Quem plantou a esperança colhe o medo
Petrônio Souza, 25 de julho, 2003

Se não bastasse o quadro surreal pintado nas telas das tevês e nas páginas dos jornais com o anúncio de greve de juízes – contra que patrão –, adesão do PFL à oposição contra a reforma da previdência e até passeata de índios em frente ao Palácio do Planalto, FHC, o beiçola das privatizações, com um sorriso maroto de Monalisa despudorada, também resolveu participar da festa psicodélica deste início do governo. De São Paulo, o ex-presidente alardeou aos quatro ventos que gostaria de ser conselheiro do presidente Lula, o barbudo do continuísmo.

Lula e FHC caminham juntos pela avenida que dá sentido à política brasileira, que há mais de oito anos liga São Paulo a Brasília. De lá, de dentro do centro sindicalista e liberal do Brasil, FHC, durante palestra na Universidade de Santo Amaro, resolveu ministrar uma aula gratuita para os alunos da universidade e para o seu pupilo mor, o presidente Lula, que até agora não vacilou em seguir a cartilha ensinada e adotada pelo entreguismo político do Brasil.

Sabendo da proximidade ideológica/governamental de Lula e seus asseclas, FHC, com toda pompa que só quem é ex tem, ironizou: "Se o presidente em exercício achar útil, pode usá-lo (o ex-presidente) para alguma coisa, não para a política, mas para o Estado (sic) e a sociedade " (...) "Se depender de mim, posso com satisfação dar o testemunho de ex-presidente, pois há um grande campo de ação pública, mas não partidária no sentido eleitoral".

FHC só falou isso porque tem a certeza que não vai ser contestado nem retrucado, pois o atual governo é o genérico do anterior, sem a embalagem vistosa que facilita a compra. É fato que a era FHC quebrou o Brasil. Calcula-se que os oito anos do fernandismo rederam um prejuízo de mais três trilhões de dólares à nação. Resultado disso é que os estados estão empobrecidos, endividados, os municípios idem e aí, só mesmo por meio de uma reestruturação política/econômica que este quadro pode ser alterado. E o que faz o novo governo neste sentido? Nada. Mais, os juros da agiotagem internacional continuam sendo pagos regularmente, em dia. Os lucros dos banqueiros ninguém taxa, e os pobres brasileiros são assombrados pela desesperança de mudança do atual governo.

Representado os governadores da região sudeste na reforma tributária, o governador de Minas, Aécio Neves, foi sintético: “O processo de retomada do desenvolvimento da nação deve ser compartilhado por todos os estados da federação”. O que o governador de Minas quis dizer é que a União não pode ser algoz do desenvolvimento dos estados e dos municípios por meio do repasse de verbas. Ela tem que ser o ponto de equilíbrio entre a arrecadação e o gasto/financiamento para o desenvolvimento da nação como um todo. Porque até agora, a União tem funcionado dentro de uma política apátrida, tomando o dinheiro arrecadado pelos estados e municípios e mandado para fora do Brasil, para além das nossas fronteiras, pagando juros.

Dentro desta realidade estamos divisando um país sucatado, com estradas esburacadas, déficit habitacional, sistema de saúde estrangulado, empresas demitindo e o trabalhador brasileiro vivendo a garização do emprego.

A herança de FHC é esta: libertinagem financeira, dilapidação do estado e a marginalização do emprego. Lula, no melhor estilo paz e amor, aceita tudo isso sem contestação, com total passividade e vai, aos poucos, sendo mais eficiente que o Fernandinho, levando contra a Constituição, o poder judiciário e a vontade do povo brasileiro as reformas que FHC não teve coragem de implementar.

Para desespero geral da nação, os 54 milhões de votos contra a política que esfacelou o Brasil vai aos poucos se convertendo em 54 milhões de espectadores, que plantaram nas urnas a esperança e colhem nas ruas o medo.
 

sobre o autor


Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor. [petros@cidademais.com.br]


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