| Quarenta anos de polêmica, ousadia
e reconhecimento
O Globo, 1 de junho, 2003 Há quase 40 anos uma das principais intelectuais dos Estados Unidos, a escritora americana Susan Sontag, de 70 anos, voltou a ser notícia depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. A oposição ao status quo político americano a fez surgir como uma das principais articuladoras do movimento intelectual contrário à Guerra do Vietnã (1959-1975, com participação americana desde 1961). Porém, em 2001, sua visão racional dos fatos a fez voltar a surpreender uma parte do país — e a chocar muitas pessoas — que ainda estava assustado depois dos atentados terroristas. Na edição de 24 de setembro da revista “The New Yorker”, ela se tornou a primeira pessoa a afirmar que, de certa forma, quem poderia ser responsabilizado pelos ataques seria o próprio governo americano. Denunciando haver uma campanha para infantilizar o público, ela perguntou: “onde está o reconhecimento de que este não foi um ataque ‘covarde’ à ‘civilização’ ou à ‘liberdade’ ou à ‘Humanidade’ ou ao ‘mundo livre’, mas um ataque à auto-proclamada superpotência do mundo, realizado em conseqüência de alianças e ações específicas dos EUA?”. E completou: “vamos sofrer juntos, mas não nos deixemos ficar idiotas juntos”. Sontag tem diversos livros publicados, variando de ficção e ensaios a estudos sobre cultura moderna. Teceu comentários sobre assuntos tão diferentes quanto a estética fascista, a Aids, fotografia e literatura pornográfica. Ela esteve presente também na Guerra do Vietnã, como correspondente, e por três anos esteve nos Bálcãs, durante as guerras que desmantelaram a antiga Iugoslávia, na maior parte do tempo na cidade sitiada de Sarajevo. Integrante da Academia Americana de Letras desde 1979, ela recebeu diversos prêmios literários nacionais e internacionais. No mês passado, ganhou o Príncipe de Astúrias, do governo da Espanha, um dos mais importantes do mundo. ‘Uma guerra sem fim’ A metralhadora giratória de Susan Sontag permanece mais ativa do que nunca. O alvo preferencial ainda é o governo de George W. Bush. Segundo ela, os Estados Unidos tentam criar um modo de eternizar o estado de alerta, já que, como a pobreza e as drogas, é impossível acabar com o terror. É o que chama de guerra sem fim. O ditador cubano, Fidel Castro, que recentemente prendeu 78 dissidentes, também é alvo de seus petardos. Porém, os disparos cessam quando o assunto é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva: “Algo de bom aconteceu”. O governo americano invadiu o Iraque sem apresentar provas contra Saddam; rotulou os ataques terroristas contra os EUA como um crime contra a Humanidade, mas retirou a assinatura do tratado que criou o Tribunal Penal Internacional; e afirmou que os terroristas são cruéis e covardes, mas não respeita a Convenção de Genebra na prisão de Guantánamo. Ainda assim, o presidente Bush mantém mais de 60% de aprovação no país. O que está acontecendo com o povo americano? SUSAN SONTAG: Acredito que esta não foi uma guerra legítima, os motivos apresentados eram falsos. Os americanos declararam que não se consideram atados a qualquer tratado internacional. Assim, estão violando a Convenção de Genebra ao construir esta Ilha do Diabo, este pequeno gulag que é Guantánamo. A questão é: por que Bush é popular? Por que não há críticas a isso tudo? Há uma pretensão de que os EUA devam ser um império, que alguns países não precisam obedecer às regras. Isso é uma velha tradição nos EUA. Temos uma tradição isolacionista e imperialista que data dos anos 1840, quando os americanos invadiram o México e tomaram metade do país. Nos EUA há, essencialmente, apenas um partido político. Não temos um partido de oposição, que represente um ponto de vista diferente. O Partido Democrata, na prática, cometeu suicídio. Não tem a coragem de representar um outro ponto de vista. Assim, a mídia está completamente dominada pelo ponto de vista que apóia o governo Bush. É muito difícil para as pessoas terem uma idéia mais crítica. O cidadão médio é ignorante em qualquer lugar. Um cidadão médio não tem um profundo conhecimento de política e história. Ele tem de ouvir outras pessoas inteligentes e atraentes articulando um outro ponto de vista. Pessoas que foram eleitas, que fazem parte da classe política. Pode-se ter escritores ou colunistas em alguns jornais, mas isso não é suficiente. Se as visões da oposição não são representadas por integrantes ativos da classe política, a maior parte das pessoas irá presumir que tudo o que está acontecendo tinha de estar acontecendo. Qual é a visão da maioria das pessoas? “Estamos ameaçados, temos de nos proteger. Saddam é o responsável pelo 11 de Setembro”. Semanas atrás,
durante a entrega do prêmio Príncipe das Astúrias de
literatura, a senhora chamou Bush de “serial killer”...
Hoje em dia a palavra
terror seria uma substituta para a palavra comunismo para este governo?
Estão usando, ou criando, esta ameaça para manipular a opinião
pública?
E, assim, Bush anuncia que a primeira vitória na guerra contra o terrorismo foi a conquista do Iraque. E isso nada tem a ver com a realidade. Os EUA não se comprometeram, com dinheiro e soldados, o suficiente para governar o Iraque. Querem é ter quatro bases permanentes no Iraque. Na minha opinião, este foi o motivo pelo qual o Iraque foi escolhido: era o mais fraco dos países do Oriente Médio e aquele que tinha o mais odiado ditador. Tinha um Exército muito fraco e não tinha armamentos. E os americanos sabiam disso. Fingiam que era uma ameaça, mas era o oposto. O que os EUA querem são suas bases e o petróleo. O que a senhora acha da
decisão do Conselho de Segurança da ONU, que permitiu a ocupação
anglo-americana do Iraque?
Depois de suas declarações,
e de outros intelectuais, sobre a recente perseguição de
Fidel Castro a dissidentes, ele tentou se explicar, se justificar...
O fato de Fidel Castro
ter sido um parâmetro para pensadores de esquerda durante décadas
devido à sua resistência aos EUA pode ter tornado difícil
para algumas pessoas ficar contra ele agora? Por exemplo, Gabriel García
Márquez?
A senhora já publicou
livros em que analisa o uso da imagem. Tornou-se mais forte o uso da imagem
pelos governos devido à ameaça do terrorismo? Usa-se mais
as imagens para conseguir credibilidade?
A questão não são as fotos, mas quais fotos, o que as pessoas estão vendo e qual é o contexto político no qual elas vêem estas fotos. A cobertura da guerra foi diferente em outros países. E não necessariamente pelo fato de o governo estar a favor ou contra a guerra. A Inglaterra é como o 51 estado americano. E, mesmo assim, a cobertura da BBC era muito mais dura e mais verdadeira que a americana. O grande problema é o que jornais e TVs escolhem publicar. Há muita censura ou muita moldagem do que é relatado na mídia. E, assim, a mesma foto pode ser usada de modos diferentes. No fim de tudo, são as palavras que contam, não as fotos. As fotos não falam por si mesmas. Há relatos de pessoas
que tiveram problemas pessoais ou no emprego por terem externado posições
contrárias ao governo desde o 11 de Setembro nos EUA. Isso é
verdade?
Qual o significado da
vitória de Lula no Brasil, em sua opinião?
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