Um museu de obrigações
Zuenir Ventura, 18 de junho, 2003

Já conhecia alguns absurdos do projeto Guggenheim-Rio, mas nada como o dossiê completo, com a íntegra do contrato, a liminar da ação popular e sua aceitação pelo juiz, o recurso da prefeitura e sua rejeição pelo desembargador, sem falar nas análises críticas. Sua leitura leva a uma pergunta: mesmo sem entrar no mérito da iniciativa, e ainda que essa fosse a maneira mais adequada de gastar US$ 133 milhões (lá fora se fala em US$ 250 milhões), por que se submeter a tão drásticas imposições?

Para evitar outras discussões, vamos aceitar a idéia do museu e só falar das condições. A primeira em absurdo obriga a prefeitura a pagar mais de US$ 9 milhões como parcela inicial pelo uso do nome, mesmo que o projeto não saia. O total seria de US$ 40 milhões, mas depois que a editora de arte do Wall Street Journal, Lee Rosenbaum, denunciou que isso significaria o dobro do que foi cobrado a Bilbao, o preço baixou para US$ 28.650.000.

Uma outra cláusula exige que o município se comprometa a cobrir os déficits operacionais do museu durante dez anos, ou US$ 12 milhões anualmente. Além dos US$ 2,1 milhões que já pagamos pelo estudo de viabilidade, pagaremos 12.563.000 de euros (mais de R$ 48 milhões) ao arquiteto Jean Nouvel. Durante a construção, o município ainda vai remunerar a Fundação Guggenheim pela supervisão das obras em mais de US$ 4 milhões, divididos em parcelas de US$ 836 mil anuais, de 2003 até 2007. Como lembrou o juiz João Marcos Fantinato ao conceder a liminar, o contrato cria obrigações financeiras que vão muito “além do mandato da atual administração municipal”.

“NY Times”, “Economist”, “Village Voice” não entendem como o Rio vai comprometer um volume tão grande de recursos numa fundação falida, com filiais sendo fechadas, como a de Las Vegas. A não ser, insinua um dos críticos, que essa operação seja justamente para resolver uma situação financeira que o próprio presidente da entidade, Peter Lewis, classificou de “uma bagunça”.

Há outras extravagâncias, como a de que todas as exposições serão custeadas por meio da Lei Rouanet, totalizando US$ 9 milhões por ano, o que hoje representaria 70% de todos os recursos para as artes plásticas. Em compensação, calcula-se uma freqüência de 910 mil pessoas por ano a um preço de entrada de US$ 3,10 (o Corcovado, o nosso maior cartão-postal, atrai 750 mil). Por falta de espaço, só mais uma: Cesar Maia estima que cada pessoa vá gastar no Rio, “em sua permanência mobilizada pelo museu”, mil dólares por dia. Se não for um erro de impressão, é uma fantasia segundo a qual o Gugg atrairia não turistas, mas benfeitores.


O Globo | RJ | Brasil

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