Quais são as idéias fortes da esquerda?
[ Marco Aurélio Weissheimer ]

A história recente mostrou que o neoliberalismo é uma idéia muito forte. Quais são mesmo as idéias fortes de que a esquerda dispõe para enfrentar esse modelo e construir uma sociedade onde a lógica da mercadoria não acabe por levar à interdição da própria política? Agência Carta Maior, 23 de julho, 2003


O deputado português Francisco Louçã, do Bloco de Esquerda, disse durante um seminário no Fórum Social Mundial 2003 que o neoliberalismo é uma idéia muito forte, que penetrou profundamente em praticamente todas as dimensões da vida humana. Feito esse rápido diagnóstico, acrescentou: a esquerda, para derrotar esse modelo, precisa também de idéias fortes. A pergunta singela que surge a partir da constatação de Louçã, é: quais são mesmo as idéias fortes da esquerda hoje para derrotar o neoliberalismo e construir uma sociedade que não seja hegemonizada pela lógica do lucro, do consumo e da mercadoria?

A esmagadora maioria dos intelectuais de esquerda concorda que não há hoje uma teoria consistente e articulada que aponte o caminho de saída do neoliberalismo. Emir Sader, em seu livro “A Vingança da História”, diz que o neoliberalismo, ao promover o triunfo do economicismo, produziu ao mesmo tempo um cemitério teórico. “Para quê teoria, se os índices do mercado afirmam o que é e o que pode ser; o que vale a pena e o que não adianta; o que é bom, bonito e legítimo?”, indaga. O corolário fundamental desse modelo seria, portanto, a interdição da própria política, compreendida como o espaço democrático de uma soberania. Ou seja, se a situação é tal que a lógica do mercado não pode ser afrontada, não há espaço para a política e, portanto, para a democracia. E, em última instância, para a liberdade.

Essa idéia é defendida também pela cientista política Ellen Wood, da Universidade York, de Toronto. Em seu livro “Democracia contra Capitalismo”, Wood sustenta que o capitalismo tornou-se um sistema econômico e social que retira gradativamente mais e mais esferas da vida social do controle popular e democrático. Consolidado como sistema hegemônico, ele impõe os princípios e constrangimentos próprios da lógica do capital. A esquerda não escapou incólume da força desse modelo, diz a cientista política. Segundo ela, “os intelectuais de esquerda, quando não abraçam o capitalismo como o melhor dos mundos possíveis, limitam-se a sonhar com pouco mais que um espaço nos seus interstícios e prescrevem apenas resistências locais e particulares”. E Wood acrescenta, em tom de lamento crítico: “no exato momento em que se necessita urgentemente de uma compreensão crítica do sistema capit alista, grandes seções da esquerda intelectual, em vez de desenvolver, enriquecer e refinar os instrumentos conceituais necessários, dão amplos sinais de que pretendem abandoná-los”.

Crise política e teórica

Sader faz eco às palavras de Wood, assinalando que “a crise hegemônica gerada pela realização e pelo conseqüente esgotamento do neoliberalismo – como política e como modelo de sociedade – é ao mesmo tempo uma crise política e teórica, que requer práticas políticas novas e novas capacidades de elaboração teórica”. E identifica aí o deserto teórico no qual perambulam boa parte da intelectualidade crítica e da esquerda partidária. A primeira, segundo Sader, ficou prensada “entre o isolamento e a fragmentação acadêmica e a impotência das denúncias”. A segunda, na medida em que foi mergulhando na institucionalidade, “foi se distanciando cada vez mais do meio intelectual, formulando suas posições mais em função do debate político propriamente dito do que da produção teórica”. Para Sader, o maior partido de esquerda da América Latina, o PT, não escapou desse caminho. Nos seus 23 anos de existência, propõe, o PT não chegou a construir sua própria teoria: “sua prática política não iluminou uma nova prática teórica, não definiu novas problemáticas nem orientou novas modalidades de produção intelectual”, optando, progressivamente, por um “caminho empírico e pragmático”.

O tema não chega a ser exatamente novo na história da esquerda. No início do século XX (1900, mais precisamente), Rosa Luxemburgo publicou o livro “Reforma ou Revolução”, onde polemiza com Bernstein, líder e teórico da social-democracia alemã, que se propunha a revisar as velhas teses do socialismo alemão, defendendo a renúncia da idéia de uma transformação radical da sociedade. No ensaio “O oportunismo na teoria e na prática”, Rosa Luxemburgo pretende identificar as raízes da prática política da social-democracia alemã. Segundo ela, a principal característica dessa prática é a hostilidade à teoria. Ela é própria, defende a autora, daqueles que “buscam somente resultados práticos imediatos para libertar-se, isto é, separar nossa prática da teoria, tornar uma independente da outra”. As reflexões de Rosa Luxemburgo - sem precisar comprar o pacote completo do debate sobre “ref orma ou revolução?” - impõem uma pergunta fundamental que diz respeito à natureza própria da ação política: é possível (e/ou desejável) agir politicamente sem uma teoria? Ou dito de outro modo, é possível dissociar a prática política de idéias e conceitos? Voltamos aqui à formulação de Louçã. Se o que define em boa parte a esquerda hoje é a tentativa de superação do modelo capitalista neoliberal, ela pode prescindir de idéias e conceitos fortes nesta empreitada?

A democracia como tarefa

Assim como há concordância entre a maioria dos intelectuais e ativistas de esquerda de que não há uma teoria consistente que aponte o caminho de saída do neoliberalismo, também há um razoável consenso sobre a existência de uma correlação de forças desfavorável à esquerda, tanto em nível nacional quanto internacional. Aliás, correlação de forças desfavorável é uma velha companheira histórica da esquerda. No Brasil, a vitória de Lula não foi o resultado de um grande processo de mobilizações populares, exigindo do PT a articulação de um amplo leque de alianças, inclusive com setores conservadores do espectro político, com um custo considerável em termos programáticos e de manutenção da governabilidade. Considerando a ausência de teoria e essa correlação de forças desfavorável, é razoável perguntar sobre quais idéias fortes a esquerda brasileira dispõe hoje para enfrentar o monumental desafio de governar o país.

