Relatório detalha
horrores em fazenda de deputado do Rio
O resultado da fiscalização do Ministério do Trabalho em cinco fazendas, entre elas a do presidente da Assembléia do Rio, Jorge Picciani, constatou trabalho escravo, maus-tratos a menores e abandono de empregados doentes. Apesar da gravidade da denúncia, a Alerj ainda não tomou providência. Marcelo Auler, Agência Carta Maior, 22 de julho, 2003
Atualmente, a terceirização é impedida nas chamadas atividades fins de uma empresa. A aprovação deste PL – contra o qual já se colocaram os técnicos do Ministério do Trabalho – impediria uma maior fiscalização, impulsionaria o trabalho informal, transformando em exceção a carteira assinada, segundo admitiu o deputado federal Tarcísio Zimmerman (PT-RS) ao jornal O Dia. Leonardo, como seu pai, o presidente da Assembléia Legislativa do Rio, Jorge Picciani (PMDB), se apresenta no site da Câmara como produtor rural. Os Piccianis são donos de, ao menos, cinco fazendas, quatro no Estado do Rio e uma em São Félix do Araguaia, no chamado Bico do Papagaio, no norte do Mato Grosso. Ali funciona um latifúndio para a criação de gado Nelore da Agrovas – Agropecuária Vale do Suiá S/A –, cujo presidente é Jorge Picciani e o diretor tesoureiro, seu filho Leonardo. Na Agrovas, no dia 24 de junho, a Fiscalização Móvel do Ministério do Trabalho – grupo composto por auditores fiscais do trabalho, policiais federais, e uma procuradora do trabalho – encontrou 56 empregados. Destes, apenas um tinha a carteira assinada, o gerente da fazenda, Antônio Alves dos Santos. Quatorze, entre eles uma professora primária, embora funcionários da Agrovas, não tinham registro. Outros 41 trabalhavam pela prática denominada “servidão por dívida”, que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) classifica como a mais disseminada forma de escravidão contemporânea, conforme salienta o Relatório da Fiscalização, de 16 laudas, ao qual a Agência Carta Maior teve acesso, assinado pela coordenadora do grupo de fiscais, a auditora fiscal do trabalho Marinalva Cardoso Dantas. Ou seja, Leonardo, na Câmara, defendeu a legalização de uma situação já praticada em pelo menos uma das fazendas de sua família. Estes 41 peões estavam em quatro frentes de trabalho, cada uma delas comandada por um “empreiteiro” – o chamados “gato” –, responsável pela arregimentação e contratação irregular de mão-de-obra para o trabalho braçal. Um primeiro grupo, de cinco trabalhadores, subordinados ao empreiteiro conhecido como Elias, cuidava de uma construção civil junto à sede da fazenda, localizada na BR-080, conhecida como Espigão do Leste. Dentre estes, estava Geneci Barbosa Glória, acidentado há cinco dias sem receber nenhuma assistência e sem ter sido dispensado do trabalho. Não mereceu socorro médico nem mesmo do dono das terras, Jorge Picciani, que no domingo (22/06), de aviãozinho particular, esteve na fazenda. Outros dois peões acidentados foram encontrados no meio da mata e, apesar da promessa dos advogados dos Piccianis de providenciar o atendimento médico imediato e o exame dos peritos, nada foi feito quase um mês depois da fiscalização, já que os três esperavam por providências na porta da fazenda, segundo denunciaram para Marinalva. Outros dois grupos, coordenados pelos gatos Edivaldo de Paula Brandão e João Pereira Lima, o Juca, faziam o desmatamento das terras, em duas frentes de trabalho distantes da sede da fazenda. Um quarto “empreiteiro”, conhecido como Manuelão, controlava os peões encarregados da construção e manutenção das cercas, imprescindíveis nas propriedades com gado. A fiscalização móvel, naquela semana, esteve em cinco fazendas e encontrou 140 trabalhadores em condições escravas em quatro delas. Na única não autuada