Quando os jornalistas são importantes
Laerte Braga, 10 de agosto, 2003

Mais importantes que os jornais.

O segredo de um bom jornal, nos dias de hoje, quando a leitura é mero adereço para a classe média entupida de verdades distribuídas pela Globo e pela Veja, é um bom jornalista, ou dois bons jornalistas, ou muitos bons jornalistas.

A história do jornalismo no mundo inteiro está repleta de jornalistas maiores que os jornais e se me atenho a jornais, evitando o termo geral mídia, é porque primeiro acho mídia um termo típico do capitalismo e segundo, sou dos que acham que jornais continuam sendo os melhores veículos de comunicação, por pior que sejam.

Você não tem um Elio Gaspari na televisão. Tudo bem que Alberto Dines produz um dos melhores programas da nossa telinha. Resta como exceção, uma delas. A presença de Paulo Francis emprestou à Globo, logo à Globo, vida inteligente durante um bom período. Coisa que Arnaldo Jabor não consegue repetir, tropeça no b, quando começa a recitar o seu alfabeto de bobagens.

Eu me lembro de um jornal televisivo, na antiga Excelsior, magnífico, várias vezes premiado, que juntava desde o próprio Cid Moreira a Luís Jatobá, um cardiologista doublé de jornalista/apresentador a Nelson Rodrigues, Newton Carlos e Sérgio Porto.

Teve momentos memoráveis. Um deles quando um sobrinho de Magalhães Pinto, candidato ao governo do Estado de Minas em 1965 (foi derrotado por Israel Pinheiro), Roberto Resende, corrigiu um termo médico empregado por Jatobá, Resende também era médico e Jatobá insistiu no termo. Como Resende, no afã de mostrar sabedoria se declarou médico, Jatobá foi rápido: “Eu também”.

Ou Sérgio Porto mandando encarar a patroa que o filme que viria a seguir não valia a pena. Por pior que fosse a patroa seria sempre menos ruim que o filme, logo, melhor.

Os principais jornais brasileiros sobrevivem em função de jornalistas num ponto, o que resta de vida inteligente nas redações e cadernos de auto-ajuda e psicanálise de botequim, o outro ponto, o da mediocridade cada dia maior de quem acredita que a vida consiste em escrever para um consultor e pedir explicações sobre como não trair o marido ou a mulher, diante de ímpetos corneadores.

O que é O Globo além de Veríssimo, João Ubaldo aos domingos e Ancelmo Góes, além lógico, de Gaspari? Ou o Jornal do Brasil fora de Villasboas Corrêa, Dora Kramer, Armando Nogueira, Tostão e nos dias que escrevem Emir Sader e Milton Temer? Alias, o JB se divide em dois períodos distintos num primeiro momento: antes e depois de Dines e num terceiro, agora, ladeira abaixo, onde um Nunes faz uma página inteira tentando ser o contraponto de Gaspari. E pensar que o Informe JB já foi escrito, entre outros, por Cícero Sandroni, um dos mais completos jornalistas brasileiros.

E a Folha, para além de Clóvis Rossi, Cony, Jânio de Freitas e a página de Gaspari, ou seu artigo de meio de semana? Um ou outro colaborador e nada mais. O jornalista Sérgio Augusto, notável em tudo o que escreve, migrou para outras paragens, ou sumiu daquelas páginas, não sei. Anda pelo Pasquim, parece.

Sem falar nos que habitam jornais outros, ou regionais, ou estaduais, ou ditos menores. Me refiro a Hélio Fernandes, a Carlos Chagas, mais uns poucos e pronto. Mauro Santayana que ocupa alguns espaços e o faz de forma brilhante.

Nem falo de Millôr Fernandes que pertence à categoria dos iluminados inalcançáveis e que andou por páginas da revista O Cruzeiro (três edições, uma em português, outra em inglês e a terceira em espanhol). Quando Veja vende um milhão de exemplares solta foguetes. O Cruzeiro vendia bem mais que isso todas as semanas. Millôr esteve no JB, na Veja, na própria Folha e ao longo desses anos produziu, não é bem o termo exato, uma das mais impressionantes bibliotecas de sabedoria demolidora e ao mesmo tempo construtora de liberdade.

Eu me recordei de tudo isso e de todos esses notáveis jornalistas ao ler neste domingo, dia 10, a página do Gaspari, onde numa nota pequena o jornalista mostra o receituário do FMI mandando acabar com o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e privatizar os bancos estaduais. Isso nunca vai ser objeto de notícia dos jornais em si, ou de análises da Veja. O Tchan hoje continua sendo aquele negócio de misturar qualquer coisa à ração da vaca que o leite sai já iogurte, ou molho de tomate, sei lá.

Ou o jornalismo da psicanálise reduzida ao pensamento de Paulo Coelho e ao faça isso, faça aquilo e você chega ao topo. Que topo não sei.

Eu sou do tempo que você tietava Flávio Tavares, pela coragem e pela integridade. Ou que Antônio Maria tinha 17 razões para não apertar as mãos de Flávio Cavalcanti.

Ah! A Folha tem o José Simão que ao definir Lucianta Gimenez como tal, definiu também o jornalismo que habita nossos jornais. Simão é notável.
 

sobre o autor


Laerte Braga é jornalista e analista político. [laerte.braga@uol.com.br]


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