Toponímia histórica e lírica
Didymo Borges, 29 de agosto, 2003

O Brasil tem a péssima mania de modificar facilmente a toponímia histórica e lírica de suas cidades. Logradouros centenários por vezes têm o nome mudado para o nome de um figurão qualquer sem que se avalie as conseqüências da perda de um patrimônio público representado pelo topônimo histórico ou lírico. Com isso, perdem as cidades, perde o povo, quebram-se as tradições herdadas de gerações passadas.

Um exemplo é o do Recife, desfigurado das suas tradições pelo desrespeito à sua toponímia histórica. Veja-se o caso da Rua dos Judeus. Esta denominação nasceu no tempo da ocupação holandesa no século XVII devido à concentração de negociantes judeus naquele logradouro centenário. Ali foi erguida a primeira sinagoga das Américas onde hoje é o Centro de Cultural e de Tradições Históricas Judaicas, que se propõe, inclusive, a ser um centro de pesquisas sócio-antropológicas.

A sinagoga coloca o Recife no roteiro de um preciso fluxo turístico religioso representado pelos milhões de turistas de origem judaica que viajam pelo mundo. Com a expulsão dos holandeses e, com eles, dos judeus, foi, em represália, o nome da rua rebatizado para rua do Bom Jesus. Tentou-se a restauração do nome tendo em vista a localização da sinagoga histórica naquela rua. Mas a Prefeitura não cedeu e apenas colocou nas duas extremidades placas onde se lê: Rua do Bom Jesus, antiga Rua dos Judeus.


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