| Susan Sarandon, a mulher
destemida
Jaime Biaggio, O Globo, 28 de julho, 2003 Susan Sarandon nunca foi de fugir de encrenca. Muito pelo contrário até, como bem ilustram as fotos espalhadas nesta página: ela é bem o tipo de celebridade que tira férias do estrelato procurando se inteirar do que está acontecendo pelo mundo. Pois, precisamente por saber muito bem o que anda acontecendo pelo mundo, ela não anda nada satisfeita com o que está acontecendo em seu próprio país. — O tipo de censura que está havendo neste país atualmente não é nem institucionalizado. É autocensura, o que é algo muito mais triste e difícil de se lidar — diz ela, conversando sobre o clima político nos Estados Unidos, a propósito de uma menção ao seu protesto silencioso contra a guerra na última cerimônia do Oscar. “As pessoas estão com medo de falar” Naquela ocasião, quando a atriz, de quem se esperava algum discurso veemente, limitou-se a fazer um sinal de paz e amor com os dedos, a história mais amplamente divulgada foi a de que o presidente da Academia, Frank Pierson, tentou impedir os apresentadores de protestar contra a guerra (na cerimônia, ele mesmo abordaria o tema, o que acabou pegando mal). — Ele não pediu isso — esclarece ela. — Nem precisou, porque as pessoas tinham muito medo de falar alguma coisa. Só não falei mais porque não consegui pensar em nada que eu já não tivesse dito antes. Eu estava distribuindo broches de diferentes organizações para quem quisesse usá-los e muita gente não queria nem usar um broche. Isso tem a ver com o clima do país, o risco do massacre das rádios que propagam o ódio se você diz alguma coisa. Hora de perguntar: você acha que a liberdade de expressão corre riscos nos Estados Unidos hoje? — Sim — é a resposta, e dá para sentir a tristeza na voz. — Certamente. Curioso é que a rápida conversa telefônica do GLOBO com Susan Sarandon era por conta de um papel de mãe, um dos três que ela fez em 2002, o último a chegar aos cinemas brasileiros: “A estranha família de Igby”, que estréia por aqui no dia 8 de agosto (os anteriores foram “Doidas demais” e “Vida que segue”, lançados aqui no início deste ano e no fim do ano passado, respectivamente). Ainda que o papel seja bom — é uma mãe rica, difícil de lidar, tão ausente quanto disposta a cobrar dos filhos (Ryan Philippe e Kieran Culkin, irmão mais novo de Macaulay, que vive o tal Igby). Mas é difícil resistir à tentação de discutir outros assuntos quando se trata de alguém com quem a conversa rende. Com Susan Sarandon não tem “tudo começa com um bom roteiro” nem “o importante é que eu confiava no diretor”. As respostas são dela, não do departamento de marketing. Assim, do clima político nos Estados Unidos, passou-se para a responsabilidade social dos filmes, em especial dos filmes históricos, num momento em que se lê muito pouco mundo afora. Ela, porém, prefere falar em responsabilidade do espectador diante do que está assistindo, chamando a atenção para o fato de que todo filme é político. A resposta é longa, mas vale a pena ler de cabo a rabo. Em especial se você assiste a filmes de Susan Sarandon só porque “ela trabalha muito bem”. — As pessoas tendem a só denominar políticos filmes que desafiam o status quo, mas todo filme nos diz algo, todo filme reforça ou desafia alguma afirmação sobre o que significa ser um homem, o que querem as mulheres, o que é justo, o que é engraçado, quem são os gays. Hollywood e os críticos só chamam de políticos os filmes que desafiam o status quo, mas quando você o reforça, está fazendo um trabalho tão bom quanto. Por isso, o espectador precisa estar muito atento ao que vê, ao que o filme que você vê está dizendo, e isso inclui comédias, filmes de entretenimento. “O professor aloprado” é um filme incrivelmente político, que põe a platéia torcendo para que o cara permaneça gordo. E ela disse “gordo”. Não “horizontalmente avantajado” ou coisa parecida. Faz diferença. — Isso inverte completamente o clichê de qual deve ser a aparência de um herói, como um homem deve ser. Pense. Pense.
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