| Inquietação
= caos?
É visível a
extensão desse “repensar a subjetividade na contemporaneidade” quando
da percepção reincidente de que há, até mesmo
na sensação de “caos”, uma inquietude que impele a formação
de um novo aspecto subjetivo, de uma leitura do sujeito que abarque consistentemente
sua realidade sensível, esta que em si parece sempre em formação,
vaga, indiscernível e indescritível em longo prazo. É
a percepção do ser em momento digladiando-se com a necessidade,
construída por extensa base filosófica, do ser em essência.
A densidade e a praticamente
infinita diversidade de universos sociais e culturais que se miscigenam
em cada subjetividade torna suas figuras e suas linguagens obsoletas como
num passe de mágica, forçando uma permanente reconfiguração.
Dentro desse prisma pode-se perceber o quanto a subjetividade se percebe
precária e incerta.
O normal e o patológico
Na modernidade essa situação
era vivenciada através do medo de não se adequar ao mapa
absolutizado de uma ordem considerada “normal” do sujeito. Medo de ser
anormal, de fracassar ou enlouquecer. Conceitos que tanto a literatura
quanto a filosofia, ciências mais flexíveis, mais preparadas
para funcionar no desenho institucional da contemporaneidade, põem
constantemente em xeque.
Atualmente, a experiência
da desestabilização já se intensificou e disseminou
a um ponto em que não pode mais ser associada à doença
sem incorrermos na dura perspectiva de que estamos todos doentes, de que
somos todos anormais. O que leva a relativizar: anormais em relação
a qual “normalidade”? – Um ponto talvez para um artigo futuro: Até
que ponto as tribos das culturas urbanas da contemporaneidade não
surgem de uma dificuldade de aceitar a diferença, de uma dificuldade
em aceitar a atomização, o processo intrínseco e inevitável
de socialização de cada persona (não compreendida
como máscara, mas como forma específica conjuntural do sujeito),
de cada ator social? – O medo hoje não se justifica mais pela simples
tensão frente à idéia de não se pertencer,
de não se encaixar no mapa da normalidade, já que se multiplicaram
infinitamente os próprios mapas onde o sujeito pode se alocar. O
medo, ainda presente, é o de não conseguir organizar a própria
configuração de todo, frente ao excesso de estímulos
que possam vir a interessar e que, nem sempre estão presentes no
mesmo mapa: o que impede um ser humano de interessar-se por – ou mesmo
de crer em – cultura chinesa, I-CHING, psicanálise, astrologia,
budismo, kardecismo e gnomos? Ele mesmo.
A existência das intralógicas,
da estruturação lógica interna do próprio sujeito,
no processo de subjetivação está ainda alçando
seu espaço dentro da perspectiva social das interlógicas,
das lógicas sociais. Boa parte dessa questão se resolve na
compreensão e no respeito, possibilidades de engenharia mental que
têm sido relegadas a segundo plano pelos Estados Unidos desde a eleição
de George Walker Bush e do 11 de setembro, que já causou mais mortes
fora dos EUA do que o próprio incidente com os aviões.
Síndrome do Pânico!
Um sintoma precioso dessa
perda de referenciais que possibilitem uma configuração mínima
do sujeito é a experiência que a psiquiatria batizou de “síndrome
do pânico”, que ocorre quando a desestabilização é
levada a tal ponto de exacerbação que se ultrapassa o limiar
da tolerância, gerando um trauma. Produz-se então uma ameaça
imaginária de descontrole de forças, que parecem prestes
a precipitar-se em qualquer direção. Promovendo um caos psíquico,
moral, social, e, antes de tudo, orgânico.
Como ficam nossos conceitos?
Ordem e equilíbrio,
por exemplo. Um tende a não mais se identificar com o outro. A idéia
de equilíbrio implica a concepção de subjetividade
reduzida à consciência de suas representações
e esse tipo de concepção passa a ser inoperante, já
que não permite fazer frente às importantes mudanças
que se produzem no campo das sensações.
O par estabilidade/instabilidade
tende a ser abandonado, aparecendo em seu lugar a idéia de metaestabilidade:
uma estabilidade que se refaz a partir de rupturas, de bifurcações
(multiplicações e não dicotomias) de sentido, incorporando
as composições de forças responsáveis por cada
uma dessas rupturas.
