| Mera Coincidência
Paul Krugman, 1 de junho, 2003 New York Times e Mídia Global Um governo exagera a ameaça representada por uma potência estrangeira. Ele fala de vínculos com o terrorismo fundamentalista islâmico, adverte sobre um programa de armas nucleares. A mídia divulga esse discurso e o país é varrido por uma febre belicista. A guerra retira tudo o mais - incluindo escândalos envolvendo membros do governo - da mente da população. O filme de 1997, "Mera Coincidência" ("Wag the Dog", EUA) tem um roteiro notável. Embora título do filme tenha se incorporado à linguagem, não sei quanta gente o tem assistido ultimamente. Preste atenção ao roteiro. Se você não acha que ele tem semelhança com eventos recentes, é porque está negando a realidade. A guerra do Iraque foi bem real, ainda que os seus "momentos Kodak" - a derrubada da estátua de Saddam, o resgate da soldado Jessica Lynch - pareçam ter sido maquiados por técnicas de edição. Mas grande parte da suposta justificativa para a guerra demonstrou ser fictícia. A guerra foi justificada para a população devido a supostos vínculos entre Saddam e a Al Qaeda, e à posse de armas de destruição em massa pelo governo iraquiano. Mas nenhuma evidência de conexão com a Al Qaeda jamais apareceu, e tampouco foi encontrada qualquer arma de destruição em massa que representasse ameaça para os Estados Unidos ou seus aliados. O fracasso em se encontrar armas de destruição em massa foi descrito como sendo uma "falha de inteligência", mas tal descrição ignora o fato de que uma pressão intensa foi exercida sobre agências de inteligência no sentido de dizer aos governos Bush e Blair aquilo que queriam ouvir. Antes mesmo de a guerra ter começado soubemos de tais vexames como a apresentação de um relatório plagiado, feito há dez anos, sobre a capacidade bélica do Iraque, apresentado como informação quentíssima de inteligência, e o uso de documentos grosseiramente forjados como sendo evidência de um programa nuclear. No segundo semestre do ano passado o chefe do departamento de contra-terrorismo da CIA alertou que "inteligência adulterada" estava chegando aos pronunciamentos oficiais. Nesta semana, um oficial graduado da inteligência britânica disse à BBC que, sob pressão de Downing Street, um dossiê de armas iraquianas foi "transformado" a fim de torna-lo "mais sexy" - material de cunho não confiável vindo de fonte suspeita foi adicionado para fazer com que a ameaça parecesse iminente. Agora também está claro que George W. Bush não tinha intenção de chegar a uma solução diplomática. Segundo o "Financial Times", fontes da Casa Branca confirmam que a decisão de fazer uma guerra foi tomada em dezembro do ano passado. "Um ditador de meia-tigela estava fazendo gozação com o presidente. Esse fato provocou um sentimento de raiva no interior da Casa Branca", disse uma fonte ao jornal. Autoridades do governo estão neste momento minimizando toda a questão das armas de destruição em massa. Paul Wolfowitz, vice-secretário de Defesa, disse recentemente à revista "Vanity Fair" que a decisão de enfatizar as armas de destruição em massa foi tomada por "razões burocráticas...porque essa foi a única razão quanto a qual fomos capazes de concordar". Mas foi a questão das armas de destruição em massa que causou um rebuliço no Senado, fazendo com que este desse a Bush carta branca para lançar a guerra. Até o momento, a população parece não se importar - ou sequer querer saber a verdade. Uma nova pesquisa feita pela instituição Program on International Policy Attitudes revelou que 41% dos norte-americanos ou acredita que as armas de destruição em massa foram encontradas, ou não estão certos quanto à questão. O diretor da instituição sugere que "alguns norte-americanos podem estar evitando ter uma experiência de dissonância cognitiva". E três quartos da população acredita que Bush demonstrou uma liderança forte na questão do Iraque. Assim sendo, qual é o problema? Guerras travadas para lidar com ameaças imaginárias têm conseqüências reais. Exatamente como temiam os que criticavam a guerra, a Al Qaeda saiu fortalecida do conflito. O Iraque virou um caos, e o número de baixas norte-americanas está aumentando. "Temos notícias de enfrentamentos em toda a região central", disse uma autoridade do Pentágono ao "The Los Angeles Times". Nesse ínterim, o governo tirou uma considerável vantagem política de uma guerra criada com base em premissas falsas. Na melhor das hipóteses, esse fato estabelece um precedente muito ruim. No pior dos cenários... "Se você quer vencer essa eleição, é melhor mudar de assunto. Você precisa mudar de assunto; é melhor contar com uma guerra", explica o operador político interpretado por Robert De Niro em "Mera Coincidência". "O negócio é o espetáculo". Uma observação final: Está sendo rodado filme que é uma mistura de documentário e drama sobre o 11 de setembro. O produtor é uma pessoa de confiança da Casa Branca, trabalhando com a consultoria de Karl Rove. O enredo mostra um Bush tão decidido quanto eloqüente. "Neste filme", relata o "The Globe and Mail", "Bush faz longos e provocativos discursos que imediatamente se transformam em políticas de governo". E podemos estar certos de que o filme não menciona o factóide que foi a ameaça ao avião presidencial, Air Force One, no qual os membros da Casa Branca embarcaram, criado para explicar os movimentos de Bush no dia dos ataques. Afinal, o negócio é o espetáculo. Tradução: Danilo Fonseca
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