MP aciona Estado por desviar verba
Dinheiro tirado do Fundo da Saúde vai para programas como Restaurante Popular e Cheque Cidadão. Jornal do Commercio, 4 de setembro, 2003


As promotoras Gláucia Maria da Costa Santana e Cláudia Perlingeiro, da 6ªPromotoria de Defesa da Cidadania, entraram ontem com ação civil pública, com pedido de liminar, na 10ªVara de Fazenda Pública, contra o Governo estadual "para pôr fim ao desvio de receita do Fundo Estadual de Saúde para a execução de programas não previstos no Plano Estadual de Saúde, como o Restaurante Popular e o Cheque Cidadão".

Entre as irregularidades na aplicação da receita do Fundo, apontadas no documento encaminhado pelo Ministerio Público, estão a autorização de utilização de R$ 68,2 milhões para o atendimento do Programa Compartilhar Cesta do Cidadão, em 6 de fevereiro; a autorização para liberação de R$ 10,8 milhões do Fundo para o programa Restaurante Popular, em 11 de fevereiro; e a liberação de R$ 2,5 milhões para aplicação no Programa Compartilhar/Cheque Cidadão da Terceira Idade, em 13 de março.

- O secretário estadual de Planejamento vem remanejando, sistematicamente, as verbas do Fundo Estadual de Saúde para a manutenção do programas que não encontram guarida no Plano Estadual de Saúde - afirmam as promotoras na ação, incluindo também, entre as irregularidades, a transferência de recursos para a Fundação Leão XIII e para o programa Cheque Saúde do Cidadão, em 16 de fevereiro; para o Instituto Vital Brasil, para operação da Farmácia Popular, em 30 de julho, e para os programas Cheque Cidadão da Terceira Idade e Restaurante Popular, em 20 de agosto.

- Além disso, há programas de trabalho constantes do Quadro de Detalhamento das Receitas e Despesas Orçamentárias (QDRD) para o exercício de 2003, cuja previsão para execução utiliza verbas do Fundo sem a estrita observância do princípio da universalidade, posto que atendem a clientela fechada - afirmam as promotoras na ação. Entre estes programas estão a manutenção e o reaparelhamento das Unidades de Saúde da Polícia Militar, o Hospital da Polícia Civil e o programa Apoio à Saúde do Servidor Estadual, através do Iaserj.

- Considera-se como despesas com ações e serviços públicos de saúde aquelas que estejam em conformidade com objetivos e metas explicitados nos Planos de Saúde de cada ente federativo e que sejam de responsabilidade específica do setor de saúde, não se confundindo com despesas relacionadas a outras políticas públicas que atuam sobre determinantes sociais e econômicos, ainda que incidentes sobre as condições de saúde - explicam as promotoras, ressalvando na ação as condições nas quais se encontra o sistema estadual de saúde, com estoques de medicamentos vazios, equipamentos sem manutenção, falta de pessoal, de insumos e acumulação de dívidas nos hospitais da rede.

- Há tanto a se realizar para a melhoria da qualidade do serviço prestado pelo Estado que é impossível compreender a razão pela qual o governo opta por aplicar os recursos da saúde em realizações/atividades de outras naturezas - afirmam as promotoras.

Permitir que o Governo estadual continue aplicando verbas do Fundo Estadual de Saúde fora de sua finalidade, segundo as promotoras, "é contribuir para que se eternize a prática ímproba de descumprimento do percentual mínimo a ser aplicado em saúde, conforme norma constitucional vigente". O Estado é obrigado por lei a aplicar no mínimo 10,04% da receita em ações e serviços públicos de saúde.


Pacientes tipo exportação
Falta de investimentos de municípios da Baixada na saúde sobrecarrega hospitais do Rio . Flávio Pessoa, O Globo, 4 de setembro, 2003


As causas da superlotação das unidades de saúde do município do Rio podem estar sendo, enfim, esclarecidas, graças a um levantamento inédito, feito com base no banco de dados do Sistema Único de Saúde (SUS) pela Comissão da Criança, do Adolescente e do Idoso (CCAI), da Assembléia Legislativa. O estudo mostra, com números, que boa parte dos municípios vizinhos à capital do estado não está cumprindo a emenda constitucional 29, que determina um mínimo de 10% de investimentos da arrecadação de impostos municipais na saúde.

Sem ter onde buscar atendimento, os pacientes desses municípios migram para a rede pública do Rio, cada vez mais sobrecarregada. São casos como de Wilson Rodrigues, de 64 anos, morador de Austin, em Nova Iguaçu, que na terça-feira à noite aguardava, numa cadeira de rodas, pelo segundo dia consecutivo, uma vaga para se internar no Hospital Geral de Bonsucesso (HGB). "A gente não tem como ser atendido lá e vem para cá", resigna-se Rodrigues, que sofre de problemas cardíacos.

