O "milagre" do grão transgênico
Luci Choinacki, 26 de maio, 2003

A liberação, por exceção, da atual safra de soja transgênica para a comercialização é resultado da omissão e da irresponsabilidade do Governo FHC, escoltado por grupos de grandes produtores do RS que, por meio da Assembléia Legislativa daquele Estado, proibiram o Governo do petista Olívio Dutra fazer cumprir a Lei. E o Governo Lula foi sensível com os produtores que a cultivaram ao não queimá-la, livrando-os da cadeia e suas famílias da fome.

Anistiados pela MP, os grupos pró-transgênicos sentiram-se livres até para argumentos como creditar o aumento da safra de grãos à soja modificada. No mínimo ingenuidade, mas prefiro ser mais realista e pensar que é parte da estratégia para disseminar o tal grão, submetendo agricultores, governos, política agrícola e soberania alimentar aos interesses dos EUA, através da Monsanto. Aliás, não seria fato novo na história do Brasil.

Superamos os EUA na produção de soja. O desempenho do Brasil sem transgênicos fez a produção de grãos crescer 19,3%. A taxa de crescimento na soja é de 8,8%, desde 1996, e a produtividade, 2,6% ao ano. No Mato Grosso do Sul livre de transgênicos, a produtividade aumenta 5,2% a cada ano. O RS dos transgênicos produziu menos por hectare no ano passado que em 2001 e aumentou o uso de veneno em 47,6%. Nos EUA, onde a soja transgênica está consolidada, a produção retrocedeu ao nível de 1997 e o custo de produção nas lavouras estadunidenses é 1,06 dólar/saca maior do que nas lavouras convencionais do Brasil.

Na safra brasileira, a soja transgênica representa pouco: 3,4% dos grãos e 7,9% da soja. Considerando-se o aumento de 6% (2,5 milhões de hectares) na área plantada e que São Pedro ajudou como nunca, está claro que superaríamos a produção de soja dos EUA e teríamos uma grande produção mesmo sem a malfadada soja. Talvez até melhor, considerando os números da produção gaúcha.

Não consigo ver, na comparação dos números, indícios de evolução tecnológica, viabilidade financeira ou ambiental. Até por que o mercado consumidor da soja brasileira não aceita nenhum argumento pró-transgênico, nem qualquer produto que inclua no cultivo, criação ou industrialização algum insumo transgênico. Por conta disso, os EUA perderam mercado (a exportação brasileira de soja convencional cresceu 27,5% ao ano de 96 a 2001) e seus agricultores querem livrar-se do abacaxi, apesar dos subsídios do seu governo. É questionável, portanto, a análise e a 'visão de mercado' de alguns capitalistas nacionais.

Mas a Monsanto quer garantir o lucro das suas "pesquisas" e os EUA seu filão de mercado e seu domínio, não importando sobre quem recaiam os custos - sanitários, econômicos, ambientais, políticos. Aí entra o grande potencial agrícola brasileiro.

A decisão sobre o nosso futuro, nossa soberania agrícola, econômica e alimentar, no entanto, cabe a nós, a sociedade e o poder público. A discussão precisa ser disseminada e a decisão tomada para além da medida de exceção do Governo; além da ideologização falaciosa imposta pela Monsanto e pelas entidades dos grandes proprietários de terra.

Ou, quem sabe, nossa saída será esperar por uma nova "fórmula milagrosa" da Mosanto ou de quem quer que seja, que será apontada, de novo, como a "evolução tecnológica".
 

sobre a autora


Luci Choinacki é deputada federal pelo PT-SC.


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