O problema dos universais
Ao mesmo tempo as idéias
de previsibilidade e de escolhas, são alvos do fascínio niilista
pelo caos, que propõe a pulverização como bandeira
de ordem. No total há uma anestesia aos efeitos disruptivos da radical
disparidade entre caos e ordem, e essa anestesia impede a construção
de novos mundos a partir da riqueza de hibridizações que
se fazem possíveis.
Conhecer deixa de ser o exercício
de busca de uma verdade – o que não quer dizer que tudo seja relativo
e que não haja escolhas a se fazer em função de uma
certa previsibilidade. Não se trata mais de estabelecer um método
de conhecimento que garanta a previsibilidade, com o qual se traça
o mapa teórico de um mundo em equilíbrio, eliminando o que
dele destoa. Implica perguntar-se como, dentro da permanente mutabilidade,
é possível arquitetar uma confluência que se direcione
a um determinado fim que, em essência, é também conjuntural.
O Caos pela luneta
O caos visto de longe, como
explicitação psicanalista, “possui uma trama ontológica
específica, feita da multiplicidade de forças em movimento,
de atração e repulsa, as quais formam composições
que engendrarão as figuras ordenadas da subjetividade. (...) o caos
é o âmbito das gêneses das figuras da subjetividade,
ele é portador de linhas de virtualidade” – Suely Rolnik, psicanalista,
doutora e psicologia social. Professora da PUC-SP.
É essencial termos
a percepção de que as tramas formadas pelas superfícies
rizomáticas ou em rede (expressas em artigo anterior) são
perfeitamente passíveis de tornarem-se universos diferentes em cada
pólo da contemporaneidade. Mesmo as diferenças são
partes ativas do sistema, na medida em que delineiam o perfil da igualdade,
em cada ponto móvel da trama.
E o sujeito, como se sujeita?
Trata-se enfim de compreender
o sujeito em sua dupla-face: por um lado a sedimentação estrutural
e, por outro, a agitação caótica dos devires, através
dos quais outros e estranhos “eus” desfilam, com outros contornos e outras
possibilidades, outras estruturas, territórios. Tais visões
compõem as diferentes subjetividades, ou os diferentes momentos
de uma mesma subjetividade.
Do lado de todos: propõem-se
as identidades globalizadas flexíveis, em torno das quais as subjetividades
são levadas a se reconfigurar, se quiserem se inserir em alguma
órbita do capitalismo mundializado.
Do lado de cá: é
proposta a afirmação das identidades locais e fixas, de ordens
geográficas, sexuais, raciais, religiosas, culturais. São
as minorias militantes.
O sujeito? Se sujeita aí.
Muito joio e pouco trigo...
felizmente!
“Conhecimento é poder”
– Hobbes (1588-1679), Leviatã.
Engraçado que o velho
Thomas, não tenha utilizado a palavra “informação”,
mas sim “conhecimento” quando definiu a essência do poder na frase
acima. Prefiro não ter que definir poder como a capacidade de realizar
seu arbítrio, direta ou indiretamente, por meio de influências,
lobbys, etc, mas sim me aprofundar na esfera da questão de, diante
do mundo acima exposto, qual seria a melhor maneira de transformar o tsunami
de informações cotidianas em conhecimento, e portanto, útil?
Há um conceito básico
da economia que é de grande auxílio na resposta a essa questão.
Diz respeito principalmente a atmosfera cronológica. Trata-se do
conceito de “trade-off”, que prega que, para que possamos efetuar uma tarefa,
devemos necessariamente renunciar a outra. O tempo gasto para escrever
esse artigo poderia ser aproveitado em horas de sono, por exemplo, ou no
término da leitura de “A volta ao mundo em 80 dias”, de Júlio
Verne, que comecei pela manhã de hoje.
Mas pode ficar calmo(a),
caro(a) consciente.net. Não pense em paradoxos instantâneos
que com certeza travariam qualquer um. O cérebro humano se encarrega
de efetuar esses cálculos, a cada momento. Existem milhares de estímulos
a cada milímetro das calçadas, televisões, outdoors
isso sem falar na pagoda do consumismo: o shopping. A quantidade de dados
é absurda, e, na ausência de um foco por parte do consumidor,
gera ansiedade e angústia.
Um pouco de Robin Hood...