Estudo tem dados de nove municípios

Segundo o deputado Paulo Pinheiro (PT), presidente da CCAI, membro da Comissão de Saúde da Alerj e autor do estudo, os números mostram que a deficiência é proveniente da falta de investimentos e do descumprimento da legislação. O perigo, alerta o parlamentar, é a situação piorar ainda mais, se o Ministério da Saúde decidir suspender as verbas repassadas aos municípios que não cumprem a lei.

— Sempre se soube que a rede pública do Rio recebe pacientes de vários municípios. Mas desta vez fomos buscar dados que nos permitissem analisar o porquê dessa situação. Descobrimos prefeituras que realmente não investem o que deveriam ou que dizem investi,r mas, efetivamente, não o fazem — disse.

O levantamento, que tomou como base o ano de 2002, tem dados de nove municípios: Nilópolis, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Belford Roxo, Duque de Caxias, Japeri, Queimados, São Gonçalo e Itaboraí. A consulta aos números do SUS mostrou outra irregularidade. Embora sejam obrigados por lei, quatro desses municípios não prestaram contas de seus investimentos, nove meses após o encerramento do ano fiscal de 2002. Dos que enviaram os dados, um — Nova Iguaçu — admitiu ter investido apenas 4,8% na saúde. A prefeitura se defendeu, alegando que os dados disponíveis no SUS estão incorretos. No entanto, não forneceu o percentual investido.

O êxodo de pacientes que acabam batendo às portas da rede pública da capital consome um quarto do orçamento destinado ao setor pela prefeitura carioca, segundo cálculos do secretário municipal de Saúde, Ronaldo Cezar Coelho: "Essas deficiências sobrecarregam a capital. Hoje, 25% do que nós gastamos é para cuidar de pacientes de outros municípios. Desse jeito, a conta não fecha. É muito injusto o contribuinte do Rio arcar com esses gastos". Ronaldo Cezar contou que já levou o problema ao ministro da Saúde, Humberto Costa. "É preciso rediscutir todo o financiamento da saúde".

Numa visita realizada na terça-feira, o deputado Paulo Pinheiro verificou que a enfermaria do HGB, com capacidade para atender 20 pacientes, abrigava 61. Desses, 21 eram de outras cidades. O deputado informou ainda que 40% das internações feitas no hospital são de pacientes da Baixada Fluminense. Nas consultas, o volume de atendimento de pacientes daquela região é ainda maior: aproximadamente 50%.

O representante do Ministério da Saúde no Rio, Pedro dos Santos Faria, acredita que um dos passos para tentar mudar esse quadro é centralizar o repasse de verbas no estado, em vez de Brasília: "Só assim teremos condições de exercer uma fiscalização melhor".

Faria acredita ainda que os municípios que alegam ter cumprido a emenda 29 podem estar enviando dados irreais: "Muitos recebem as verbas do Fundo Nacional de Saúde e as transferem para as secretarias de Fazenda. A partir daí, ninguém sabe o que é feito com o dinheiro. Os gastos podem ser relativos a pagamento de servidores. Acredito que 70% dos municípios adotem essa estratégia". Ele antecipou que vai determinar uma auditoria na prestação de contas dos municípios, inclusive daqueles que afirmam ter cumprido a legislação em vigor.

As contas da saúde

NOVA IGUAÇU: O total gasto na saúde foi de R$ 84 milhões em 2002. A contrapartida do município foi de 4,8% (R$ 5,7 milhões) de sua arrecadação de tributos (R$ R$ 118 milhões). A União repassou R$ 78 milhões. A prefeitura contesta o percentual divulgado no Datasus, afirmando ter ocorrido um erro no repasse dos dados.

NILÓPOLIS: Recebeu, segundo levantamento da comissão, R$ 2,5 milhões da União. A prefeitura, porém, afirma ter recebido cerca de R$ 3,5 milhões e gasto, com recursos próprios, R$ 5,7 milhões, o que corresponderia a 16% do total arrecadado com tributos municipais (R$ 35,4 milhões). Explica, ainda, que as informações não foram repassadas ao SUS por esquecimento da contabilidade do município.

DUQUE DE CAXIAS: A União repassou R$ 45 milhões. A prefeitura não informou quanto gastou.

JAPERI: Recebeu R$ 1,3 milhão do governo Federal e investiu, segundo o prefeito Carlos Moraes, R$ 4,7 milhões, o que corresponderia a aproximadamente 25% da arrecadação dos tributos municipais. Os dados, porém, não foram enviados ao Datasus.

ITABORAÍ: Assim como Caxias, Nilópolis e Japeri, o município não informou ao SUS o total gasto em saúde. Da União, recebeu R$ 22 milhões.

BELFORD ROXO: Investiu R$ 10 milhões, 16% de sua arrecadação tributária. A União repassou R$ 21 milhões.

SÃO GONÇALO: Investiu no setor R$ 49 milhões, 35% de sua arrecadação de impostos. Recebeu R$ 26 milhões.

