Herança maldita
Laerte Braga, 29 de agosto, 2003

Atribuir o inevitável fracasso do primeiro ano de governo Lula à herança maldita de FHC (a expressão está incorporada ao domínio público) tem um quê de verdade, mas tem muito mais que isso, outro quê de má fé.

É simples explicar isso: qualquer um, em qualquer lugar do Brasil, tinha consciência plena do que foi o governo FHC. Uma junção de quadrilhas da direita brasileira para um saque sistematizado e organizado ao Estado, nos moldes e nas linhas definidas pelo capital internacional, com objetivo de privatizar esse Estado e recolonizar o Brasil, adequando-o à nova ordem imperial norte-americana.

O neoliberalismo para a América Latina só fez e faz confirmar o conceito de América Latrina.

A corrupção e o banditismo são conseqüências lógicas dessa ação. Foram 8 anos de um trabalho organizado, bem feito, do ponto de vista do bandido, 8 anos sob o jugo das mais competentes e despudoradas quadrilhas da política nacional.

Que Lula ia assumir o governo com esse quadro não precisava ser dito. O resultado das eleições foi o bastante. Mais que bastar. Foi o sinal claro e inequívoco do cidadão brasileiro que queria mudar.

À época que os bandidos privatizaram os setores de energia elétrica e telefonia as pesquisas indicavam que grande parte da opinião pública não só acreditava que o modelo proposto era o melhor, aquela história de ingressarmos na modernidade, deixarmos de ser caipiras, como imaginava que o governo (vá lá) dizia a verdade ao afirmar que sobrariam mais verbas para a educação, a saúde, as políticas sociais, etc.

Ao final do período novas pesquisas mostravam que a imensa maioria dos cidadãos havia caído em si e percebido o logro e o embuste que as privatizações significaram. A maior parte dos brasileiros sentiu que FHC apenas vendera o patrimônio público, privatizara o Estado e enchera suas burras. Dele e das quadrilhas participantes do seu governo.

O cacife político de Lula permitia a ele revirar de cabeça para baixo os 8 anos de FHC. Era isso que o brasileiro que votou por mudanças desejava.

Não foi isso que Lula entendeu, ou se entendeu, enganou e mentiu ao povo durante a campanha, pois a primeira coisa que fez foi colocar seu adversário a salvo ao aceitar a lei do foro privilegiado. O coitado estava temeroso que pudesse vir a ser preso, inspirava-se no ocorrido com Menem, um FHC argentino. E seria, claro.

Lula aceitou as regras do jogo imposto pelo capitalismo internacional. Concordou com o monitoramento do FMI, logo dos banqueiros e principais acionistas do Estado brasileiro privatizado e, seguindo à risca a lição de FHC, no primeiro momento de seu governo propõe duas reformas vindas de Washington. A da previdência e a tributária.

Chama a tropa de choque de seu grupo, fala em responsabilidade, atribui e distribui o epíteto de radicais aos que têm vergonha na cara e compromissos efetivos assumidos seja com o partido, seja com a história de lutas, com a própria consciência, engata a marcha a ré e declara, ao cabo de quase 9 meses, que não é de esquerda.

Segue à risca a política de recolonização com o desmanche dos serviços públicos, prepara a tal flexibilização dos direitos trabalhistas e, no governo das mudanças, o Brasil cresce como rabo de cavalo, para baixo, a dívida pública aumenta em relação ao PIB. O desemprego grassa sem qualquer perspectiva e o projeto Fome Zero vive a agonia de ter a maior parte de suas dotações orçamentárias cortadas, tudo para que se possa continuar a pagar os juros da dívida.

O governo Lula é uma falácia. Um embuste. Malgrada a política externa do presidente que ainda tem alguma consistência, até porque precisa dar a impressão que alguma coisa mudou, o resto foi para o brejo.

Quem falou em nome do Banco Central, braço brasileiro do FED, banco central norte-americano, foi Luís Sampaio Malan, irmão de Pedro Malan, ministro da Fazenda de FHC. Nem isso despistaram. Perderam o respeito primeiro por si próprios e depois pelo resto dos brasileiros. Foi apresentar resultados negativos tais como exatamente o aumento da relação dívida versus PIB.

Os tais índices que criaram, vão continuar a criar para facilitar o embuste, a mentira, a comunicação (sob controle do capital externo), as medidas de quem caiu de quatro.

O Brasil não mudou nada, o PT de Lula não é 'Parece Tucano'. Por ter a obrigação de ser diferente, é 'Pior que Tucano'.
 

sobre o autor


Laerte Braga é jornalista e analista político. [laerte.braga@uol.com.br]


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