Sérgio Benevides (PMDB): A indignação dos eleitores
A decisão da Assembléia Legislativa de livrar o deputado Sérgio Benevides (PMDB) da cassação causou indignação generalizada nas ruas de Fortaleza. Durante todo o dia de ontem, o assunto foi comentado em tom de frustração e revolta. Representantes de entidades ligadas à Educação articulam reação. Cidicley Miranda da Redação, O Povo (CE), 5 de julho, 2003


A população de Fortaleza amanheceu comentando a decisão da Assembléia Legislativa de absolver o deputado Sérgio Benevides (PMDB), acusado de envolvimento no desvio de R$ 1,8 milhão destinado à compra de merenda escolar. A repercussão sobre o caso gerou revolta e críticas negativas em todos os lugares. Dentro dos ônibus, nas praças, durante o cooper, no trabalho e nos bares, o assunto principal era a votação na qual a Assembléia livrou Sérgio da cassação. Foram 20 votos favoráveis à perda do mandato, 15 contra, nove em branco e dois nulos. Para cassar o deputado, seriam necessários 24 votos.

''Coincidentemente estava perto da Assembléia ontem (quinta-feira) à noite, no momento da votação. Pelo clima, tinha como certa a cassação. Mas, infelizmente, o jornal deu outra realidade'', afirmou o técnico em informática, Emílio Moreno, 27. ''Por onde andava, senti que a população estava meio que anestesiada diante do caso. Todos estavam revoltados e surpresos''.

Assim como Emílio, o educador Hilton Santos, participante do Fórum pela Educação da Praia do Futuro, disse não saber como explicar para as crianças da creche que administra a absolvição do deputado ''responsável pelo desvio do dinheiro destinado a elas''. ''Psicologicamente, ficamos abalados. Como explicar o funcionamento de uma estrutura política de pouca moral?', indagou.

Até os deputados estaduais que disseram ter votado a favor da cassação foram alvos de críticas. Menos de 24 horas depois da absolvição de Benevides, Francisco Aguiar (PPS), presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembléia, já enfrentava o sentimento de revolta dos cearenses. O primeiro constrangimento aconteceu durante a manhã, na garagem do prédio onde mora, quando um senhor o abordou e pediu explicações sobre o resultado da votação.

O segundo foi no trânsito, voltando da Assembléia para casa. ''O motorista de uma caçamba me reconheceu e disse: 'deputado, que vergonha, como é que vocês fazem um negócio desses?. E eu respondi: o senhor tem razão. Eu estou morrendo de vergonha com a posição da Assembléia'', disse Aguiar. De acordo com ele, não há como ignorar o erro histórico cometido pelos representantes do povo. ''Estou há 20 anos na Assembléia e nunca me senti nessa situação. Tenho medo de sair de casa com a minha família e ser hostilizado'', afirmou.

A noite ontem para o presidente da Assembléia, deputado Marcos Cals (PSDB), deveria ter sido de comemoração. Concludente do curso de Sociologia, ele era um dos milhares de formandos da Universidade de Fortaleza (Unifor). Mas no final de seu discurso, resumiu o sentimento de decepção que contagiou os cearenses. ''Me incluo na parte da sociedade que se sentiu frustrada''.

Diante do clima de indignação geral, vários representantes de entidades se reuniram ontem, no pátio da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Ceará (UFC), para começar a articular ações contra a decisão dos deputados estaduais, que avaliam como ''descompromissada'' com o interesse público. ''O sentimento é de decepção. Que tipo de postura ética os deputados têm a oferecer à nossa juventude?', questiona Ruth Cavalcante, do Centro de Desenvolvimento Humano (CDH).

Cerca de 20 entidades estão envolvidas no movimento. ''Como os deputados assumiram uma posição contrária à nossa vontade, a sociedade agora vai assumir a frente da luta. Unidos, temos a capacidade de representar o desejo de justiça. Isso não pode e nem vai ficar desta forma'', afirmou Guilherme Sampaio, da Comissão Interinstitucional pelo Direito à Educação de Qualidade Social. (Colaborou Déborah Lima)


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