Tempo de reconstrução
Rolando Lazarte, 4 de agosto, 2003

Era sábado dois de agosto de 2003. Reunião na AFYA de terapeutas comunitários. Vieran Vagneide e Alberto, e estavam Efo, Teresí, Marise, Irmã Jacinta, Vanda, Maria, Heloísa Helena, Zefinha, e um par de pessoas mais.

Como sempre, aquele vergel, o pátio iluminado pelo sol e ornado de girassóis e todo tipo de plantas medicinais. Era o momento da oração da manhã, no círculo de pedras. Saudamos o dia e nos dispusemos a nos alinhar com o Universo, saudando-nos uns aos outros e ao mundo fora de nós.

Começou a reunião na sala onde outras vezes já nos reuníramos. Todos se apresentaram.Uma música suave e escutávamos a programação do dia. A voz de Heloisa Helena conduzia a que visualizássemos uma cachoeira e víssemos uma cor nela. Cada um depois disse como tinha sido essa experiência. Enseguida falou-se de quem se dispunha a dar e quem a receber massagem ou reiki.

Feitos os pares, parte das pessoas ficaram na sala de vivência, e outra parte foi para a sala ao lado da salinha de barro.

O reiki da irmã Jacinta foi uma sensação muito gostosa de energia e calor na cabeça, depois nos pés e nas mãos e depois no corpo todo. Um adormecimento veio. Pensamentos sobre o tempo da ditadura, as desaparições, o medo, e aquela sensação de que nunca mais a vida sería a mesma. Como que a vida tinha-se quebrado para sempre.

Depois fizemos um lanche, com pão de soja de D. Lourdes, e suco de abacaxi com gengibre. Delicioso. Um clima de união e simpatia.

A massagem de Vanda era segura e profunda. Voltou a tristeza daquilo que não se esquece. A dor de termos sido punidos sem termos cometido qualquer delito, e os culpados soltos e impunes. Respire, respire, escutava a voz de Vanda. Havia mais descontração do que em vezes anteriores. Maria fazia massagem com o pé em Zefinha: “não repare, são pés de lavradora”.

O pátio verdejava de pitangas e insulina. Parecia que o mundo externo não existia. Somente esse recolhimento, essa reunião de amor e saúde comunitária, algo muito bom e muito puro que se compartilhava. Não podia deixar de sentir essa velha dor que tanto custara a descobrir e aceitar na sua vida. O exílio, o estranhamento, não se daqui. Fome, sem casa, sem emprego, sem amigos, sem ... Tempos em que pedira a Deus que tudo lhe tirasse menos a fé. Fora atendida a prece.

Anos depois, o resgate. A descoberta e aceitação do dano sofrido na mente, no coração, na família, na percepção, na sociabilidade. Todos carregam a sua cruz. Todos seguem e deixam marcas. É o caminho humano. Um dia veria a luz. Viria a redenção. Já viera, mas ia e vinha. Voltava a alegria de sentir que a justiça se aproximava, que os genocidas e ladrões seriam julgados e punidos, e os inocentes restaurados. Viera o amor. A amizade. Essa família maior que apenas conhecera lá no distante 1969 no grupo de Alberto e Luciano e Negrita e Hebe e Claudia e Amanda. E agora a raiz era mais profunda. Um sentir pertencer a esta terra, a esta Paraíba, a este João Pessoa, a este Nordeste Brasil. Pachamama. Trá-la-lá. Quando se recebe um elogio, se o devora, aceitando-o.  Nada de “são seus olhos”. Agradeceu a cada um, viu seus rostos uma vez mais “e, fechando seus olhos, orou no silêncio da sua alma. E seu pensamento voou longe sobre o mar”. Relembrou de cada amigo novo na terra nova. Esse renascer abençoado em muitos, essa casa construída nos corações e que se expande. Era um país maior, sem dúvida. Uma pátria como aquela cantada no distante Ande, uma terra prometida onde sempre brilha o sol.

Confiava que chegaria a hora, todo tempo tem sua hora.

O que parecia não ter fim já tinha recuado no tempo. Um país amedrontado e espoliado renascia das cinzas, buscava sua dignidade, ser de novo. Abraçaria a dor como Mamina fizera, fazendo uma flor. Respirou fundo. O céu índigo coalhado de grilos embalava a noite e o som distante de uma cantiga lembrava a despedida da reunião na AFYA. Trá-la-la, via os rostos infantis. Sentia aquela alegria. Tudo passaria.
 

sobre o autor


Rolando Lazarte [elzarat@yahoo.com.br] é sociólogo e escritor, professor aposentado da UFPB, doutor em Ciência (USP, 1993), autor de Max Weber: Ciência e Valores (São Paulo, Cortez Editora, 2001, 2ª edição); colaborador de Nação Brasileira, El Astillero, A Arte da Palavra, La Insígnia.


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