Caostemporaneidade
Renato Kress, 3 de agosto, 2003
 
Estive prestando atenção em quantas vezes ouço ou leio a palavra “caos” nos livros, jornais e revistas quando escritores, articulistas ou “especialistas” de todas as áreas se detém a falar sobre a contemporaneidade. Diria que se trata de um tema cult hoje em dia, estando presente em congressos, livros, discussões acadêmicas e mesmo conversas de bar.

Penso até que ponto trata-se de modismo ou mesmo até que ponto não se verifica como uma exigência da realidade conjuntural dentro da aceleração da oferta de estímulos estéticos em todos os campos. 

Mas que caos é esse, ou que mudança se opera na subjetividade atual e que possa estar nos fazendo “ler” o caos e não a ordem, ou formas distintas de ordem à nossa volta? Todo ambiente sociocultural é feito de um conjunto dinâmico de universos. Universos que produzem diversas relações dialéticas com a subjetividade, mesmo porque são formados por essas mesmas subjetividades.

Um pouco de sociologia...

A cada universo que se incorpora, novas sensações entram em cena e um novo mapa de relações se estabelece. Por exemplo: quando numa família a filha apresenta o namorado aos pais, a nova díade passa a ser compreendida como portadora de novos papéis que serão esperados de ambos. Da filha já se espera que modifique, em certa forma, seu comportamento dentro de casa quando o namorado estiver presente (por exemplo, que não ande muito à vontade) e o mesmo se espera dos pais e do namorado. São novos papéis que os atores sociais recebem. Obviamente isso não implica de forma alguma na necessidade de modificar a forma pela qual cada uma das subjetividades se compreende e se reconhece.

Ocorre que, na medida em que diversas mudanças desse tipo se acumulam, pode tornar-se excessiva a tensão entre as diversas leituras que se tenha da própria subjetividade, ou mesmo do papel a se representar em determinado ambiente, frente a uma personalidade específica – nossos chefes, amigos, primos – ou seja, a sensibilidade de nossa subjetividade fica inquieta, o ato de repensá-la a cada momento instiga confusão interna, a sensação do caos.

Provas

As mosquinhas borboleteavam pela bosta no asfalto e a caixa-de-marcha do mundo tava lá, impassível. O corpo do capetal cresceu, envelheceu – vai morrer. O íntimo da zona sul carioca tem uma visão tão “Bentinha” dessa bebedeira filosófico-econômica toda que eu até chego a discomer meu Ninho Soleil pra relativizar o corpo de um baseado (em fatos reais), mas a rua não me responde nada. As crianças, nas casinhas pelo campus da PUC, com seu ar Scooby-Doo de quem sabe alguma coisa que eu não sei, são todas iguais. Como eu não sou poeta se não escrevo como Gullar, escrevo agora um pequenininho ao estilo do mestre:

Fuselagem

Hoje pela Nossa Senhora correu um 737
pelo espelho dos olhos 
                                     de um mendigo

entre a Paula Freitas e meu estômago
                                                      oco
correu o transe 
                       naquelas veias secas
                       daquele esqueleto e carbono

o reflexo do verso da fuselagem
                               e do sono.

Assim como não seria ninguém se não provasse. Nada de sociologia até diploma. Nada de letras até livro. Nada de verso até isso acima. Sem licença até um soneto. Sem habilitação até DETRAN. Sem vida até o luto. Meu eu em estado absoluto.

Renato Kress
2003-02-18

Inquietação = caos?

É visível a extensão desse “repensar a subjetividade na contemporaneidade” quando da percepção reincidente de que há, até mesmo na sensação de “caos”, uma inquietude que impele a formação de um novo aspecto subjetivo, de uma leitura do sujeito que abarque consistentemente sua realidade sensível, esta que em si parece sempre em formação, vaga, indiscernível e indescritível em longo prazo. É a percepção do ser em momento digladiando-se com a necessidade, construída por extensa base filosófica, do ser em essência.

A densidade e a praticamente infinita diversidade de universos sociais e culturais que se miscigenam em cada subjetividade torna suas figuras e suas linguagens obsoletas como num passe de mágica, forçando uma permanente reconfiguração. Dentro desse prisma pode-se perceber o quanto a subjetividade se percebe precária e incerta.