Quais foram mesmo as lições que a esquerda teve com suas derrotas no século XX? Uma delas foi a compreensão da necessidade de incorporar a idéia de democracia no seu programa e na sua prática cotidiana. Um duro aprendizado, sem dúvida, pois o exercício da democracia na vida e na luta política cotidiana é, antes de mais nada, uma tarefa, e como tal, permanente e sempre inacabada, que desafia e confronta limites, contradições e vaidades de todo gênero. O PT nasceu embalado por essa idéia, fazendo a crítica do stalinismo e das experiências socialistas do leste europeu. E surgiu como algo radicalmente novo no cenário político nacional, colocando no horizonte a radicalização da democracia como forma de luta e objetivo estratégico. As experiências de democracia participativa que surgiram, também a partir dessa crítica, expressam a materialização política dessa idéia forte que constitui a própria identidade do PT e da esquerda que fez a lição de casa do século XX.

Se tudo o que foi dito até aqui é razoável, podemos perguntar se, considerando que não tem boas teorias nas mãos e enfrenta uma correlação de forças desfavorável, a esquerda pode abrir mão das poucas idéias fortes de que dispõe? Nos últimos meses, não foram poucos os intelectuais, parlamentares e ativistas sociais que manifestaram inquietação e preocupação com o presente e o futuro do PT e do governo Lula. De modos variados e com inflexões diferentes, essas vozes indagaram: Como está mesmo a qualidade da democracia interna no partido? Como está mesmo a qualidade do debate democrático do governo com o partido, com aliados históricos e a sociedade como um todo? É um tema em aberto e passível, sem dúvida, de diferentes interpretações. Mas o que parece inquestionável é a existência das inquietações e preocupações que, pela pertinência dos temas que levantam, merecem ao menos uma atenta reflexão.

O valor da prudência

A polêmica envolvendo os chamados “radicais” do PT, a instalação de uma comissão de ética no partido para julgar o comportamento desses parlamentares e o crescente desgaste do governo junto aos servidores públicos, companheiros históricos de luta, justificam no mínimo a adoção de um princípio de razão prudencial. Os problemas podem não ser tão graves e as críticas, prematuras -, mas é prudente investigá-los com espírito crítico e perguntar, por exemplo: é adequado do ponto de vista estratégico, em nome de uma correlação de forças desfavorável, adotar-se políticas e práticas que levem o PT a entrar em confronto aberto com aliados históricos do partido e do projeto? Afinal de contas, ao se brigar com aliados históricos está se acumulando forças com quem exatamente?

Boa parte das vozes que levantam tais preocupações concorda que a atual correlação de forças não permite uma política de enfrentamento com o FMI e o sistema financeiro internacional. Há os que pensam, é certo, que esse enfrentamento deveria estar sendo feito, mas estes não constituem a maioria entre as vozes discordantes. O problema parece estar situado em outro lugar. Um lugar que rejeita a alternativa: ou é essa política ou é o rompimento com o FMI. Cabe perguntar se é uma exigência do FMI que o debate político e a prática democrática cotidiana caiam de qualidade. Ou se é uma exigência dos mercados que diferenças de opinião passem a ser encaradas com menor tolerância. Ou ainda se é uma exigência do sistema financeiro internacional que o pragmatismo passe a se constituir num dos traços principais da ação política. Poderíamos resumir todas essas perguntas em uma outra: é uma exigência do FMI que a esquerda abandone suas idéias fortes e abrace conceitos estranhos à sua história e, principalmente, ao seu aprendizado?

As duas filhas da esperança

Talvez seja mesmo, se concordamos com a tese de Ellen Wood, segundo a qual o capitalismo, no seu estágio atual, é incompatível com a democracia e leva a uma progressiva corrosão da esfera pública e dos mais generosos e ricos ideais republicanos. A história recente mostra que um dos efeitos mais nefastos das políticas neoliberais é a destruição dos espaços públicos democráticos. É a destruição da própria idéia de democracia, como uma prática radical de tolerância, participação e construção coletiva. É a impregnação da política pela lógica individualista do mercado, pela lógica do balcão de negócios.

Afinal de contas, o que torna a esquerda imune à contaminação pelas idéias fortes do neoliberalismo? O que torna a esquerda imune ao individualismo, ao pragmatismo exacerbado e ao autoritarismo? A história parece mostrar que essa vacina é a radicalização da democracia, principalmente porque a esquerda é constituída por seres humanos que erram, têm limites, imperfeições e, principalmente, não têm hoje sua prática política orientada por uma teoria consistente e enfrentam uma correlação de forças desfavorável. Se é assim, talvez não seja uma boa política para a esquerda abrir mão das poucas idéias fortes de que dispõe para enfrentar o neoliberalismo. Sem elas, a esquerda corre o risco de repetir um velho erro e acabe sendo contaminada justamente pelas idéias fortes que pretende derrotar.

Para finalizar, uma contribuição de Santo Agostinho à dura tarefa de cultivar idéias fortes. A campanha vitoriosa que elegeu Lula presidente foi embalada pela idéia de esperança. É certo que os limites dessa esperança eram bem conhecidos por todos os que passaram pelas agruras de resistir à avalanche neoliberal dos últimos dez anos. E então, finalmente, houve a eleição. As palavras de Santo Agostinho talvez sirvam parar expressar o significado mais profundo da vitória: a esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las.
 


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