Pena de morte
Xico Vargas, 29 de julho, 2003

O assassinato do traficante Márcio Amaro de Oliveira deveria ficar marcado na história do Rio de Janeiro pela decretação de luto na cidade inteira e pela organização da mais solene das passeatas de protesto. Marcinho VP, de 33 anos, era um bandido que a sociedade condenou e entregou ao governo do Estado para que o mantivesse numa cadeia de segurança máxima por 42 anos. O governo descumpriu a ordem e o matou. Pela 40ª. vez nos últimos dois anos o Estado trocou a sentença que a sociedade escolheu pela pena de morte. A cidade pode até não querer ver, porque a visão é aterradora, mas os sinais são bem claros: quando mostra que já não controla o crime nem em suas repartições o governo está confessando que o crime é maior do que ele.

Difícil esperar outro resultado quando perde o cargo um comandante de batalhão da PM que denuncia o secretário de estado que lhe havia pedido para refrescar a vida de uma quadrilha de traficantes. Isso para ficar nos episódios mais rumorosos. Ou alguém já esqueceu que os mesmos jornais nos quais a governadora Rosinha anunciou a criação de salões de beleza, onde se poderá refazer a estampa por R$ 1, revelaram que em Sepetiba 1, favela plantada por seu marido num lamaçal, meninas de 12 anos oferecem sexo por R$ 1,99. Deve ser realmente curta a memória da sociedade há um par de meses escandalizada com a revelação de que os bandidos presos não perdiam o controle de seus negócios nos morros.

Na execução de Marcinho VP, o Departamento do Sistema Penitenciário interceptou um telegrama que anunciava o crime, mas não lhe deu importância. Morto o bandido, o secretário de Administração Penitenciária, Astério dos Santos, admitiu com candura que “é normal” matarem-se pessoas que a sociedade mandou o Estado trancafiar e ficar de olho. O que mais deve aguardar a cidade? Quea governadora atribua a culpa aos Correios pela entrega do telegrama? A instalação de meia centena de câmeras nas prisões anunciada há meses?

O que não é difícil perceber é que a segurança do Rio vem sendo tocada no gogó. Os jornais estampam, sem questionar, qualquer lorota que lhes conte o secretário de segurança. Não? Então ganha um doce quem souber o paradeiro ou localizar os resultados do espetacular trabalho de patrulhamento da cidade que seria feito por cinco helicópteros por R$ 600 mil mensais. Os jornais dedicaram páginas a essa bobagem e a ninguém ocorreu perguntar como seria possível vigiar o tráfico nas favelas com câmeras de curto alcance e a zoeira de um helicóptero.

Talvez a vontade de acreditar que alguma solução virá – além dos restaurantes, hotéis e salões de beleza a um real – nos faça acreditar nessas ficções. Só não são ficções as mortes, como a da funcionária da Dataprev ou a tetraplegia da estudante da Universidade Estácio de Sá. O resto é gogó puro. Como a invenção da figura do “encontro de cadáver”, para extrair das estatísticas de homicídio as vítimas cujos corpos os criminosos jogam nas ruas e lixeiras da cidade. Aí está: em qual das colunas se registra a morte de Marcinho VP? Afinal, apesar de estar ameaçado e de a direção de uma cadeia de segurança absoluta saber disso ninguém, além dos autores, o viu morrer. Por quase oito horas ficou desaparecido até o corpo ser localizado numa lixeira. Caso típico de “encontro de cadáver”, não?

Só não se pode descuidar de um aspecto importante da administração que é favorável à governadora. Rosinha Garotinho talvez seja a única governante do país que, em momento algum, enganou os eleitores. O presidente governa na contra-mão de todos os discursos de campanha. O prefeito se elegeu com a promessa de um “choque de ordem” na cidade e o Rio está como se vê todos os dias. Rosinha, não. Sempre disse que seu governo seria uma continuação do que havia feito o marido. Ainda não chegou à metade e já cumpriu a promessa. Está exatamente igual.


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