QUEIMADOS: Investiu 13,5% (R$ 3,7 milhões) do que arrecadou em impostos. Recebeu R$ 3,6 milhões.

SÃO JOÃO DE MERITI: Arrecadou R$ 80 milhões, gastou R$ 22 milhões e recebeu da União R$ 40 milhões.

Projeto legitima o desvio de recursos do Fundo da Saúde
Gisela Alvares, Jornal do Commercio, 5 de setembro, 2003


Um dia depois de ser denunciada pelo Ministério Público de desviar recursos da saúde para projetos populares, a governadora Rosinha Garotinho encaminhou à Assembléia Legislativa (Alerj) projeto de lei que altera o Fundo Estadual de Saúde (FES). De acordo com a mensagem, o Governo poderá dispor das verbas do fundo para ações amplas e nem sempre do âmbito da saúde, provocando reações entre os deputados que condenam o uso de dinheiro da saúde em outros setores.

O projeto autoriza o Executivo a aumentar no orçamento de 2003, o FES em 25%, que poderá ser usado, então, em projetos como Farmácia Popular, ações e despesas decorrentes de financiamento de programas de saneamento básico, merenda escolar nas férias, suplementação alimentar, saúde na terceira idade e fornecimento de medicamentos e material hospitalar.

A presidente da Comissão de Saúde da Alerj, deputada Cida Diogo (PT), considerou o projeto "indecente". Segundo a parlamentar, esta foi a forma da governadora burlar a ação cível, com pedido de liminar, impetrada pelo Ministério Público (MP), que impede o Executivo de transferir recursos do FES para programas como Cheque Cidadão e Restaurante Popular, como vinha acontecendo. A providência do MP foi divulgada ontem.

- O Governo já tentou fazer isso no orçamento de 2002 e agora tenta obter o respaldo da Alerj para usar o dinheiro da saúde em ações de outras secretarias. Certamente o Conselho Estadual de Saúde vai se manifestar contra. Se este projeto for aprovado, o que não acredito, caberá ao Ministério da Saúde suspender o repasse de recursos para o Estado. Trata-se de uma tentativa clara de desvio de verba da saúde - denuncia a parlamentar.


Farmácia estadual sem remédio
Estado falha no fornecimento de 53 medicamentos de distribuição gratuita. Marcello Gazzaneo, Jornal do Brasil, 5 de setembro, 2003


''A senhora deu sorte. Tem gente aqui que não recebe remédio desde novembro''. A frase de um funcionário da Farmácia do Estado foi a resposta que a consultora de mercado Tanara Vieira, 34 anos, ouviu ao tentar receber, no último dia 28, uma caixa de Biotina, medicamento que sua filha, Laura, de apenas 2 anos, precisa tomar todos os dias pelo resto da vida. O medicamento, usado no combate à deficiência grave de vitamina, faz parte de uma lista de 53 remédios considerados excepcionais e cuja distribuição pelo Estado tem sido irregular desde o ano passado. 
Remédios para doentes crônicos renais, portadores de hepatite C e transplantados, entre outros, não têm sido encontrados na Farmácia do Estado. No caso de Tanara, há dois meses ela tenta em vão receber a Biotina, apesar de a consultora ter garantido, na Justiça, o direito ao medicamento. Na Comissão de Saúde da Assembléia Legislativa do Rio (Alerj), as denúncias de falta de remédios são constantes.

Na quarta-feira, o Ministério Público estadual entrou com uma ação civil pública contra o governo de Rosinha Matheus pelo desvio de R$ 81,55 milhões do Fundo Estadual de Saúde (FES) para programas como Restaurante Popular e Cheque-Cidadão. Na avaliação da presidente da Comissão de Saúde da Alerj, Cida Diogo (PT), a aplicação da verba do FES em programas assistencialistas é um dos motivos para a constante falta de medicamentos.

"Esse descaso já passou de todos os limites. Para a minha filha, que vai precisar tomar esse remédio durante toda a vida, faz muita falta. Para o governo, no entanto, me parece que saúde não é prioridade", afirmou Tanara. Cansada de esperar, a consultora resolveu recorre à Justiça novamente. Desta vez, ela entrou com o pedido de prisão preventiva do secretário de Saúde do Estado, Gilson Cantarino.

A comerciante Isabel, que preferiu revelar apenas o primeiro nome, também vem enfrentando o problema. Desde junho, ela não encontra na Farmácia do Estado a Closapina, que o filho, de 20 anos, usa para o tratamento da esquizofrenia. Para evitar surtos, o rapaz toma o medicamento todos os dias. Sem alternativa, Isabel foi obrigada a comprar o remédio pagando R$ 135 por uma caixa com 30 comprimidos.

A deputada Cida Diogo revelou que a Comissão de Saúde aguarda, há 20 dias, um relatório da situação da farmácia estadual. "Parece-nos que saúde deixou de ser prioridade para o governo. Mas vamos esperar o relatório para avaliar a situação e ver que medidas tomaremos", afirmou a parlamentar.


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