| Tem ‘gato’ na linha
Petrônio Souza, 8 de julho, 2003 Era fim de tarde da primeira quarta-feira de julho de 2003, dia 2. Enquanto no interior de Minas as fogueiras julinas mantiam acesa dentro de cada um as mais autênticas manifestações culturais do nosso Estado, encontrava-me na sede da Academia Mineira de Letras, no casarão que faz parte do patrimônio artístico-cultural da capital mineira, com o seu presidente, o outrora senador da República Murilo Badaró. Enquanto viajávamos pelas histórias dos rincões mineiros, a secretária da Academia entra sala adentro e se dirige ao presidente: - Dr. Murilo, o Senhor recebeu o recado de Minas Novas (terra do senador), que eu deixei aqui ontem? Murilo afirmou positivamente e pediu à secretária: - Bem lembrado, Carmem. Ligue para lá agora, por favor. Constrangida, a secretária ponderou: - Dr. Murilo, o senhor se esqueceu? Nós não temos como telefonar... Com ar indignado, Murilo Badaró virou-se e disse: - Nossa Academia está sem telefone... Agora virou moda por aqui, a gente compra uma fiação nova de telefone, eles pulam aqui dentro e roubam... Roubam tudo, e depois vendem para o ferro-velho, e nós ficamos assim, sem comunicação... A globalização fernandista fez isso com o povo brasileiro: colocou telefone na casa de muitos e levou dos brasileiros a condição de ligar, de usar o sistema, com aumentos extorsivos nas taxas de serviços. O aumento das taxas telefônicas - como no caso da Academia - é um roubo contra o cliente/usuário feito em plena luz do dia e com a aprovação de muitos. As privatizações das teles levaram o nosso patrimônio para o ferro-velho, tudo em detrimento do usuário, que agora paga caro para ter barato. Primeiro, falou-se que a concorrência iria privilegiar o consumidor. O que se viu foi que as privatizações nas mãos de pequenos grupos organizados ficaram mais próximas da cartelização do sistema, com aumentos abusivos, do que da livre concorrência de mercado. Para privilegiar ainda mais estes grupos, o Estado mínimo, pensado e implementado pelo governo fernandista, colocou nas mãos das agências a decisão sobre aumentos e reajustes de preços. Isso não é Estado mínimo, é omissão e ingerência do Estado, do governo, pois reajustes em áreas estratégicas como das comunicações têm que ter uma subordinação ao poder público e não a um Estado invisível, paralelo e privatizado, denominado de agências. Afinal, quem responde por estas agências? É neste mesmo processo que querem ‘levar’ o nosso Banco Central, transmutado agora em autonomia, ou seja, autonomia aos interesses nacionais e submissão servil aos interesses do mercado internacional. É justamente para isso que luta o ex-agente do Bank Boston, o senhor Henrique Meirelles, e mais um punhadinho de vira-casacas. Diante disso tudo, vê-se que os brasileiros começam a lutar pelos seus direitos perdidos, vendidos, assumindo obrigações que deveriam ser do Estado. De Minas Gerais, o juiz, Edison Moreira Grillo Junior sentenciou: "A decisão da Anatel fere a MORALIDADE". Assegurando ainda o meu, o seu, o nosso direito de usuário e cidadão, o juiz finalizou: "A decisão vale para todos os Estados e para o Distrito Federal". Se a atuação do Estado deve ser mínima, como preconizou o ex-delinqüente, desculpem, ex-presidente FHC, a população com as leis debaixo do braço procura lutar pelos seus direitos. Como se não bastasse apenas este aumento abusivo, imoral e inconstitucional, vemos outros, e a energia elétrica, que move toda produção industrial da nação, abocanha 15% de reajuste, enquanto a inflação programada para este ano é de 8,5%. Há algo errado nestas contas que privilegiam alguns em detrimento de todos, da maioria, dos eleitores que votaram na mudança esperançosos em dias melhores, em um governo legislando pelos e para os interesses nacionais, de milhões. Vale aí apenas uma salutar observação: se o povo buscou e conseguiu em um primeiro momento a suspensão do aumento das tarifas telefônicas, ele pode muito mais. Assim, quando este mesmo povo souber e sentir que o destino do seu país está em suas mãos, em sua força enquanto nação, poderemos trilhar novos caminhos, tendo apenas um fim nesta jornada, e a certeza de que o governo existe para garantir/assegurar os interesses e anseios deste mesmo povo, e não dos que não estão aqui. Quem sabe se esta primeira
vitória contra o aumento das taxas de telefonia seja apenas o início
de futuras vitórias do povo contra os desmandos do governo? – governo
que não é até agora confiável por demonstrar
insistentemente que não está voltado para os interesses da
Nação, dos brasileiros. Assim, vamos nós, que pedimos
e lutamos por mudanças, sabendo que, se ela não vier de cima,
pode muito bem vir de baixo, sendo levantada e amparada pela força
de todos nós, de todos os filhos da pátria.
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Prega Fogo | Opinião
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