a inspeção já era esperada. “Eles retiraram os outros peões quando souberam que estávamos na região”, diz a coordenadora do grupo de fiscais, a auditora fiscal do trabalho Marinalva. Os Piccianis não foram os únicos políticos autuados. As fazendas Tatuibí e Rio Fontoura, ambas em São Félix do Araguaia, onde estavam 125 trabalhadores sem registros – 80 como escravos – pertencem a Wander Carlos de Souza, prefeito da cidade de Acreúna (GO). O relatório de Marinalva sobre a fazenda Agrovas, entregue semana passada à coordenadora da Secretaria de Fiscalização do Ministério do Trabalho, Ruth Vilela, relaciona cinco itens – fora a falta de documentos legais sobre a titularidade das terras – que caracterizam trabalho escravo. O que acontecia ali era comum nas outras fazendas autuadas. Empreiteiros ou gatos
Dependência econômica
Este esquema perverso já faz o trabalhador entrar no serviço devendo. O gato Edivaldo Brandão, por exemplo, contava com a pousada de sua irmã junto à rodoviária de Espigão do Leste, onde a família tem armazém e restaurante, locais em que a dívida dos peões começa a ser contabilizada. A fiscalização identificou uma dupla de trabalhadores que antes de trabalhar devia à família de Edivaldo R$ 700. Pelo relatório de Marinalva, alguns gerentes das fazendas também se beneficiam deste esquema. Edivaldo, por exemplo, assinou junto a Agrovas um recibo de R$ 70 mil, mas só levou R$ 35.309. O restante foi usado para saldar um débito dele com o gerente Antônio por conta do fornecimento de motoserras, (R$ 12.070), material para o uso delas (R$ 7.183) e compras no armazém (R$ 2.438). O relatório conlui: “Edivaldo deve compensar seus “prejuízos” com a revenda das motoserras aos seus peões e no alto preço das compras no armazém, na hospedagem e no restaurante da família. Assim, ele não tem perdas e o gerente tem um recibo para apresentar ao patrão, de R$ 70 mil”. Impossibilidade de deixar
o serviço
Condições
degradantes de trabalho
No meio deste acampamento no mato estava um menor, Igor, que embora não trabalhasse, era mantido “sem acesso aos direitos que estavam sendo concedidos aos filhos dos trabalhadores residentes na sede, simplesmente porque seus pais eram “braçais”, numa discriminação iníqua (...) ele residia no acampamento do “gato” Edivaldo, sem acesso a nenhum dos direitos fundamentais da criança, mantido no mato como um animalzinho silvestre domesticado, sem defesa contra ataques de qualquer animal selvagem ou peçonhento, ou mesmo contra raios, já que sua tenda era de plástico preto e não tinha portas para serem trancadas. Seus pais ainda tinham que ser constrangidos a morarem coletivamente com outros homens, sem nenhuma privacidade, que todo casal requer. Igor sequer tinha o direito de conhecer as outras crianças que moravam bem, estudavam, viam TV, brincavam e se socializavam, na mesma fazenda em que ele vivia”, relatou Marinalva. Retenção
dos Salários
Informalidade dos contratos
de trabalho
Apesar de já no final de junho esta história ser conhecida, até agora nem a Assembléia Legislativa, comandada por Jorge Picciani, nem a Câmara Federal, onde está seu filho, Leonardo Picciani, tomaram providência. No Rio, o Movimento Humanos Direitos, criado por artistas como Osmar Prado, Marcos Winter e Letícia Sabatela, intelectuais e religiosos já solicitou uma audiência pública no Legislativo para investigar o caso, mas dificilmente a maioria dos parlamentares, que é controlada por Picciani, permitirá que isto aconteça. Apesar de todas as evidências do trabalho escravo, eles fecharão os olhos e deixarão tudo por conta da Polícia Federal e da Justiça, como se não tivesse ocorrido também falta de decoro parlamentar.
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