Do beiçola das privatizações ao barbudo do continuísmo
Petrônio Souza, 8 de agosto, 2003

Aos poucos, nós, brasileiros, vamos constatando que votamos em um plano de governo, mas o adotado foi outro. O povo elegeu o Lula e quem tomou posse foi o Fernando Henrique Cardoso, por isso as linhas centrais do governo petista não mudaram um só milímetro do governo anterior. Dói, para nós, ver que o Lula é mais insensível politicamente que o FHC, pois o Fernandinho sabia que estas reformas da Previdência estavam contra os direitos assegurados ao povo brasileiro desde o governo nacionalista de Getúlio e que, mexer neles, traria um profundo desgaste para o governo.

No entanto, com a mesma arrogância que os patrões das grandes empresas enfrentam as reivindicações dos trabalhadores, dos grevistas, o governo petista vem levando e enfrentando as maiores manifestações do povo brasileiro, que depois de ouvirem de FHC o pedido para esquecerem o que ele escreveu, ouvem agora do Lula o pedido para esquecerem o que ele pregou.

Não podemos esquecer que os líderes sindicais aprenderam com o PT da história a lutar e manifestar em prol das suas reivindicações, dos seus direitos e, agora, do outro lado da história, os mesmos petistas tentam impedir que o povo se manifeste contra o rumo adotado pelo atual governo. O presidente da Câmara, João Paulo Cunha, do PT de São Paulo, entrou para a história política do Brasil como o primeiro presidente da Câmara a chamar a Polícia de Choque para os manifestantes que protestavam contra as reformas em votação no Congresso.

O vice-presidente do Andes-Sindicato, José Domingues Godói Filho, depois de ser barrado e impedido pela polícia militar de se manifestar no Congresso Nacional, declarou: “É uma vergonha que estejamos passando por isso num governo do PT, ainda mais com um petista na presidência da Câmara. Nem na ditadura militar foi assim". O novo governo é um muro de Berlim contra as manifestações do povo, a liberdade de expressão. É o retrocesso democrático petista e os ideais do Partido dos Trabalhadores estão como a senadora Heloísa Helena, atirados no chão de lama e caos.

O que se vê é que a truculência do governo que deveria ser popular é pior que a dos governos anteriores, cabendo sempre por parte dos oprimidos a comparação com os anos de chumbo, que abateram as manifestações do povo com balas.

No entanto, os sonhos petistas seguem com a senadora Heloísa Helena, que em cima de um carro de som, como sempre ela fez, protestou dizendo que o Congresso Nacional “é um vergonhoso balcão de negócios, onde se enche a pança de cargos, riquezas e poder". Se foi assim na era FHC, continua assim na era Lula e só alguns poucos, entregues às suas causas verdadeiras de mudança do Brasil, podem dizer isso, porque o poder não o fez mudar de lado, de convicções.

Outros petistas históricos já deram seus votos contra as reformas de Lula, que só conseguiram êxito no Congresso pelos novos votos conquistados junto ao PSDB e PFL. Chico Alencar (RJ), João Alfredo (CE), Paulo Rubem Santiago (PE), Mauro Passos (SC), Walter Pinheiro (BA), Ivan Valente (SP), Orlando Fantazzini (SP) e Maninha (DF), juntamente com os radicais, vão demonstrando que nem todo o partido está fechado nas questões das reformas, mas o PT governo não quer diálogo com eles, quer apenas punir quem vota contra os interesses do partido (sic), do governo.

O destemido deputado Ivan Valente foi claro ao justificar a sua postura: "Nossa posição foi um alerta ao nosso governo para abrir um diálogo sobre as questões que virão. E, para mudar o Brasil, precisamos enfrentar os privilégios dos bancos e dos latifúndios”.

Lula não quer enfrentar os grandes inimigos do povo e, por isso, espezinha o já então oprimido, o brasileiro. Talvez, por saber durante anos de lutas que a única arma que o povo tem é a voz, é o protesto, e isso é muito fácil de barrar, de calar. Mas, Lula sabe também que a união faz a força e se a união estiver com o povo, caminhar com ele, muita coisa pode mudar, pois nem tudo os dólares dos patrões podem comprar...
 

sobre o autor


Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor. [petros@cidademais.com.br]


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