O normal e o patológico

Na modernidade essa situação era vivenciada através do medo de não se adequar ao mapa absolutizado de uma ordem considerada “normal” do sujeito. Medo de ser anormal, de fracassar ou enlouquecer. Conceitos que tanto a literatura quanto a filosofia, ciências mais flexíveis, mais preparadas para funcionar no desenho institucional da contemporaneidade, põem constantemente em xeque.

Atualmente, a experiência da desestabilização já se intensificou e disseminou a um ponto em que não pode mais ser associada à doença sem incorrermos na dura perspectiva de que estamos todos doentes, de que somos todos anormais. O que leva a relativizar: anormais em relação a qual “normalidade”? – Um ponto talvez para um artigo futuro: Até que ponto as tribos das culturas urbanas da contemporaneidade não surgem de uma dificuldade de aceitar a diferença, de uma dificuldade em aceitar a atomização, o processo intrínseco e inevitável de socialização de cada persona (não compreendida como máscara, mas como forma específica conjuntural do sujeito), de cada ator social? – O medo hoje não se justifica mais pela simples tensão frente à idéia de não se pertencer, de não se encaixar no mapa da normalidade, já que se multiplicaram infinitamente os próprios mapas onde o sujeito pode se alocar. O medo, ainda presente, é o de não conseguir organizar a própria configuração de todo, frente ao excesso de estímulos que possam vir a interessar e que, nem sempre estão presentes no mesmo mapa: o que impede um ser humano de interessar-se por – ou mesmo de crer em – cultura chinesa, I-CHING, psicanálise, astrologia, budismo, kardecismo e gnomos? Ele mesmo.

A existência das intralógicas, da estruturação lógica interna do próprio sujeito, no processo de subjetivação está ainda alçando seu espaço dentro da perspectiva social das interlógicas, das lógicas sociais. Boa parte dessa questão se resolve na compreensão e no respeito, possibilidades de engenharia mental que têm sido relegadas a segundo plano pelos Estados Unidos desde a eleição de George Walker Bush e do 11 de setembro, que já causou mais mortes fora dos EUA do que o próprio incidente com os aviões.

Síndrome do Pânico!

Um sintoma precioso dessa perda de referenciais que possibilitem uma configuração mínima do sujeito é a experiência que a psiquiatria batizou de “síndrome do pânico”, que ocorre quando a desestabilização é levada a tal ponto de exacerbação que se ultrapassa o limiar da tolerância, gerando um trauma. Produz-se então uma ameaça imaginária de descontrole de forças, que parecem prestes a precipitar-se em qualquer direção. Promovendo um caos psíquico, moral, social, e, antes de tudo, orgânico.

Como ficam nossos conceitos?

Ordem e equilíbrio, por exemplo. Um tende a não mais se identificar com o outro. A idéia de equilíbrio implica a concepção de subjetividade reduzida à consciência de suas representações e esse tipo de concepção passa a ser inoperante, já que não permite fazer frente às importantes mudanças que se produzem no campo das sensações.

O par estabilidade/instabilidade tende a ser abandonado, aparecendo em seu lugar a idéia de metaestabilidade: uma estabilidade que se refaz a partir de rupturas, de bifurcações (multiplicações e não dicotomias) de sentido, incorporando as composições de forças responsáveis por cada uma dessas rupturas.

O problema dos universais

Ao mesmo tempo as idéias de previsibilidade e de escolhas, são alvos do fascínio niilista pelo caos, que propõe a pulverização como bandeira de ordem. No total há uma anestesia aos efeitos disruptivos da radical disparidade entre caos e ordem, e essa anestesia impede a construção de novos mundos a partir da riqueza de hibridizações que se fazem possíveis.

Conhecer deixa de ser o exercício de busca de uma verdade – o que não quer dizer que tudo seja relativo e que não haja escolhas a se fazer em função de uma certa previsibilidade. Não se trata mais de estabelecer um método de conhecimento que garanta a previsibilidade, com o qual se traça o mapa teórico de um mundo em equilíbrio, eliminando o que dele destoa. Implica perguntar-se como, dentro da permanente mutabilidade, é possível arquitetar uma confluência que se direcione a um determinado fim que, em essência, é também conjuntural.

O Caos pela luneta

O caos visto de longe, como explicitação psicanalista, “possui uma trama ontológica específica, feita da multiplicidade de forças em movimento, de atração e repulsa, as quais formam composições que engendrarão as figuras ordenadas da subjetividade. (...) o caos é o âmbito das gêneses das figuras da subjetividade, ele é portador de linhas de virtualidade” – Suely Rolnik, psicanalista, doutora e psicologia social. Professora da PUC-SP.

