Paulista, quem diria, trabalha menos que carioca
Mirelle de França, O Globo, 12 de maio de 2002

Os dados preliminares do Censo 2000 derrubaram de vez o mito de que o morador do Rio trabalha pouco. E mais: de que no estado se trabalha menos do que em São Paulo. Os números divulgados na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que 44,3% da população fluminense ocupada - 2,39 milhões de pessoas - cumprem jornada de 45 horas semanais ou mais. No vizinho, que se orgulha de ser a "capital do trabalho", o percentual é de 43,5%. A proporção registrada no Rio ainda supera a média nacional nessa faixa de horas trabalhadas, que é de 43,7%, ou 27,8 milhões de trabalhadores.

A Constituição Federal determina que a jornada de trabalho semanal não pode ultrapassar 44 horas. Esses trabalhadores, no entanto, não necessariamente estão trabalhando além do permitido. Eles podem estar fazendo hora extra ou até mesmo declararam ao Censo o número total de horas trabalhadas em mais de um emprego.

Número superior de autônomos eleva jornada
De acordo com o economista e presidente do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), André Urani, há duas décadas a jornada dos trabalhadores brasileiros vem caindo, mas a do Rio teve uma redução menor do que a de São Paulo. "O carioca tem fama de preguiçoso, mas isso não é verdade. Os trabalhadores do Rio têm escolaridade superior à dos paulistas, trabalham mais, mas em compensação costumam ganhar menos", disse Urani.

O economista explica que um fator que pode justificar a proporção de trabalhadores com jornada superior a 45 horas no estado é o número elevado de autônomos: do total da população ocupada do Rio, 19,7% trabalham por conta própria, contra 18,5% em São Paulo. Esses trabalhadores, segundo Urani, têm horário mais flexível, porém acabam cumprindo uma jornada maior, como os taxistas, por exemplo.

O tamanho das empresas paulistas, com grande concentração de indústrias, também pode explicar o fato de a jornada paulista ser inferior à fluminense. "Empresas de grande porte e indústrias costumam cumprir mais a legislação trabalhista, até porque a fiscalização em relação a elas tende a ser maior" afirmou o economista.

Urani ressalta, no entanto, que, como o período de referência da pesquisa do Censo 2000 foi o fim de julho, época de férias escolares, a jornada de trabalho no Rio pode ter aumentado em função de fatores sazonais. Ou seja, trabalhadores cumprindo mais horas para atender demanda turística, por exemplo.

Na comparação regional, a jornada é mais longa nos estados do Centro-Oeste, com 31% dos empregados cumprindo 49 horas semanais ou mais. Já no Nordeste, um terço dos trabalhadores trabalha até 39 horas. Entre as crianças entre dez e 14 anos que trabalham, mais de 70% dão expediente de até 40 horas. Essa proporção é de 42,7% entre os empregados com 70 anos ou mais.

A jornalista carioca Luciana Aló, funcionária de uma grande operadora de telefonia, costuma cumprir as 44 horas semanais, mas volta e meia se excede no horário para executar alguma tarefa. "Às vezes chego a trabalhar nove horas quando é necessário", disse. No país, no entanto, ainda está entre os homens a maior proporção dos que trabalham mais de 45 horas: 50%, contra 33,1% entre as mulheres.

De acordo com os dados do Censo, Luciana, de 35 anos, está na faixa etária que concentra o maior número de mulheres que tem um emprego (entre 35 e 39 anos): de cada cem, 63,8 trabalham . Para ela, que é chefe de família, os homens ainda têm algumas vantagens no mercado de trabalho: "Melhorou muito, mas os homens costumam ganhar mais e nem sempre aceitam receber ordens de mulher. Só que competência não tem relação com o sexo do funcionário", disse.

Outra característica marcante do mercado de trabalho fluminense é a alta concentração de pessoas com rendimento acima de 20 salários-mínimos. O Rio é o segundo estado com a maior proporção de pessoas com renda acima de R$ 3 mil (em 2000, quando foi realizado o Censo o salário-mínimo vigente era de R$ 151). São 4,6% do total, ou 324,1 mil pessoas. Perde apenas para o Distrito Federal, onde a proporção é de 8,9%. Nesse contingente entram não apenas os trabalhadores, mas também aposentados e pensionistas, por exemplo. Já entre os que trabalham, o percentual dos que ganham acima de 20 salários é de 3,9%, também o segundo maior do país, totalizando 206,5 mil pessoas.

Aposentados e pensionistas favorecem concentração
A diferença entre os dois grupos que ganham acima de 20 salários - 117,6 mil pessoas - é o total de fluminenses com renda acima de R$ 3 mil que não trabalham. Essa concentração no estado pode ser explicada pelo elevado número de aposentados e pensionistas no estado. "O percentual de idosos no Rio é muito alto. A maior parte é funcionário público inativo (conseqüência de a cidade ter sido capital do país), cuja renda é elevada, e isso explica a grande proporção de pessoas que recebem mais de 20 salários e não trabalham", disse o economista Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), ao ressaltar que o grande número de funcionários públicos ativos e inativos é um traço comum entre o Distrito Federal e o Estado do Rio.

Já o percentual de trabalhadores que ganham até um salário-mínimo no Rio é baixo em comparação com outros estados: 15,2% (807 mil pessoas). No Piauí, esse percentual chega a 59,4% do total de trabalhadores. A maior concentração no Rio está na faixa salarial entre um e dois salários-mínimos: 26,5% da população ocupada.


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