Na República da Desconversa
Verissimo, 31 de julho, 2003

É assim na República da Desconversa. A pseudoquestão distrai a atenção da questão verdadeira, os escândalos com não-fatos abafam os escândalos de fato. A fala do Stédile substituiu o boné do Lula como tópico dominante na discussão da reforma agrária, e a questão que interessa e o fato que indigna, a ocupação de terra mais aberrantemente injusta do planeta, e o nosso fracasso histórico em encarar essa indecência, ganharam em irrelevância como a reação gosta. A crise da Previdência e a atual guerra pela sua reforma também são resultados de anos de desconversa em que o que precisava ser feito não foi feito, foi só falado, e em vez de história tivemos pseudo-história e retórica.

O gosto brasileiro pela desconversa talvez explique também o gosto pela linguagem figurada, que é quando se usa o vocabulário da ação para significar outra coisa. É curioso que na transcrição fora do Rio Grande do Sul do discurso gravado pela “Zero Hora” do Stédile, que é um torcedor apaixonado do Grêmio, tenham desaparecido suas repetidas referências ao “colorado”, ou torcedor do Internacional, como a sua exortação de sacanear os grandes proprietários como se sacaneia um colorado. Stédile estava gozando com os colorados na platéia, pois custo a crer que só haja gremistas no MST. O termo pode ter sido cortado porque não faria sentido fora do contexto gaúcho, mas quem acha que o Stédile pregava a guerra civil talvez se conforte com a informação de que a eterna rivalidade entre gremistas e colorados não inclui a eliminação física do adversário, por mais que às vezes dê vontade. O ministro do Desenvolvimento Agrário do governo desconversador passado, Raul Jungmann, disse que o governo deveria “baixar o pau” nos sem-terra. Se apressou a acrescentar que isto deveria ser feito com os meios legais disponíveis, e que o pau deveria baixar democraticamente. Ou seja, que estava falando em linguagem figurada. Recentes sugestões de com-terra de que o MST seja tratado como um bando de ratos também devem significar, figurativamente, que eles sejam apenas democraticamente sacaneados.

Lula, parece, aceitou o conselho de evitar os improvisos e tem se cuidado. Talvez se devesse propor ao Stédile, aos proprietários, aos juízes e a todo mundo, uma moratória nacional da linguagem figurada. Até que as coisas esfriem. Quando vier a vontade de usar uma imagem mais forte ou fazer uma piada que pode ser mal interpretada, desconversem.


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