É essencial termos a percepção de que as tramas formadas pelas superfícies rizomáticas ou em rede (expressas em artigo anterior) são perfeitamente passíveis de tornarem-se universos diferentes em cada pólo da contemporaneidade. Mesmo as diferenças são partes ativas do sistema, na medida em que delineiam o perfil da igualdade, em cada ponto móvel da trama.

E o sujeito, como se sujeita?

Trata-se enfim de compreender o sujeito em sua dupla-face: por um lado a sedimentação estrutural e, por outro, a agitação caótica dos devires, através dos quais outros e estranhos “eus” desfilam, com outros contornos e outras possibilidades, outras estruturas, territórios. Tais visões compõem as diferentes subjetividades, ou os diferentes momentos de uma mesma subjetividade.

Do lado de todos: propõem-se as identidades globalizadas flexíveis, em torno das quais as subjetividades são levadas a se reconfigurar, se quiserem se inserir em alguma órbita do capitalismo mundializado.

Do lado de cá: é proposta a afirmação das identidades locais e fixas, de ordens geográficas, sexuais, raciais, religiosas, culturais. São as minorias militantes.

O sujeito? Se sujeita aí.

Muito joio e pouco trigo... felizmente!

“Conhecimento é poder” – Hobbes (1588-1679), Leviatã.

Engraçado que o velho Thomas, não tenha utilizado a palavra “informação”, mas sim “conhecimento” quando definiu a essência do poder na frase acima. Prefiro não ter que definir poder como a capacidade de realizar seu arbítrio, direta ou indiretamente, por meio de influências, lobbys, etc, mas sim me aprofundar na esfera da questão de, diante do mundo acima exposto, qual seria a melhor maneira de transformar o tsunami de informações cotidianas em conhecimento, e portanto, útil?

Há um conceito básico da economia que é de grande auxílio na resposta a essa questão. Diz respeito principalmente a atmosfera cronológica. Trata-se do conceito de “trade-off”, que prega que, para que possamos efetuar uma tarefa, devemos necessariamente renunciar a outra. O tempo gasto para escrever esse artigo poderia ser aproveitado em horas de sono, por exemplo, ou no término da leitura de “A volta ao mundo em 80 dias”, de Júlio Verne, que comecei pela manhã de hoje.

Mas pode ficar calmo(a), caro(a) consciente.net. Não pense em paradoxos instantâneos que com certeza travariam qualquer um. O cérebro humano se encarrega de efetuar esses cálculos, a cada momento. Existem milhares de estímulos a cada milímetro das calçadas, televisões, outdoors isso sem falar na pagoda do consumismo: o shopping. A quantidade de dados é absurda, e, na ausência de um foco por parte do consumidor, gera ansiedade e angústia. 

Um pouco de Robin Hood...

As pessoas mais vulneráveis ao acúmulo de informações, de estímulos diversos sem (aparentemente) nenhuma conexão entre eles, são as que possuem centros de interesse pouco – algumas vezes quase nada – definidos. Um leque muito aberto de interesses consumistas, ao contrário do que ocorre no campo dos estudos, como dito em meu artigo anterior, é o que embrutece o mecanismo delicado de garimpo do aparelho cerebral.

Em verdade, a informação só é excessiva quando não alcança um campo de interesse que a receba. O excesso só é sentido quando o estímulo vaga sem destino pela mente. Como se, num computador, não tivéssemos pastas ou arquivos e deixássemos cada um dos nossos textos, figuras, músicas, desenhos ou qualquer outra sorte de documentos soltos na área de trabalho, uns por cima dos outros. Assim como podemos ter várias pastas ou mesmo vários arquivos, também podemos ter diversos centros de interesses. Nem sempre a angústia é privilégio dos mais sujeitos à informação, na maioria das vezes ela se avizinha dos que se indefinem na procura ou na arrumação interna dessas informações.

Não, não é você. Eu é que... preciso de um tempo.

