Filhos de Deus
Luiz Garcia

Ateu e heterossexual, talvez me pudesse declarar capaz de objetividade e isenção para falar da blitzkrieg iniciada por Roma contra a família homossexual. Mas teria de começar confessando que tenho homossexuais entre as pessoas que amo nesta vida — e também reconheço na Igreja uma força poderosa a favor de um mundo menos louco e cruel. Enfim, não comento com fria tranqüilidade, mas com inquietação e tristeza.

Falo com a angústia de quem tem escassa paciência com o preconceito e — pior ainda — com a falta de bondade na condenação do amor homossexual pelo Vaticano. Principalmente, do veto ao direito de casais homossexuais criarem filhos.

Quem de nós pode, a priori e com segurança absoluta, definir, determinar e atribuir valor a gestos, carências e comportamento que compõem o amor entre seres humanos? Principalmente entre gerações? Há algo mais míope, mais pobre, do que determinar a reprodução da espécie como único ponto de partida e chegada para o amor? As exigências da alma, a carência e a oferta de afeto, não valem, não têm peso?

Quem já não conhece episódios em que filhos criados com amor por casais homossexuais passam pelo teste definitivo (sejamos honestos, heteros e homos: do teste relativo) da felicidade? Desculpem a presunção: já vi e dá certo. Depende das pessoas — como tudo o mais.

Seria ridículo dizer que Roma não entende de amor e de filhos. Certamente entende, com carinho infinito. Mas isso torna mais difícil entender de onde saiu a pétrea premissa de que pai e pai ou mãe e mãe não podem, tanto como pai e mãe (na receita tradicional) unirem-se na formação de uma pessoa feliz? Ou, no vocabulário mais em moda, uma pessoa viável? O Ibope nada informa a respeito. Quem sabe, com todo o respeito, Roma deveria pensar menos em sexo.

Todos conhecemos tragédias familiares em contextos legalmente heterossexuais. Não que tenham sido provocadas pela dupla pai/mãe, mas suficientes para nos convencer de que felicidade ou malogro dependem de muitas coisas mais.

Alguém já disse: pessoas são complicadas.

A Santa Madre, principalmente nos Estados Unidos (não faço a menor idéia por que aconteceu lá, já que o fenômeno ocorre em toda parte, mas os americanos administram culpa com hebréia intensidade), decidiu, com extremo sofrimento, que não era possível esconder a tragédia da pedofilia no clero. Na atual corrida atrás do prejuízo, os americanos com certeza merecem alguma solidariedade. Ou pena.

Já na blitzkrieg contra o amor entre homossexuais e, como crime mais grave, contra o seu desejo de criar filhos, Roma, na modesta porém firme convicção deste ateu, talvez tenha direito a pouco mais do que a caridade destinada aos que, confusos e sem know-how específico, estão metendo os pés pelas mãos.

Luiz Garcia é colunista de O Globo. Publicado em 5 de agosto de 2003. [lag@oglobo.com.br]


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