelô brigando? Tem trabalhador reivindicando? Tem desemprego? Lá está o Ratinho. Eu distribuo cestas básicas no Centro Social Osvaldo Costa, que eu criei. Tem tudo a ver com o Fome Zero, não é mesmo?" O vice-prefeito começou a carreira política como vereador. Foi eleito pela primeira vez em 1988, pelo PFL e, em 1996, segundo ele, tornou-se o vereador mais votado de Nilópolis em todos os tempos, com 3.900 votos, concorrendo pelo PSDB, que deixou quando José Camilo Zito (prefeito de Duque de Caxias) e Narriman Zito (prefeita de Magé) também saíram do partido. Na última eleição, mudou de novo: voltou para o PFL para integrar a chapa de Farid Abrahão David, presidente da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, irmão do bicheiro Anísio Abrahão David. A família controla a política na cidade. (C.G.) PFL expulsa vice-prefeito
de Nilópolis
A Executiva Nacional do PFL acaba de expulsar do partido o vice-prefeito de Nilópolis, Osvaldo Costa da Silva, conhecido como Ratinho, que, em entrevista ontem, afirmou ter a ideologia do PT. Além da expulsão, a Executiva dissolveu o diretório municipal para reorganizar o partido em tempo hábil de disputar as eleições municipais em 2004. A direção do PFL examina outros casos parecidos e novas expulsões devem ser decididas nos próximos dias.
O Globo | RJ | Brasil
|