Uma das frases mais temidas entre os casais de namorados nos dias de hoje. Até que ponto ela não implica um “sinal dos tempos”? Segundo Domenico de Masi, sociólogo italiano e diretor da Faculdade de Ciência e Comunicação da Universidade La Sapienza de Roma, devemos começar diminuindo o consumo, já que a questão principal da economia, para os tempos atuais, não é a produção de riqueza, mas a sua distribuição. E como diminuir o consumo, como resistir aos apelos siliconados, musculosos ou com ar blasé dos modelos comerciais? (Uma questão: qual modelo não é comercial?)

Quantas funções têm o seu computador? Quantos programas? Quantos deles você utiliza? Quantos canais têm a sua televisão? Você se vicia, se condiciona a percorrer sempre os mesmos? Segundo Domenico, agora que já se tem tantas coisas é chegada a hora de apreciá-las. Será que, preocupando-se em conhecer melhor nossas próprias posses, não daríamos um tempo no consumismo?

Quantos livros da sua estante você já leu? Poucos? Isso te aflige? Quem sabe não seja a maneira pela qual se encaram esses livros?

“A principal característica da atividade criativa é que ela praticamente não se distingue do jogo, no sentido de diversão, e do estudo, na percepção de que sempre estamos aprendendo alguma coisa na vida. Quando trabalho, estudo e jogo coincidem, estamos diante da síntese que eu chamo de ‘Ócio Criativo’”. – Domenico de Masi.

Nosso modelo ensina que trabalho é sofrimento. Pode parecer um tanto pessimista, mas creio que seja uma questão de puro ponto de vista. Crer no ludens do trabalho não é uma forma apologeta de se justificar a dimensão árdua das tarefas cotidianas, nem uma forma de transformar-nos em cordeirinhos do espectro vilanesco do capitalismo neocolonizador. Talvez seja apenas uma boa maneira para mantermos a sanidade num mundo que, em realidade, nos exige posturas e respostas imediatas, mastigadas e pré-concebidas. E, quem sabe, a partir da sanidade – afinal de contas, se bem me lembro de ser criança (hoje pela manhã) uma das melhores partes da brincadeira está no segredo – não deixar que percebam que estamos brincando, que estamos nos interessando, criando, dando vazão a mais do que ao estímulo-resposta programado pelo cerebelo e que esperam de nós. 

Talvez passemos menos tempo nos consultórios dos psicólogos – e quem sabe levantemos questões mais instigantes e precisas neles também –, nas seções de auto-ajuda das livrarias, decorando a casa com Feng-Shui, colocando setenta e sete tipos diferentes de incenso para cada momento do dia, ou visita em especial. Diminuindo o turbilhão à volta poderíamos descobrir que o raio dos círculos em que estamos circunscritos é muito mais extenso, que ele envolve uma díade (marido-mulher), uma tríade ou tétrade ou mesmo um meio social que não estávamos levando em consideração. Menos insanos, celerados, podemos nos dedicar a conhecer o que temos, a cuidar das políticas, a cobrar dos funcionários públicos, que são os políticos. A cobrar que não sejamos lesados, vilipendiados1.
 
 
 
 


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para saber mais
Conhecimento
: O que vem a ser conhecimento? Podemos optar pelos dicionários, meus acompanhantes em todas as beberagens literárias: ´saber´, do latim conocemento. [Dicionário Etimológico Nova Fronteira]; ‘discernimento, critério’, [Dicionário Aurélio]; saber seguro de uma conjuntura, que se pode provar e corresponder à realidade (...) processo de perceber e pensar, que conduz ao saber de uma conjuntura. [Dicionário de Psicologia Dorsch].

De todas fico com a imagem de Hobbes, que conhecimento nada mais é do que informação com significado, ou seja, com um fim de utilidade. O que, em última instância corrobora a pretensão de poder, na acepção de que determinado conhecer possibilita um leque mais vasto, ou mais restrito (mas que no caso poderia ser utilizado também como forma de não se perder tempo em certas empreitadas) de ações frente a uma determinada meta.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
para saber mais
Ler
é um costume – mesmo o funcionamento “por impulso” na leitura, funciona melhor se estamos mais acostumados a enfrentar o mundo das letras diariamente. Até porque aumentam nossas referências e perspectivas acerca de determinadas obras, assuntos e formas de se abordar.

 
para saber mais
[1] Vilipendiar
v.trans. Tratar com desprezo; menosprezar.

 
 
 
 
o autor
Renato Kress
é co-autor da revista Consciência.Net, escritor, poeta, contista, estudante de ciências sociais da PUC-Rio e canhoto.