O boné e o latifúndio
Frei Betto, 10 de julho, 2003

Não é o boné do MST na cabeça do presidente da República que deveria causar tanto ruído, mas a existência do latifúndio num país de dimensões continentais como o Brasil, onde mais de 4 milhões de famílias foram expulsas de suas terras nos últimos 30 anos. Hoje, 1% dos proprietários rurais detém 44% das terras cultiváveis do país. Assim como fomos o último país das três Américas a abolir oficialmente a escravidão, passaremos à história com mais este débito, o de ser o último a realizar a reforma agrária.

O MST é um movimento legítimo que encarna uma causa justa. Jamais apelou à violência, embora tenha cometido abusos, como a invasão do sítio do ex-presidente FHC, em Buritis (MG). Mas nunca se viram militantes armados e encapuzados, como as milícias de jagunços contratados por latifundiários. Os métodos do MST são pacíficos e seguem a mesma inspiração da desobediência civil das lutas de Gandhi na África do Sul e na Índia, e de Martin Luther King, nos EUA.

O governo Lula jamais deixará de dialogar com todos os setores da sociedade brasileira, incluindo os movimentos sociais. E agirá, sem relutância, em defesa da lei, igual para todos. Porém, o que mais preocupa o governo não são as repercussões políticas de um boné, mas o latifúndio, as terras improdutivas, as famílias acampadas e assentadas. Daí o Fome Zero, que já atendeu mais de 600 comunidades de sem-terras, investindo R$ 6,7 milhões em cestas básicas, e o empenho na reforma agrária.

A partir deste mês, ficam liberados para a safra 2003/2004 R$ 5,4 bilhões. Da agricultura familiar o governo comprará, ainda este ano, R$ 400 milhões em arroz, feijão, mandioca, milho e trigo. Cada família poderá vender ao governo até R$ 2,5 mil em alimentos. Para os beneficiários do Pronaf, a taxa anual de juros variará de 1% a 7,5%. E o pequeno produtor do semi-árido, que tiver perda de 50% ou mais na safra de milho, arroz, feijão, mandioca e algodão, já tem direito ao seguro-safra, no valor de R$ 475,00.

O plano nacional de reforma agrária está sendo formatado pelo governo Lula, com a participação de todos os segmentos interessados. No futuro, a nação, agradecida, haverá de tirar o boné para o modo como este governo trata a questão fundiária. E o MST será, como os quilombos, parte da história do passado. Porque já não haverá muitas terras para pouca gente, nem muita gente para poucas terras.
 

sobre o autor


Frei Betto é coordenador, junto com Oded Grajew, da Mobilização Social do Programa Fome Zero e autor de "Por que nós, brasileiros, dizemos Não à guerra" (Planeta), coletânea enriquecida por Ana Maria Machado e Joel Birman, entre outros.


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