Rótulos
Renato Kress

Hoje acordei fauvista, dei uma boa e velha espreguiçada cubista e, entre tropeços construtivistas entrei no banho. Ah, aquele meu banho impressionista pela manhã! Depois, à mesa do café, quase não conseguia pensar com toda a discussão anarquista das crianças. Antes de qualquer coisa excrachei um espirro totalitarista pra mostrar quem é que manda. Silêncio purista.

Voltei para o quarto depois de umas bananas conceitualistas e um copo de leite abstrato, adquiri indumentária minimalista. Tava de motorista, meu dia de levar as pequenas niilistas na creche. Deixei na porta e dei uma puta arrancada expressionista. Treze minutos atrasado e aquele estacionamento orfista não ajuda em nada.

Elevador e ascensorista. Meia dúzia de cumprimentos cineticistas depois, alcanço meu cubículo. À mesa meia dúzia de laudas vorticistas que não quero ver agora. Sono. Levanto e me esgueiro de stijlista até a mesinha de café. Nada bom. Está cercada pelos “market gurus” e suas compressões verbais dadaístas. Como bom crapuleto, sei que não posso me misturar a ala dos “market gurus”, estaciono alguns segundos na parede opista do cubículo tentando verificar estrategicamente uma forma futurista de alcançar a cafeína, mesmo porquê esse não é  andar dos “market gurus”. Estava decidido a caminhar suprematista até lá e raspar o tacho da térmica que já estava no seu último suspiro naturalista, mesmo que, de desesperada, a atitude pudesse se revelar surrealista...

Renato Kress é co-autor da revista Consciência.Net, escritor e abomina rótulos. Publicado em primeiro de agosto, 2003.


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