Para dissidente, a luta continua
Dora Kramer, JB, 9 de agosto, 2003

A decisão da cúpula do PT de não punir os oito deputados que optaram pela abstenção na votação do texto base da reforma da Previdência, não terá como contrapartida a obediência futura da ala esquerda do partido.

Nem o ''desta vez passa'' insinuado pelo presidente do partido, José Genoíno, será capaz de impedi-los de fazer a mesma escolha no segundo turno de votação. E mais: continuarão votando contra o governo quando considerarem o conteúdo das propostas inaceitável.

Incluem-se na lista alguns aspectos da lei de Falências, a autonomia do Banco Central, proibição da produção de alimentos transgênicos, direitos trabalhistas, entre outros temas antes sacralizados pelo PT e hoje pontos de honra apenas para os chamados rebeldes. E nestas questões, antecipa o deputado Chico Alencar, os ''contra'' poderão ser em número bastante mais significativo que o grupo dos oito abstencionistas da Previdência.

A alegação da direção petista para não puni-los - deixando a ameaça de expulsão limitada apenas aos três deputados que cravaram o ''não'' no painel eletrônico da Câmara - foi a de que os oito, no dia seguinte, votaram a favor do governo na emenda contrária à taxação dos inativos.

Segundo Chico Alencar, essa decisão não pautou-se pelo temor da sanção, mas baseada na convicção de que a emenda do PFL ''era pior que o soneto''.

Pelo seguinte: da forma como estava redigida, e sendo emenda supressiva, ela eliminaria do texto original a isenção de cobrança para os aposentados que ganham até R$ 1.440 na União e R$ 1.200 nos estados e municípios. ''Na prática, os 11 estados e 2.000 municípios que fazem essa cobrança hoje continuariam a fazer, sem piso de isenção'', argumenta Chico Alencar. ''A questão era enganosa, não protegia de fato os aposentados''.

Ou seja, ele quer dizer que tratou-se de um caso específico. A tese, defendida por Genoíno, de que agora tudo pode terminar bem porque daqui para frente tudo será diferente, e os dissidentes serão sobretudo obedientes, não corresponde à realidade.

''Não dá para firmar nenhum compromisso antecipado de votação''. A maleabilidade exibida pela direção do PT, na opinião de Alencar, ''facilita o diálogo, mas não garante submissão''. Se o preço dessa independência for a expulsão ou a impossibilidade de conseguir legenda para disputar eleições, Chico Alencar diz que ele e outros companheiros estão dispostos a pagar. ''Pela primeira vez na minha vida, considero seriamente a hipótese de fazer política fora do PT''.

A solução, o grupo (cerca de 30 deputados) tem conversado a respeito, é o governo tornar-se ''mais moderado'' com relação a suas políticas e mais respeitoso no que tange às circunstâncias do partido. ''É crescente a tendência de nos impor a autonomia governamental, como nos velhos partidos de Estado''. E contra isso, assegura o deputado, a luta continua.

Santo de barro
Na teoria, os donos da máquina partidária, principalmente num partido disciplinado como o PT, dispõem também da força da pressão. Na prática, porém, os dissidentes, mesmo ameaçados de expulsão ou subtração de legenda, não estão em posição tão desvantajosa assim.

O PT é a maior bancada da Câmara hoje, com 93 deputados que, em breve, tudo indica serão 90. Se os oito que se rebelaram na reforma da Previdência fossem expulsos, a representação cairia para 82. Longe ainda do segundo partido em número, o PFL, com 69 deputados.

Mas, é evidente, o PT não pode se descuidar e abrir a porta de saída com tanta desenvoltura. Sob pena de perder a condição de primeira bancada e, com isso, a prerrogativa de indicar o presidente da Câmara.


Previdência | Opinião

Busca no site | Principal..Consciência.Net


Publicidade

.