As pessoas mais vulneráveis
ao acúmulo de informações, de estímulos diversos
sem (aparentemente) nenhuma conexão entre eles, são as que
possuem centros de interesse pouco – algumas vezes quase nada – definidos.
Um leque muito aberto de interesses consumistas, ao contrário do
que ocorre no campo dos estudos, como dito em meu artigo anterior, é
o que embrutece o mecanismo delicado de garimpo do aparelho cerebral.
Em verdade, a informação
só é excessiva quando não alcança um campo
de interesse que a receba. O excesso só é sentido quando
o estímulo vaga sem destino pela mente. Como se, num computador,
não tivéssemos pastas ou arquivos e deixássemos cada
um dos nossos textos, figuras, músicas, desenhos ou qualquer outra
sorte de documentos soltos na área de trabalho, uns por cima dos
outros. Assim como podemos ter várias pastas ou mesmo vários
arquivos, também podemos ter diversos centros de interesses. Nem
sempre a angústia é privilégio dos mais sujeitos à
informação, na maioria das vezes ela se avizinha dos que
se indefinem na procura ou na arrumação interna dessas informações.
Não, não é
você. Eu é que... preciso de um tempo.
Uma das frases mais temidas
entre os casais de namorados nos dias de hoje. Até que ponto ela
não implica um “sinal dos tempos”? Segundo Domenico de Masi, sociólogo
italiano e diretor da Faculdade de Ciência e Comunicação
da Universidade La Sapienza de Roma, devemos começar diminuindo
o consumo, já que a questão principal da economia, para os
tempos atuais, não é a produção de riqueza,
mas a sua distribuição. E como diminuir o consumo, como resistir
aos apelos siliconados, musculosos ou com ar blasé dos modelos comerciais?
(Uma questão: qual modelo não é comercial?)
Quantas funções
têm o seu computador? Quantos programas? Quantos deles você
utiliza? Quantos canais têm a sua televisão? Você se
vicia, se condiciona a percorrer sempre os mesmos? Segundo Domenico, agora
que já se tem tantas coisas é chegada a hora de apreciá-las.
Será que, preocupando-se em conhecer melhor nossas próprias
posses, não daríamos um tempo no consumismo?
Quantos livros da sua estante
você já leu? Poucos? Isso te aflige? Quem sabe não
seja a maneira pela qual se encaram esses livros?
“A principal característica
da atividade criativa é que ela praticamente não se distingue
do jogo, no sentido de diversão, e do estudo, na percepção
de que sempre estamos aprendendo alguma coisa na vida. Quando trabalho,
estudo e jogo coincidem, estamos diante da síntese que eu chamo
de ‘Ócio Criativo’”. – Domenico de Masi.
Nosso modelo ensina que trabalho
é sofrimento. Pode parecer um tanto pessimista, mas creio que seja
uma questão de puro ponto de vista. Crer no ludens do trabalho
não é uma forma apologeta de se justificar a dimensão
árdua das tarefas cotidianas, nem uma forma de transformar-nos em
cordeirinhos do espectro vilanesco do capitalismo neocolonizador. Talvez
seja apenas uma boa maneira para mantermos a sanidade num mundo que, em
realidade, nos exige posturas e respostas imediatas, mastigadas e pré-concebidas.
E, quem sabe, a partir da sanidade – afinal de contas, se bem me lembro
de ser criança (hoje pela manhã) uma das melhores partes
da brincadeira está no segredo – não deixar que percebam
que estamos brincando, que estamos nos interessando, criando, dando vazão
a mais do que ao estímulo-resposta programado pelo cerebelo e que
esperam de nós.
Talvez passemos menos tempo
nos consultórios dos psicólogos – e quem sabe levantemos
questões mais instigantes e precisas neles também –, nas
seções de auto-ajuda das livrarias, decorando a casa com
Feng-Shui, colocando setenta e sete tipos diferentes de incenso para cada
momento do dia, ou visita em especial. Diminuindo o turbilhão à
volta poderíamos descobrir que o raio dos círculos em que
estamos circunscritos é muito mais extenso, que ele envolve uma
díade (marido-mulher), uma tríade ou tétrade ou mesmo
um meio social que não estávamos levando em consideração.
Menos insanos, celerados, podemos nos dedicar a conhecer o que temos, a
cuidar das políticas, a cobrar dos funcionários públicos,
que são os políticos. A cobrar que não sejamos lesados,
vilipendiados1.
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